A Carol Christ publicou ontem no site Feminism and Religion um artigo sobre as sociedades matriarcais e com isso simplificou-me a vida porque, tendo o nosso Jardim das Hespérides sido uma sociedade desse tipo, era minha intenção escrever sobre o tema, mas o que ela diz está tão bem dito que me limitei a traduzir o texto. Acho muito importante percebermos que outro tipo de sociedade é possível se o sonharmos e o construirmos em conjunto... afinal é isto a Nova Terra...
Como seria viver em paz numa sociedade matriarcal? Podemos imaginar?
Por Carol P. Christ
25 de março 2013
Existem muitas razões para as
mulheres, os escravos e os pobres se revoltarem contra autoridades injustas em
sociedades de tipo patriarcal. Mas entretanto não devemos assumir que haja
razões para a revolta contra a dominação quando ela não existe, nem para nos
revoltarmos contra autoridades injustas em sociedades onde elas não existem.
Em resposta à minha série recente
de textos sobre o patriarcado enquanto sistema de dominação criado pela
interseção do controlo da sexualidade feminina, com o sistema da propriedade
privada e a guerra (Parte 1, Parte 2, Parte 3), várias pessoas me perguntaram
se existe alguma forma de injustiça inerente a uma sociedade de tipo matriarcal
que possa ter dado origem à criação do patriarcado pelos homens como expressão
da sua revolta.
A ideia por detrás desta questão
é que se as mulheres são dominadas pelos homens nas sociedades patriarcais, então
os homens também foram dominados pelas mulheres nas sociedades pré-patriarcais.
Implícita nesta questão está a ideia de que deve ter havido uma “boa razão”
para o desenvolvimento do patriarcado. A ideia de que na origem não houve
qualquer “boa razão” para a existência do patriarcado – caso “boa” signifique
justa – é simplesmente demasiado dolorosa para poder ser considerada por muit@s
de nós.
O elo perdido nesta questão é a
nossa incapacidade de imaginarmos sociedades sem dominação.
Segundo Heidi Goettner-Abendroth,
“sociedades matriarcais” são “sociedades pacíficas” nas quais nenhum dos
géneros domina o outro.
As sociedades matriarcais têm 4 características
em comum:
1) Praticam
agricultura em pequena escala e conseguem a igualdade através da dádiva
transformada em hábito social.
2) São
igualitárias, matrilocais e matrilineares. Mulheres e homens são definid@s pela
sua conexão com o clã materno que possui a terra em comum.
3) Têm
sistemas bem desenvolvidos de obtenção de consenso nas tomadas de decisão, que
garantem que todas as opiniões sejam tidas em consideração.
4) Respeitam
princípios como o amor, o cuidado com as outras pessoas, a generosidade, os
quais associam à ideia de maternidade e que ambos os géneros são ensinados a
manifestar. Veem frequentemente a Terra como a Grande Mãe.
Como seria viver numa sociedade pacífica, “matriarcal”?
Enquanto crianças, não teríamos de
lutar com as nossas irmãs e os nossos irmãos pela atenção da nossa mãe ou do
nosso pai. Tanto as raparigas como os rapazes receberiam o mesmo amor e atenção
da parte das mães, avós e ti@s. tanto as raparigas como os rapazes teriam a
certeza de sempre terem lugar no clã materno. Tanto enquanto rapaz como
enquanto rapariga nunca teríamos de nos “separar de” nem de rejeitar a nossa
mãe para “fazermos a experiência de nós enquanto indivíduos” nem para “crescermos”.
Poderíamos crescer sem necessidade de romper os laços com as pessoas que primeiro nos amaram e cuidaram de nós.
Poderíamos crescer sem necessidade de romper os laços com as pessoas que primeiro nos amaram e cuidaram de nós.
Seríamos criad@s numa família
alargada com irmãs, irmãos e prim@s, tod@s considerad@s noss@s irmãs e irmãos. Nunca
nos sentiríamos sós. Nunca nos ensinariam a competir com as nossas irmãs e irmãos.
Nunca nos atacaríamos entre nós porque comportamentos violentos não seriam
apropriados dentro da família.
Quando chegássemos à idade de ter
sexo, poderíamos ter todo o sexo que nos apetecesse. Ser-nos-ia ensinado que
sexo é algo alegre e prazenteiro. Quando os casais já não sentissem atração
mútua, facilmente separar-se-iam e encontrariam outras pessoas.
