A Ilha mágica é como um jardim rodeado de água. No seu centro a árvore e a fonte da vida… Mitos e lendas falam-nos desses jardins frondosos, das suas árvores em flor, dos seus pomares de macieiras. Nas histórias do mundo inteiro, tais paraísos situam-se no Oeste. The Language of Ma, Annine Van der Meer
sexta-feira, 16 de dezembro de 2016
terça-feira, 15 de novembro de 2016
quarta-feira, 19 de outubro de 2016
MARIA MADALENA EM ALCOBERTAS - A CONTINUIDADE DA RELIGIÃO DA DEUSA
Perto de onde vivo, existe este fenómeno notável da continuidade do uso religioso dum dólmen neolítico. Fica na aldeia de Alcobertas, que por sua vez fica no Parque Natural da Serra dos Candeeiros, e é dedicado a Santa Maria
Madalena. No século XVI, foi construído um templo cristão contíguo ao dólmen, porque, reza a lenda, a própria Maria Madalena, após a destruição do antigo monumento para construir o novo, ela própria o reconstruiu. E fê-lo de todas as vezes que as pessoas o desmancharam, de tal forma que estas acabaram por deixá-lo de pé, erigindo um altar no seu interior.
Para lá penetrarmos, temos de passar por dentro da igreja e todo o conjunto está dedicado à Santa, embora sobre o altar também se encontre uma imagem de uma outra Santa, Ana, na verdade uma representação da Deusa mais ancestral do nosso território, Dana, Danu.
Achei delicioso o que está escrito numa placa comemorativa das obras realizadas há pouco tempo: "(...) esta Igreja Paroquial de Alcobertas dedicada a Deus com o título de Santa Maria Madalena (...).
Outras versões da lenda afirmam ainda que a mesma Santa transportou as pedras da Serra da Lua ( também existe aqui no Parque uma Serra da Lua, sim). E outra versão diz que foi Ela que "fez nascer as pedras neste local para as/os crentes poderem expiar os seus pecados".
Para lá penetrarmos, temos de passar por dentro da igreja e todo o conjunto está dedicado à Santa, embora sobre o altar também se encontre uma imagem de uma outra Santa, Ana, na verdade uma representação da Deusa mais ancestral do nosso território, Dana, Danu.
Achei delicioso o que está escrito numa placa comemorativa das obras realizadas há pouco tempo: "(...) esta Igreja Paroquial de Alcobertas dedicada a Deus com o título de Santa Maria Madalena (...).
Outras versões da lenda afirmam ainda que a mesma Santa transportou as pedras da Serra da Lua ( também existe aqui no Parque uma Serra da Lua, sim). E outra versão diz que foi Ela que "fez nascer as pedras neste local para as/os crentes poderem expiar os seus pecados".
Isso é tanto mais interessante quanto, para algumas e alguns pesquisadoras/es (entre @s quais Artur Felisberto, blogue Numância), é como se o culto de Maria Madalena
tivesse subsumido todo o legado suprimido da antiga Deusa. Enquanto "pecadora", é como se ela tivesse tomado sob a Sua alçada e proteção tudo o que pertencia à
antiga religião. Esta teoria faz sentido quando visitamos este antigo lugar onde sabemos que a Deusa foi cultuada dedicado agora a Maria Madalena, que aí está por 3 vezes representada, em dois painéis de azulejo e numa escultura muito primitiva na fachada da
igreja.
Jane Meredith, entretanto, em Journey to the Dark Goddess, considera que Maria Madalena surge por vezes na lista dos avatares da Deusa Negra, a par de Kali, Ereshkigal, Keridween, Hécate, Medusa, Morrigan, ou da Black Annis. E a verdade é que Ela lá está, em Alcobertas, num
lugar que é antes de tudo o mais um monumento funerário, onde por milhares de anos o povo honrou os seus antepassados e as suas antepassadas... um lugar onde, segundo se diz, um monumento pagão foi incorporada a outro cristão por "inteira responsabilidade" de Santa Maria Madalena.
