Mostrar mensagens com a etiqueta MãeMundo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta MãeMundo. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 3 de maio de 2013

MÃEMUNDO - A VISÃO DUM MUNDO CENTRADO NOS VALORES DA MÃE

 A versão definitiva deste projeto acaba de me chegar às mãos e é com imenso prazer que a publico aqui neste blogue dedicado ao Templo da Deusa do Jardim das Hespérides. Acredito que se trata dum projeto bem realista, exequível e profundamente transformador no melhor sentido... Ele foi inicialmente concebido por Kathy Jones, fundadora da Goddess Conference de Glastonbury, Inglaterra, e do Goddess Temple da mesma localidade, e depois de discutido pela Comunidade da Deusa acaba de ser lançado há dias num evento sobre o sagrado feminino em Turim.



MãeMundo
A Visão da MãeMundo  Abril 2013

A Visão da MãeMundo foi inspirada pela Senhora de Avalon, Deusa de amor, compaixão, cura e transformação na Sagrada Ilha de Avalon.

A MãeMundo é uma sociedade onde a mãe e os valores maternais - amor, atenção e apoio mútuos e para com a Mãe Terra e todas as Suas criaturas e a natureza se colocam no centro das nossas vidas, e não na periferia.

A MãeMundo é uma sociedade na qual os valores criativos e de afirmação da vida, ações, ideias e conhecimento são honrados e encorajados nas mulheres, homens e crianças. Trata-se duma sociedade baseada no facto de que todas e todos nós dependemos da Mãe Terra. Enquanto fonte e fundamento de tudo aquilo que somos e do que temos, entendemos que é necessário tomarmos efetiva conta dela, de todos os seres e de toda a vida.

Os principais valores da nova MãeMundo 

Respeito pela Mãe Terra como o ser vivo que é; partilha do amor, bondade, apoio e respeito mútuos, cuidado, compaixão; respeito por todas as formas de amor maternal, e paternal, especial carinho pelas crianças, proteção e cuidado com a terra, a água, o fogo, o ar e o espaço do mundo inteiro.

Outros valores são sugeridos para a nova MãeMundo, tais como: honestidade, integridade pessoal, autenticidade, conexão, diversidade, direito de escolha, discernimento, inclusão, confiança, beleza, expressão emocional, capacidade de escuta, capacidade para estabelecer fronteiras e limites, reflexão, desenvolvimento da alma, empoderamento, cura do aspeto sombra, busca da sabedoria, encorajamento da responsabilidade pessoal, consciência do valor próprio, respeito por si própri@, autoconfiança, autodisciplina e autorreflexão, serviço, oração, cerimonial, conexão, dádiva, recetividade, generosidade, partilha da riqueza, humor, criatividade, educação para todas as pessoas, uso de métodos não-violentos na resolução de conflitos, proteção da Mãe Natureza e de todos os seres vivos, modo de produção ético de bens e serviços, proteção das pessoas mais vulneráveis, valorização da sabedoria das anciãs e dos anciãos e d@s antepassad@s.

A MãeMundo é uma sociedade na qual as estruturas patriarcais e os valores de dominação, poder sobre, controlo e coerção, avidez, lucro excessivo, competição destrutiva, violência, violação, guerra, escravatura, sofrimento, fome, pobreza, poluição da Mãe Terra e da Sua atmosfera, são entendidos como expressões da sombra da humanidade, que necessita de ser desafiada, desconstruída, transformada e curada. Na visão MãeMundo práticas de cura são encorajadas e disponibilizadas para todas as pessoas.

Na visão MãeMundo reconhece-se que todos os seres humanos têm feridas provocadas pelo condicionamento patriarcal – padrões, emocionais e mentais que podem ser ativados na medida em que tentamos mudar o nosso mundo. Na comunidade da Deusa, temos particular consciência dos nossos aspetos sombra, os quais incluem inveja, ciúme, julgamento, competitividade, colisão, ressentimento, debilitamento, maledicência, acusação e julgamento, projeção de emoções negativas tais como raiva, vergonha, ressentimento; medo, solidão, falta de amor-próprio, de autoestima e de autoconfiança, como resultado das nossas experiências individuais, culturais e cármicas.

Na visão MãeMundo uma das nossas tarefas prioritárias consiste no amor e apoio mútuos e em assumirmos a responsabilidade pelas nossas emoções reprimidas frequentemente hostis. Estes aspetos sombra minam todos os nossos melhores esforços para mudarmos a forma como nos relacionamos, como vivemos a nossa vida de pessoas que cultuam a Deusa num mundo regido pelos valores patriarcais, como sacerdotes e sacerdotisas, nos nossos compromissos pessoais para com a Deusa, impedindo-nos de atingir o verdadeiro empoderamento. Entre nós, entretanto, já desenvolvemos muitas habilidades e técnicas de expressão emocional, de escuta recíproca, podendo oferecer reflexão e apoio para a cura destas feridas. Este trabalho de cura a nível pessoal necessita ser acelerado neste particular momento que estamos a viver e pode sê-lo com a ajuda da comunidade MãeMundo. 

