terça-feira, 2 de junho de 2026

Conferência da Deusa Portugal 2026 Honrando Cale das Águas – Útero Sagrado da Criação

 

A quarta edição da Conferência da Deusa Portugal realizou-se entre 8 e 10 de Maio, desta vez dedicada à Mãe das Águas. Por essa razão escolhemos a Foz do Arelho, onde as águas doces da Lagoa de Óbidos, alimentadas pelos rios Arnóia, Real e da Cal, se abrem ao mar e com ele comunicam. Foi tendo esta paisagem aquática como pano de fundo que, nas instalações do INATEL, realizámos o nosso evento, após dois intensos anos de preparação.

Contámos, como sempre, com dois grupos de serviço: oito Sacerdotisas e um Sacerdote cerimonialistas, e nove Sacerdotisas do Círculo. Tivemos ainda o precioso apoio de seis melissas e a participação de inúmeras pessoas que encheram o Salão Atlântico de presença, entusiasmo e devoção.


Entre as nossas convidadas estiveram Kathy Jones, Angie Twydall, Amanda Baker, Sandra Evers, Yeshe Matthews, Annwyn Avalon, Luísa Borges, Filipa Faustino — que, além de Sacerdotisa, apresentou também uma palestra —, Ouassima Israe, Sara Ramadoro, Tara Chantelle Gomez, Elaine Wattam e Cristina Moreira. Contámos igualmente com a presença de Angel Roda Saucco, Sacerdote que nos falou de Noctiluca, Deusa da Lua, e da sua gruta-templo em Málaga. Entre os palestrantes estiveram ainda Laura Ghianda, Filipa Faustino, Angel Roda Saucco e eu própria. As Sacerdotisas cerimonialistas Juliana Di Avalon e Alice Campos dinamizaram também diversos workshops.

O tema do primeiro dia foram os rios de Nábia. Na cerimónia de abertura invocámos as bênçãos das Senhoras dos Grandes Rios de cada uma das direcções, com as quais cada cerimonialista se havia conectado ao longo dos meses de preparação. Pequenas amostras das suas águas, pedras, limos e areias constituíam os tesouros que trouxemos para os altares direccionais.


Entre os rios escolhidos encontravam-se o das Maçãs, o Dão, o Douro, o Sado, o Mondego e o Guadiana. Mas também o Boyne, na Irlanda (evocando a nossa Ribeira de Boina do Algarve), de onde veio a Sacerdotisa Juliana Di Avalon; o Manzanares, de Madrid, cidade natal de Angel Roda Saucco/Saucco de Trivia; e o Larganza, de Itália, país de origem da Sacerdotisa Laura Ghianda. Cada um deles com as suas Deusas e Ninfas, os seus poderes e a sua magia.

Evocámos a nossa tradição utilizando cântaros de barro antigos, dos quais pendiam longas tiras de seda azul simbolizando a corrente dessas águas, estendendo-se desde o centro da sala até aos respectivos altares direccionais. No centro, um grande cálice acolhia as águas que cada participante havia sido convidada a trazer consigo, solenemente transportadas na sua “barca”, para oferecer a Cale das Águas.

No final da cerimónia, oferecemos a mistura de todas essas águas a Tétis, Deusa do Mar da nossa Roda, e entregámos a cada participante um pequeno frasco como lembrança e talismã. A bela música que acompanhou as nossas cerimónias foi criada especialmente para a ocasião por Ana Catarina Rosalys.

Logo após a cerimónia de abertura seguiram-se as primeiras palestras. A minha teve como tema os “Rios do Paraíso”, inspirada nos mistérios do Alva e do Alvoco, nas margens dos quais se encontram três sítios das Nove Irmãs. Num deles encontra-se a Pedra da Cabeça da Velha e, não muito longe, um par de chifres em granito que evocam os famosos Chifres da Consagração cretenses, símbolo religioso fundamental da civilização minoica, associado ao carácter sagrado dos lugares, à fertilidade e à Grande Deusa. De resto, toda a serra parece guardar ecos desse simbolismo, desde a estrela que lhe deu o nome — Aldebarã, o Olho do Touro — até às associações possíveis com a constelação de Touro, Vénus e as Plêiades, as próprias Irmãs.

Seguiram-se outras comunicações de grande interesse, conforme se pode constatar pelo programa da Conferência.

Uma apresentação de belas vestes cerimoniais criadas pela Sacerdotisa do Círculo Sandra Marques e apresentadas por Alenka encerrou os trabalhos do primeiro dia.