Fontes consultadas:
Jane Meredith, Journey to the Dark Goddess
Imagens Google - Na terceira, os estranhos buracos fazem pensar, entre outras, na hipótese de terem sido feitos para colocar oferendas e/ou velas acesas, ou então pelo raspar do pó da pedra usado para fins mágicos.
terça-feira, 11 de outubro de 2016
SEPULTAMENTO CERIMONIAL NO VALE DO LAPEDO
Com 24 500 anos e vestígios do culto da Deusa
"Rituais funerários com a natureza de
rituais geradores de vida, intimamente ligados (...) aoculto da Deusa."
“A criança do Lapedo foi descoberta em 28 de Novembro de
1998, dia em que se realizou uma expedição ao Abrigo do Lagar Velho, para
estudar algumas pinturas rupestres descobertas anteriormente. A reconstituição da época demonstra que o lugar do
enterramento correspondia a um cone de acumulação de sedimentos, rodeado pela ribeira
do Sirol e uma possível exsurgência na parede calcária. Para enterrar a
criança, tinha sido escavada uma pequena fossa e queimado um ramo de
pinheiro. A criança foi embrulhada numa mortalha tingida com ocre vermelho (daí a tonalidade vermelha do solo na
sepultura) e estendida na fossa, de costas e ligeiramente inclinada para a
parede do abrigo. Junto ao pescoço foi ainda recolhida uma concha tingida a ocre, que
deveria fazer parte de um colar, e quatro dentes de veado na cabeça, que poderiam
fazer parte de uma espécie de touca. A criança foi ainda enterrada com oferendas de
carne de veado.” Ao lado da criança foi colocado ainda um filhote de
coelho, como último presente.
Este lugar, o Vale do Lapedo, terá sido habitado por mais de 10 000 anos e representa uma extraordinária riqueza do ponto de vista arqueológico.
Cito
a propósito deste sepultamento, da forma cerimonial como foi feito, com todos os
elementos que envolveu, Riane Eisler, em O
Cálice e a Espada:
“Associadas às pinturas parietais, aos santuários em cavernas
e às necrópoles, as estatuetas femininas dos povos do Paleolítico são
importantes registos psíquicos. Elas atestam o deslumbramento que
sentiam os nossos antepassados perante tanto o mistério da vida como o mistério
da morte. Elas indicam que, desde os alvores da história humana, a vontade
humana encontrou expressão e se autoafirmou por via de uma grande variedade de
rituais e mitos que parecem ter-se encontrado associados à crença, ainda
largamente disseminada, de que os mortos podem regressar à vida através de um
renascimento.
“Em grandes cavernas-santuário
como Les Trois Frères, Niaux, Font de Gaume ou Lascaux”, escreve o historiador
das religiões E. O. James, “as cerimónias devem ter envolvido um esforço
organizado por parte da comunidade (…) no sentido de dominar as forças e os
processos naturais através de meios sobrenaturais votados ao bem comum. A tradição sagrada, quer se relacione com a provisão
alimentar, o mistério do nascimento e da reprodução, ou da morte, aparentemente
surgiu e funcionou como resposta à vontade de viver aqui e no além”.2
Esta tradição sagrada encontrou expressão na notável arte
do Paleolítico. E uma componente integral desta tradição sagrada era a
associação com a mulher dos poderes que regem a vida e a morte.
Esta associação do feminino com o poder de dar vida
podemos observá-la nas necrópoles paleolíticas.