Apesar do nome MãeMundo ter sido inspirado na novela de Barbara Walker “Amazon”, onde se descreve uma antiga sociedade matriarcal, de ficção, não se trata aqui do retorno a uma sociedade desse tipo, mas antes de um novo movimento em direção à criação de uma comunidade centrada nos valores maternos, onde todas as pessoas são igualmente valorizadas, apoiadas e apreciadas e onde em conjunto poderemos experimentar novas ideias e formas. MãeMundo evoca a visão dum mundo amoroso onde todas e todos nos possamos sentir segur@s no abraço da Grande Mãe.

O apelo da MãeMundo

Nós apelamos ao empoderamento das mulheres e raparigas, homens e rapazes. Apelamos ao fim de toda a violência – violência contra mulheres e raparigas, rapazes e homens, incluindo assalto, violação, mutilação genital e circuncisão, escravatura, tráfico de pessoas, tortura e guerra. Apelamos ao fim de toda a intimidação, poder sobre e todas as formas de agressão. Apelamos ao fim do comércio de armas bem como à posse individual de armas perigosas. Apelamos ao fim da fome, da pobreza, da falta de habitação, da apropriação dos recursos do planeta por uma minoria à custa da maioria. Apelamos ao fim do sacrifício de pessoas e de animais para fins religiosos, políticos ou ideias sociais. Apelamos ao fim de toda a crueldade para com os animais. Apelamos ao fim de todas as desigualdades com base no género, raça, orientação sexual, incapacidade e idade.

A visão da MãeMundo foi iniciada pela sacerdotisa de Avalon Kathy Jones e pela comunidade da Deusa do Templo da Deusa de Glastonbury, Inglaterra, incluindo Amanda Baker, Amanda Posnett, Amber Skyes, Ann James, Beci Monks, Beci Thomas, Carmen Paz, Caroline Lir, Cherry-Lee Ward, Chrissy Heaven, Christine Watkins, Christine Watts, Duncun Howell, Elin Hejll-Guest, Elle Hull, Emma-Rose Knight, Erin McCauliff, Francine van den Berg, Georgina Sirett-Smith, Joanne Foucher, Joanne Hooper, John Reeves, Josie Shaw, Katinka Soetens, Leona Graham, Lieveke Volcke, Lisa Newing, Lorraine Pickles, Louise Tarrier, Luiza Frazao, Luna Silver, Mandie Thorne, Marion van Eupen, Marisa Picardo, Michelle Patten, Mike Jones, Miriam Wallraven, Peter Huzar, Renata de Queiroz, Rose Flint, Rosie Elflain, Sandra Roman, Sharlea Sparrow, Shirley-Ann Millar, Stephanie Mathivet, Suzanne Viney, Tina Free, Trevor Nuthall, Vera Faria Leal and Vikki Winstone. Website www.goddesstemple.co.uk

Esta visão está também a ser recebida e partilhada por outras pessoas em diferentes comunidades e lugares do mundo. A visão da MãeMundo é inclusiva e sem fronteiras. Ela apoia todas as pessoas, mulheres, crianças e homens do mundo inteiro, trabalhando no sentido de trazer de volta à sociedade e às nossas vidas os valores do feminino, mudando o mundo para melhor. A MãeMundo favorece a diversidade de expressão, tal como uma Mãe ama todas as suas filhas e os seus filhos com o seu carácter particular e sua forma única de o expressar.

Comunidades MãeMundo e redes de apoio podem ser formadas por qualquer grupo de pessoas que concorde com estes princípios. Pedimos às pessoas interessadas que estabeleçam um compromisso com a MãeMundo, bem como que haja contacto e conexão entre os grupos a fim de podermos criar uma verdadeira teia de amor e de apoio aos nossos valores e ações criativas.

A visão MãeMundo será ancorada e ativada numa cerimónia a ter lugar na próxima Conferência da Deusa que terá lugar em Glastonbury de 30 de julho a 4 de agosto de 2013. Website www.goddessconference.co.uk

Compromisso com a MãeMundo

Seguem-se sugestões de compromissos a serem estabelecidos por todas as pessoas que desejam cocriar a visão MãeMundo, podendo este texto ser livremente usado por quem deseja divulgar este projeto.