Não haveria razão para as famílias
se preocuparem com o interesse das crianças pelo sexo. Como todas as crianças
têm uma mãe e todas as mães têm casa no clã materno, não haveria crianças “ilegítimas”,
“bastardas”, “mulheres perdidas”, “vadias” ou prostitutas. Como o sexo seria
livre, a prostituição não faria qualquer sentido.
As crianças nascidas dessas
relações teriam sempre um lar no clã da sua família materna. As mães seriam
ajudadas na educação das crianças pelas suas irmãs e irmãos, pelas mães e avós,
tias e tios. Uma jovem grávida ou com uma criança pequena nunca seria rejeitada
nem “entregue à sua sorte”.
Com tanta ajuda, as mulheres
poderiam trabalhar “fora de casa” nos campos comunitários juntamente com as
suas e os seus parentes. Uma mãe nunca ficaria “confinada” ou “fechada” com as
crianças. “O problema d@s sem nome” descrito por Betty Friedan não se poria. Mães
que não se sentiriam sozinhas, nem oprimidas, não sentiriam qualquer
necessidade de “fazerem as suas filhas e filhos pagarem” pela sua infelicidade.
Um jovem não teria a obrigação de
“prover” ao sustento das crianças, uma vez que isso seria da responsabilidade
do clã materno. Um jovem contribuiria para o seu próprio clã e ajudaria as suas
irmãs e primas a cuidar das suas crianças. Estas crianças vê-lo-iam como o seu “modelo
de masculinidade”. Os homens trabalhariam com as mães e as irmãs nos campos, em
projetos de construção ou comércio com outros clãs.
Quer fossemos rapazes ou
raparigas, homens ou mulheres, teríamos sempre a certeza de sermos amad@s, pois
seríamos ensinad@s a amar e a cuidar das outras pessoas. Não seriamos ensinad@s
a competir, enganar ou cumular para nós propri@s. Caso tivéssemos uma
habilidade especial, seríamos encorajad@s a desenvolvê-la, mas nunca a pensarmos
que isso nos tornaria superiores a qualquer outra pessoa.
Tanto enquanto rapazes como enquanto
raparigas, seríamos ensinad@s a respeitar as pessoas de idade, em particular as
avós e os avôs. Isto não significa que estas pessoas tomariam o poder sobre
nós, porque os clãs teriam sistemas democráticos bem desenvolvidos de forma a
obter consensos que permitiriam a qualquer voz ser ouvida antes da tomada de decisões
importantes.
Seguramente que haveria
conflitos, ciúmes e desentendimentos em sociedades pacíficas, mas quando os
conflitos ocorressem, não seriam resolvidos pela força porque a todas as
pessoas teria sido ensinado que a partilha e a generosidade de espírito são as
melhores formas de resolver conflitos.
Sociedades pacíficas estão tão longe
daquela em que vivemos e são estranhamente tão atraentes, que muitas pessoas
julgam que elas nunca existiram. No entanto, sociedades pacíficas existiram em
todos os continentes do planeta e existem ainda hoje em dia em vários níveis
entre os povos Iroquois, os Zapotecas, os Kuna, os Shipibo, os Samoans, os
Asante, os Khoisan, os Tuaregs, os Berberes, os Kasai, os Minangkabau, os Mosuo
e outros.
Não sei o que acham, mas quanto a
mim, eu adoraria viver numa sociedade assim. Se procuramos “razões para” a
existência do patriarcado, não creio que a infelicidade dos homens em tais
sistemas fosse uma delas. Tanto os rapazes como os homens são amados, honrados
e muito considerados. Eles não têm de lutar, de ir à guerra, para se
afirmarem e têm todo o sexo que querem, portanto assumo que sejam extremamente
felizes.
Adoro imaginar todas as pessoas
da terra a viverem em sociedades pacíficas onde os valores do amor, da partilha
e da generosidade são considerados os mais importantes. A “idade de ouro” não
tem de ser uma ideia do passado. Sonho com a possibilidade dela ser o nosso
futuro.
Carol Christ
Traduzido por Luiza Frazão
Imagem: mulheres do povo Mosuo (Google)
