O corpo foi embrulhado numa
mortalha tingida com ocre vermelho e estendido na fossa, de costas e
ligeiramente inclinado para a parede do abrigo. Junto ao pescoço foi recolhida
uma concha tingida a ocre, que deveria fazer parte de um colar, e quatro dentes
de veado na cabeça, que poderiam fazer parte de uma espécie de touca. A criança
foi ainda enterrada com oferendas de carne de veado e com um filhote de coelho como última oferenda. Na cerimónia foi ainda queimada uma rama de pinheiro.
A mais antiga sepultura que se
conhece em Portugal, e uma das mais antigas do mundo, a única do Paleolítico Superior
até agora descoberta na Península Ibérica, com 24.500 anos, foi encontrada no
final dos anos 90 no Abrigo do Lagar Velho, no Vale do Lapedo, junto da cidade de Leiria. Pertencia a uma criança com entre
4 e 5 anos de idade, referida como o Menino do Lapedo, embora seja impossível
determinar o seu género. Por isso prefiro chamar-lhe muito simplesmente a
Criança do Lapedo. O fóssil desta criança, entretanto, revelou-se de extrema
importância para o meio científico porque aparenta ter nascido do cruzamento do
Homo (ou Femina) neanderthalensis com um Homo sapiens, o que revelaria que
espécies diferentes de humanoides poderiam ter-se cruzado entre si e gerar
descendentes.
A hipótese de que os Neandertais desapareceram, não por extinção, mas por interacção entre eles e os Cro-Magnons, tendo sido assimilados, parece tornar-se plausível graças a esta descoberta. O sepultamento da criança, entretanto, foi feito de forma cerimonial uma vez que foi escavada uma pequena fossa e queimado um ramo de pinheiro. O corpo foi embrulhado numa mortalha tingida com ocre vermelho e estendido na fossa, de costas e ligeiramente inclinado para a parede do abrigo. Junto ao pescoço foi recolhida uma concha tingida a ocre, que deveria fazer parte de um colar, e quatro dentes de veado na cabeça, que poderiam fazer parte de uma espécie de touca. A criança foi ainda enterrada com oferendas de carne de veado.
Sabemos que a partir do 5º
milénio a.C., as sociedades de pastores e agricultores construíram monumentos
funerários, as ou dólmenes, de que são exemplo as antas de Belas e os sepulcros
Megalíticos dos arredores da Figueira da Foz. A maior parte dos monumentos
megalíticos que se conhecem em Portugal são sepulturas. Apresentam uma câmara
poligonal de 5, 7 ou 9 esteios, cobertos com uma grande laje ou chapéu, um
corredor de comprimento variável, com esteios mais pequenos e também cobertos
com lajes, numa nítida representação do útero da Deusa que acolhe as Suas
filhas e filhos na morte. Do século III AC, no Calcolítico, no sul do país a
construção megalítica é substituída pela técnica de falsa cúpula, dando origem
às chamadas tholos, que podemos ver na necrópole de Alcalar, concelho de
Portimão, um monumento funerário muito semelhante a Newgrange, na Irlanda.
Também as mamoas, designação dada
pelos ocupantes romanos a estas sepulturas megalíticas monumentais, semelhantes
a um seio de mulher, também usadas pelas comunidades neolíticas para enterrarem
as suas mortas e os seus mortos. Estes monumentos funerários devem ter tido um
significado simbólico importante e devem ter sido sobretudo «túmulos para os
vivos», como disse um autor britânico (tomb for the living). Ou seja,
destinavam-se provavelmente mais aos vivos do que aos mortos. E é possível que
cada núcleo ou grupo de mamoas correspondesse aos antepassados míticos de uma
determinada família ou linhagem, facultando-lhe uma referência para a sua
identidade, leio na Wikipedia, onde também se afirma que “O dólmen, escondido
debaixo de uma colina artificial (a mamoa), era como um «útero» abrigado do
olhar, onde se colocavam relíquias «no interior da terra». Podemos imaginar que
essa deposição de relíquias funerárias seria, a nível de significação
simbólica, como que um regresso do ser humano ao útero materno da Terra Mãe”.
Várias ainda foram as grutas
sepulcrais, grutas usadas como lugar de enterramento, desta feita uma forma
natural de devolver o corpo à Deusa Mãe. A famosa gruta do Escoural no
Alentejo, é um desses casos, tendo sido usada no Neolítico (5000-3000 a.C.)
pelas comunidades de agricultores e de pastores como cemitério. Na gruta da
Senhora da Luz, na zona de Rio Maior sabe-se que se fizeram enterramentos desde
o Paleolítico Superior até ao Calcolítico.
Imagens:
1. Criança do Lapedo e ambiente onde foi encontrada a sua sepultura, abrigo do Lagar Velho, Santa Eufémia, Leiria
2. Anta em Sobral Pichorro, Fornos de Algodres
3. Monumento funerário de Alcalar, Faro (semelhante a New Grange, Irlanda)
4. Gruta do Escoural, Alentejo
1. Criança do Lapedo e ambiente onde foi encontrada a sua sepultura, abrigo do Lagar Velho, Santa Eufémia, Leiria
2. Anta em Sobral Pichorro, Fornos de Algodres
3. Monumento funerário de Alcalar, Faro (semelhante a New Grange, Irlanda)
4. Gruta do Escoural, Alentejo