Eu comprometo-me a amar e a apoiar esta Visão, as Pessoas e os Valores da MãeMundo, tal como foram apresentados acima. A minha intenção é ajudar a trazer a MãeMundo à manifestação com os meus pensamentos, palavras e ações no mundo. Eu apoio a Visão MãeMundo.

Eu comprometo-me a responsabilizar-me pelas minhas próprias feridas emocionais e mentais e pela sua cura.
Nome -----------------------------------------------------------------------------------------------------
Endereço Postal -------------------------------------------------------------------------------------------
E-mail -----------------------------------------------------------------------------------------------------
Tel. --------------------------------------------------------------------------------------------------------
Assinatura -------------------------------------------------------------------------------------------------
Data -------------------------------------------------------------------------------------------------------

Para ajudar a concretizar a Visão MãeMundo já criei/planeio criar ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

Agradece-se o favor de enviar compromisso e projetos para:
Glastonbury Goddess Temple, 2-4 High St, Glastonbury BA6 9DU

Todos os nomes e compromissos ficarão registados.

 (Tradução do original inglês por Luiza Frazão)





terça-feira, 26 de março de 2013

VIVER NUMA SOCIEDADE MATRIARCAL


A Carol Christ publicou ontem no site Feminism and Religion um artigo sobre as sociedades matriarcais e com isso simplificou-me a vida porque, tendo o nosso Jardim das Hespérides sido uma sociedade desse tipo, era minha intenção escrever sobre o tema, mas o que ela diz está tão bem dito que me limitei a traduzir o texto. Acho muito importante percebermos que outro tipo de sociedade é possível se o sonharmos e o construirmos em conjunto... afinal é isto a Nova Terra...


Como seria viver em paz numa sociedade matriarcal? Podemos imaginar?

Por Carol P. Christ
25 de março 2013

Existem muitas razões para as mulheres, os escravos e os pobres se revoltarem contra autoridades injustas em sociedades de tipo patriarcal. Mas entretanto não devemos assumir que haja razões para a revolta contra a dominação quando ela não existe, nem para nos revoltarmos contra autoridades injustas em sociedades onde elas não existem.

Em resposta à minha série recente de textos sobre o patriarcado enquanto sistema de dominação criado pela interseção do controlo da sexualidade feminina, com o sistema da propriedade privada e a guerra (Parte 1, Parte 2, Parte 3), várias pessoas me perguntaram se existe alguma forma de injustiça inerente a uma sociedade de tipo matriarcal que possa ter dado origem à criação do patriarcado pelos homens como expressão da sua revolta.

A ideia por detrás desta questão é que se as mulheres são dominadas pelos homens nas sociedades patriarcais, então os homens também foram dominados pelas mulheres nas sociedades pré-patriarcais. Implícita nesta questão está a ideia de que deve ter havido uma “boa razão” para o desenvolvimento do patriarcado. A ideia de que na origem não houve qualquer “boa razão” para a existência do patriarcado – caso “boa” signifique justa – é simplesmente demasiado dolorosa para poder ser considerada por muit@s de nós.

O elo perdido nesta questão é a nossa incapacidade de imaginarmos sociedades sem dominação.

Segundo Heidi Goettner-Abendroth, “sociedades matriarcais” são “sociedades pacíficas” nas quais nenhum dos géneros domina o outro.

As sociedades matriarcais têm 4 características em comum:

1)      Praticam agricultura em pequena escala e conseguem a igualdade através da dádiva transformada em hábito social.

2)      São igualitárias, matrilocais e matrilineares. Mulheres e homens são definid@s pela sua conexão com o clã materno que possui a terra em comum.

3)      Têm sistemas bem desenvolvidos de obtenção de consenso nas tomadas de decisão, que garantem que todas as opiniões sejam tidas em consideração.

4)      Respeitam princípios como o amor, o cuidado com as outras pessoas, a generosidade, os quais associam à ideia de maternidade e que ambos os géneros são ensinados a manifestar. Veem frequentemente a Terra como a Grande Mãe.

Como seria viver numa sociedade pacífica, “matriarcal”?

Enquanto crianças, não teríamos de lutar com as nossas irmãs e os nossos irmãos pela atenção da nossa mãe ou do nosso pai. Tanto as raparigas como os rapazes receberiam o mesmo amor e atenção da parte das mães, avós e ti@s. tanto as raparigas como os rapazes teriam a certeza de sempre terem lugar no clã materno. Tanto enquanto rapaz como enquanto rapariga nunca teríamos de nos “separar de” nem de rejeitar a nossa mãe para “fazermos a experiência de nós enquanto indivíduos” nem para “crescermos”.

Poderíamos crescer sem necessidade de romper os laços com as pessoas que primeiro nos amaram e cuidaram de nós.  
Seríamos criad@s numa família alargada com irmãs, irmãos e prim@s, tod@s considerad@s noss@s irmãs e irmãos. Nunca nos sentiríamos sós. Nunca nos ensinariam a competir com as nossas irmãs e irmãos. Nunca nos atacaríamos entre nós porque comportamentos violentos não seriam apropriados dentro da família.