Por exemplo, no abrigo
rochoso conhecido por Cro-Magnon, em Les Eyzies, em França (onde foram
descobertos os primeiros vestígios dos nossos antepassados do Paleolítico
Superior), sobre
os cadáveres e em seu redor encontravam-se conchas de caurim, um molusco
gastrópode. Essas conchas, talhadas na forma que James descreveu discretamente
como “o umbral através do qual a criança entra no mundo”, parecem ter-se
relacionado com algum tipo de remota adoração de uma divindade feminina. Segundo
James, o caurim era um agente catalisador da vida. O mesmo sucedia com o ocre
vermelho, que em tradições posteriores era ainda o sucedâneo do sangue provedor
de vida, o sangue menstrual da mulher.3
A principal ênfase parece ter
sido na associação da mulher com a geração e o sustento da vida. ao mesmo
tempo, porém, a morte – ou, mais especificamente, a ressurreição – parece ter
constituído igualmente um tema religioso central.
Tanto a colocação ritualizada de conchas de caurim em forma de vagina sobre e em redor do cadáver, como a prática de revestir essas conchas de e/ou o cadáver com pigmento ocre vermelho (simbolizando o poder vitalizador do sangue), parecem ter feito parte de ritos funerários cuja intenção era propiciar o renascer dos defuntos. Ainda mais especificamente, como nota James, eles “apontam para rituais funerários com a natureza de rituais geradores de vida, intimamente ligados às estatuetas femininas e a outros símbolos do culto da Deusa.”4
Tanto a colocação ritualizada de conchas de caurim em forma de vagina sobre e em redor do cadáver, como a prática de revestir essas conchas de e/ou o cadáver com pigmento ocre vermelho (simbolizando o poder vitalizador do sangue), parecem ter feito parte de ritos funerários cuja intenção era propiciar o renascer dos defuntos. Ainda mais especificamente, como nota James, eles “apontam para rituais funerários com a natureza de rituais geradores de vida, intimamente ligados às estatuetas femininas e a outros símbolos do culto da Deusa.”4
Notas:
2 – Edwin Oliver
James, Cult of the Mother Goddess
3 - Edwin Oliver
James, Prehistoric Religion
4 - Edwin Oliver
James, Cult of the Mother Goddess
Referir ainda que o mais antigo ritual conhecido até
agora de sepultamento de seres humanos modernos é foi encontrado em Israel, em Qafzeh e data de há cerca de 100 000 anos. São dois cadáveres que se supõe
serem de uma mãe e uma criança. Já aí os ossos foram manchados com ocre vermelho.
Informação sobre esta descoberta
arqueológica aqui.
Imagens: Google
VALE DO LAPEDO - ANTIGAS FORMAS DE HONRAR A MORTE NO NOSSO TERRITÓRIO
O corpo foi embrulhado numa
mortalha tingida com ocre vermelho e estendido na fossa, de costas e
ligeiramente inclinado para a parede do abrigo. Junto ao pescoço foi recolhida
uma concha tingida a ocre, que deveria fazer parte de um colar, e quatro dentes
de veado na cabeça, que poderiam fazer parte de uma espécie de touca. A criança
foi ainda enterrada com oferendas de carne de veado e com um filhote de coelho como última oferenda. Na cerimónia foi ainda queimada uma rama de pinheiro.
A mais antiga sepultura que se
conhece em Portugal, e uma das mais antigas do mundo, a única do Paleolítico Superior
até agora descoberta na Península Ibérica, com 24.500 anos, foi encontrada no
final dos anos 90 no Abrigo do Lagar Velho, no Vale do Lapedo, junto da cidade de Leiria. Pertencia a uma criança com entre
4 e 5 anos de idade, referida como o Menino do Lapedo, embora seja impossível
determinar o seu género. Por isso prefiro chamar-lhe muito simplesmente a
Criança do Lapedo. O fóssil desta criança, entretanto, revelou-se de extrema
importância para o meio científico porque aparenta ter nascido do cruzamento do
Homo (ou Femina) neanderthalensis com um Homo sapiens, o que revelaria que
espécies diferentes de humanoides poderiam ter-se cruzado entre si e gerar
descendentes.
