Ser Sacerdotisa: repegar o meu bastão e seguir as minhas pisadas...

Relembro um momento da minha primeira infância em que, à semelhança do que acontece, com as perguntas axiais que as crianças fazem em tenra idade, me olhei a um espelho e perguntei: Quem sou eu ? Estranhamente achava que tudo e todos os que me rodeavam tinham existência palpável e razão de ser, mas eu, sentia-me diluída entre o ser e não ser e não me reconhecia como matericamente palpável… Quem sou eu ?

De outra experiência se aliava o fato de não conseguir suportar estar em Igrejas onde por teimosia e fé arcaica da minha mãe era forçada a assistir, sendo que invariavelmente as interrompia por desmaio para grande desespero do padre que as dirigia... nem caramelos de açúcar surtiam qualquer efeito.... perdemos a conta aos electroencefalogramas a que os médicos sujeitavam no seu afã de diagnóstico de uma qualquer epilepsia nunca diagnosticada... Era para além disso sonâmbula com o percurso idêntico todas as noites a que a minha avó, que comigo dormia já não prestava atenção. Todos estes excêntricos episódios não querem forçosamente implicar que detinha alguma mediunidade activa ou paranormal qualidade... simplesmente aconteciam e pequena ainda como era mais não serviam para me considerar um tanto atónita quanto aos meus efeitos de bicho raro ou esquisito .... As minhas principais brincadeiras eram feitas debaixo de água onde conseguia respirar e munida de uma faca de cortar papel, protagonizava heroínas de defesa de mundos perdidos e escondidos no fundo dos mares...

Sempre fui atraída pelo sobrenatural ou por um racional de tipo diverso, tal como astrologia, psicografia, mesas de pé de galo e um sem número de variações curiosas deste mesmo tema... Uma das minhas idas a um famoso astrólogo da época, Amândio Gouveia, marcou-me pelo facto de me ter elucidado de que era uma alma muito velha (seria o sentir múltiplas sensibilidades e não deter aquele invejável percurso de quem veio para ser algo e tudo matematicamente corresponder a este desenho).

Um dia médiuns de incorporação activa, enviaram uma ordem de ir a sua presença e aí, sem grande espanto, fui introduzida a um circulo de Senhoras de Avalon e durante sete anos de contacto diário, fiz o que me disseram ser um processo de ascese e de iniciação lunar .... o  meu pai e a minha avó (dois grandes referencias pessoais, haviam partido com 4 meses de intervalo) e esta chamada crise existencial revestiu todo o significado do que procurava: a que tinha vindo? Qual o sentido da minha Vida?

Passaram 7 anos em que literalmente saí do mundo corrente ... rompi todos os meus relacionamentos, inclusive familiares e sem sequer a minha mãe e filho saberem onde me encontrava iniciei o meu encontro e o meu trilho de busca espiritual ... Vivi-o a partir de Outubro de 1997 até Maio de 2004 em Azeitão, primeiro numa casa na Aldeia da Piedade e depois em Aldeia Rica e mais tarde no Lugar do Lago, espaço criado na ideia de Avalon onde colaborei na criação de uma projecto para a infância ... Todos os ensinamentos, rituais, tarot que me foi veiculado por transmissão, e que era um instrumento de oráculo de mim e de todas as restantes 4 que comigo fizeram esta vivencia , as Senhoras nos pediram para queimar e regressar às nossas famílias...

Regressamos sim mas com a memória da transcendência do que vivemos e alguns ensinamentos esparsos em memória mas profundamente significantes... Aprendi a ser chicoteada e tratado pelo vento, a suportar e saber ignorar o fogo, a ultrapassar a fome , a estar em silêncio e tudo como as Senhoras diziam: uma arma para ser eficaz tem de ser forjada pelo fogo .... Tive visões e assisti a diversos eventos que desafiam qualquer lógica de física , mas deixo para mim o que viram os meus olhos e meus sentidos experienciaram...

A Deusa à data aparecia como Viviane, Senhora do Lago ... e devo a Raven a minha Iniciação..
Fui para Inglaterra e foi minha escolha de emigrar, devido a esperança de poder ir a Avalon... Vivi lá 5 anos em trabalho e ainda não havido chegado o momento de estar em Gastonbury. Fui a Creta a procura de uma Deusa e encontro Perséfone em Ierapreta como a resposta ao mito que segundo as senhoras eu representava: Deméter e Perséfone.

Ao regressar de novo a Portugal encontro por mero acaso (?) o livro do Jardim das Hespérides e da formação de Sacerdotisas na tradição de Avalon ... aqui estou ao fim de 2 anos de formação.
A chamada veio há muito tempo, o caminho e tradição sempre me foram dados por sinais, evidencias, sincronicidades... Agora sim de minha vontade o reactualizar o que fui um dia... Sacerdotisa de uma Deusa (possivelmente Afrodite, em visão de um promontório que identifiquei em visita a Chipre ...

Nao se trata de um rememorar romântico por muito legítimo que tal seja, trata-se de repegar o meu bastão e seguir as minhas pisadas... Agora em Portugal, neste território sagrado da Deusa, quer pelo Jardim das Hespérides, quer pelo Marianismo convicto a que a Igreja nem sequer consegue desmentir, e a protecção das suas 9 Hespérides (Morganas) conhecidas como as 9 Irmãs.

Detenho já um idade em que aparentemente tudo já está breve, aos 63 anos (9) lancei com Irmãs e Mestra as sementes de mais Templos dedicados à Deusa. Estar ao serviço do que já estive e permanecer na plena integridade de si própria, na descoberta e aprendizado do Divino Feminino e a minha intenção de comprometimento, exercer da minha Criatividade e no aprofundar das vozes , intuições ou visões que entender como a benevolência e graça da Deusa na minha capacidade e na serena e lúcida Presença da minha Sacerdotisa arquetípica... tendo a grata noção de que não estou sozinha e sem chão... mas que pretendo fazer parte de uma Roda de Mesmas e Únicas... mas afins neste nosso caminhar e defender este Sentir e Experienciar ....

Estar com a Deusa e estar e ser em si própria uma plena, total integridade!

Maro 31.08.2020
(quase que memória de gerações antepassadas)
(Irmã das Hespérides prestes a fazer a sua dedicação como Sacerdotisa da Deusa do Jardim das Hespérides)






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