Quando chegássemos à idade de ter sexo, poderíamos ter todo o sexo que nos apetecesse. Ser-nos-ia ensinado que sexo é algo alegre e prazenteiro. Quando os casais já não sentissem atração mútua, facilmente separar-se-iam e encontrariam outras pessoas.

Não haveria razão para as famílias se preocuparem com o interesse das crianças pelo sexo. Como todas as crianças têm uma mãe e todas as mães têm casa no clã materno, não haveria crianças “ilegítimas”, “bastardas”, “mulheres perdidas”, “vadias” ou prostitutas. Como o sexo seria livre, a prostituição não faria qualquer sentido.

As crianças nascidas dessas relações teriam sempre um lar no clã da sua família materna. As mães seriam ajudadas na educação das crianças pelas suas irmãs e irmãos, pelas mães e avós, tias e tios. Uma jovem grávida ou com uma criança pequena nunca seria rejeitada nem “entregue à sua sorte”.

Com tanta ajuda, as mulheres poderiam trabalhar “fora de casa” nos campos comunitários juntamente com as suas e os seus parentes. Uma mãe nunca ficaria “confinada” ou “fechada” com as crianças. “O problema d@s sem nome” descrito por Betty Friedan não se poria. Mães que não se sentiriam sozinhas, nem oprimidas, não sentiriam qualquer necessidade de “fazerem as suas filhas e filhos pagarem” pela sua infelicidade.

Um jovem não teria a obrigação de “prover” ao sustento das crianças, uma vez que isso seria da responsabilidade do clã materno. Um jovem contribuiria para o seu próprio clã e ajudaria as suas irmãs e primas a cuidar das suas crianças. Estas crianças vê-lo-iam como o seu “modelo de masculinidade”. Os homens trabalhariam com as mães e as irmãs nos campos, em projetos de construção ou comércio com outros clãs.

Quer fossemos rapazes ou raparigas, homens ou mulheres, teríamos sempre a certeza de sermos amad@s, pois seríamos ensinad@s a amar e a cuidar das outras pessoas. Não seriamos ensinad@s a competir, enganar ou cumular para nós propri@s. Caso tivéssemos uma habilidade especial, seríamos encorajad@s a desenvolvê-la, mas nunca a pensarmos que isso nos tornaria superiores a qualquer outra pessoa.

Tanto enquanto rapazes como enquanto raparigas, seríamos ensinad@s a respeitar as pessoas de idade, em particular as avós e os avôs. Isto não significa que estas pessoas tomariam o poder sobre nós, porque os clãs teriam sistemas democráticos bem desenvolvidos de forma a obter consensos que permitiriam a qualquer voz ser ouvida antes da tomada de decisões importantes.

Seguramente que haveria conflitos, ciúmes e desentendimentos em sociedades pacíficas, mas quando os conflitos ocorressem, não seriam resolvidos pela força porque a todas as pessoas teria sido ensinado que a partilha e a generosidade de espírito são as melhores formas de resolver conflitos.

Sociedades pacíficas estão tão longe daquela em que vivemos e são estranhamente tão atraentes, que muitas pessoas julgam que elas nunca existiram. No entanto, sociedades pacíficas existiram em todos os continentes do planeta e existem ainda hoje em dia em vários níveis entre os povos Iroquois, os Zapotecas, os Kuna, os Shipibo, os Samoans, os Asante, os Khoisan, os Tuaregs, os Berberes, os Kasai, os Minangkabau, os Mosuo e outros.

Não sei o que acham, mas quanto a mim, eu adoraria viver numa sociedade assim. Se procuramos “razões para” a existência do patriarcado, não creio que a infelicidade dos homens em tais sistemas fosse uma delas. Tanto os rapazes como os homens são amados, honrados e muito considerados. Eles não têm de lutar, de ir à guerra, para se afirmarem e têm todo o sexo que querem, portanto assumo que sejam extremamente felizes.

Adoro imaginar todas as pessoas da terra a viverem em sociedades pacíficas onde os valores do amor, da partilha e da generosidade são considerados os mais importantes. A “idade de ouro” não tem de ser uma ideia do passado. Sonho com a possibilidade dela ser o nosso futuro.

Carol Christ
Traduzido por Luiza Frazão


Imagem: mulheres do povo Mosuo (Google)

Formação de Sacerdotisas da Deusa do Jardim das Hespérides - opinião das formandas

Após completarem a primeira Espiral, algumas das formandas disseram: “Profundamente transformador, com ênfase em exercícios práticos...