A hipótese de que os Neandertais desapareceram, não por extinção, mas por interacção entre eles e os Cro-Magnons, tendo sido assimilados, parece tornar-se plausível graças a esta descoberta. O sepultamento da criança, entretanto, foi feito de forma cerimonial uma vez que foi escavada uma pequena fossa e queimado um ramo de pinheiro. O corpo foi embrulhado numa mortalha tingida com ocre vermelho e estendido na fossa, de costas e ligeiramente inclinado para a parede do abrigo. Junto ao pescoço foi recolhida uma concha tingida a ocre, que deveria fazer parte de um colar, e quatro dentes de veado na cabeça, que poderiam fazer parte de uma espécie de touca. A criança foi ainda enterrada com oferendas de carne de veado.
Sabemos que a partir do 5º
milénio a.C., as sociedades de pastores e agricultores construíram monumentos
funerários, as ou dólmenes, de que são exemplo as antas de Belas e os sepulcros
Megalíticos dos arredores da Figueira da Foz. A maior parte dos monumentos
megalíticos que se conhecem em Portugal são sepulturas. Apresentam uma câmara
poligonal de 5, 7 ou 9 esteios, cobertos com uma grande laje ou chapéu, um
corredor de comprimento variável, com esteios mais pequenos e também cobertos
com lajes, numa nítida representação do útero da Deusa que acolhe as Suas
filhas e filhos na morte. Do século III AC, no Calcolítico, no sul do país a
construção megalítica é substituída pela técnica de falsa cúpula, dando origem
às chamadas tholos, que podemos ver na necrópole de Alcalar, concelho de
Portimão, um monumento funerário muito semelhante a Newgrange, na Irlanda.
Também as mamoas, designação dada
pelos ocupantes romanos a estas sepulturas megalíticas monumentais, semelhantes
a um seio de mulher, também usadas pelas comunidades neolíticas para enterrarem
as suas mortas e os seus mortos. Estes monumentos funerários devem ter tido um
significado simbólico importante e devem ter sido sobretudo «túmulos para os
vivos», como disse um autor britânico (tomb for the living). Ou seja,
destinavam-se provavelmente mais aos vivos do que aos mortos. E é possível que
cada núcleo ou grupo de mamoas correspondesse aos antepassados míticos de uma
determinada família ou linhagem, facultando-lhe uma referência para a sua
identidade, leio na Wikipedia, onde também se afirma que “O dólmen, escondido
debaixo de uma colina artificial (a mamoa), era como um «útero» abrigado do
olhar, onde se colocavam relíquias «no interior da terra». Podemos imaginar que
essa deposição de relíquias funerárias seria, a nível de significação
simbólica, como que um regresso do ser humano ao útero materno da Terra Mãe”.
Várias ainda foram as grutas
sepulcrais, grutas usadas como lugar de enterramento, desta feita uma forma
natural de devolver o corpo à Deusa Mãe. A famosa gruta do Escoural no
Alentejo, é um desses casos, tendo sido usada no Neolítico (5000-3000 a.C.)
pelas comunidades de agricultores e de pastores como cemitério. Na gruta da
Senhora da Luz, na zona de Rio Maior sabe-se que se fizeram enterramentos desde
o Paleolítico Superior até ao Calcolítico.
Imagens:
1. Criança do Lapedo e ambiente onde foi encontrada a sua sepultura, abrigo do Lagar Velho, Santa Eufémia, Leiria
2. Anta em Sobral Pichorro, Fornos de Algodres
3. Monumento funerário de Alcalar, Faro (semelhante a New Grange, Irlanda)
4. Gruta do Escoural, Alentejo
1. Criança do Lapedo e ambiente onde foi encontrada a sua sepultura, abrigo do Lagar Velho, Santa Eufémia, Leiria
2. Anta em Sobral Pichorro, Fornos de Algodres
3. Monumento funerário de Alcalar, Faro (semelhante a New Grange, Irlanda)
4. Gruta do Escoural, Alentejo
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