O segundo dia foi dedicado à cura e às águas profundas. Invocámos as Senhoras do Grande Lago de cada uma das direcções, pedindo-Lhes cura para as nossas emoções mais densas. No centro do salão recriámos o ambiente da gruta, onde cada participante foi acolhida numa cerimónia de cura profunda, significativa e comovente.

Seguiram-se palestras de Sara Ramadoro, Angel Roda Saucco, Annwyn Avalon e Yeshe Matthews. Depois, Kathy Jones e Angie Twydall conduziram-nos em dinâmicas de cura das nossas águas uterinas e das nossas águas mais tóxicas.

Ao longo da tarde realizou-se uma selecção de excelentes workshops e, ao serão, no Coração dos Mistérios, teve lugar a cerimónia de incorporação da Deusa. Acompanhada pelas Sacerdotisas do Círculo e pelas taças tibetanas tocadas por Nadine Santos, criou-se uma atmosfera perfeita para uma ocasião tão especial e sagrada.

No domingo, o dia começou com uma pequena cerimónia de junção, no grande cálice central, das águas trazidas de alguns dos mais míticos rios portugueses, incluindo até o Nilo. Em seguida saímos em procissão pelo extenso areal da Foz do Arelho, junto à Lagoa, até alcançarmos o grande Atlântico.

Ali invocámos as Deusas das Águas e da Lua — Tétis, Nábia, Marinha, Maria, Cynthia, Selene, Diana e muitas outras — oferecendo-Lhes o som dos tambores e das maracas, as nossas vozes, pétalas de rosas, a mistura das águas trazidas por todos os participantes e também as toxinas emocionais que haviam sido deixadas na gruta recriada na cerimónia do dia anterior.


Foi um dos momentos mais elevados de todo o evento. Estarmos juntas e juntos na Sua natureza, junto das Suas águas oceânicas, que pareciam revelar-se a cada instante mais intensas, misteriosas, vivas e poderosas, constituiu uma experiência profundamente tocante. Antes de partirmos, escrevemos na areia palavras de amor e gratidão pelas águas da Vida.

À tarde, tivemos o imenso prazer de apresentar a edição portuguesa do livro de Kathy Jones, Sacerdotisa de Avalon, Sacerdotisa da Deusa, traduzido por mim e publicado pela Associação Cultural Jardim das Hespérides. Foi sem dúvida uma grande honra termos tido connosco a autora, a Sacerdotisa que iniciou este caminho de devoção à Deusa, que criou a Conferência e o Templo da Deusa de Glastonbury, que abriu caminhos tão belos e significativos para o nosso tempo.

O programa era tão rico que ainda tivemos mais palestras. Cristina Moreira apresentou-nos um fascinante trabalho de investigação sobre as chamadas Águas Santas de Portugal, ou águas tradicionalmente consideradas curativas, cruzando folclore e ciência e revelando conclusões preciosas acerca do poder terapêutico das águas e da intuição popular para o reconhecer e dele beneficiar.

Ainda no domingo, Marcelle Bottini realizou a sua bela cerimónia No Coração da Rosa. Laura Ghianda, autora de Introduzione alla Teasofia – La Dea oltre i Dualismi (Introdução à Teasofia — A Deusa para Além dos Dualismos), trouxe-nos uma perspectiva original sobre a Deusa, entendida não como uma nova religião nem como uma tentativa de restaurar um passado matriarcal idealizado, mas antes como uma matriz simbólica e espiritual capaz de transcender os dualismos que estruturam o pensamento ocidental e de inspirar um novo humanismo.

Na verdade, o nosso evento foi tão rico em cerimónias e vivências quanto em ensinamentos, partilhados por palestrantes excepcionais, sábias, inspiradas e profundamente inspiradoras. Algumas trouxeram-nos investigações particularmente originais, como as Sacerdotisas em acção na região de Manchester, dedicadas a uma tradição da Deusa inspirada no antigo Mamucium, nome romano da cidade. A partir da memória da paisagem, do rio e das antigas raízes do lugar, construíram uma prática espiritual viva e profundamente enraizada na comunidade local, falando-nos também do seu importante trabalho junto das populações mais desfavorecidas e marginalizadas.

E tudo isso nos foi possível ouvir e compreender em português e em inglês graças à nossa fantástica e incansável tradutora, Joana Nobre, já bem conhecida do público que acompanha regularmente o nosso evento.

Criar esta Conferência é sempre um enorme desafio. Felizmente, a Deusa tem-nos trazido as pessoas certas. Uma das grandes alegrias desta fase da minha vida é precisamente este trabalho voluntário de entrega, criatividade e parceria, em que os sonhos ganham forma e a imaginação encontra espaço para florescer, inclusive nas artistas plásticas, como Antonieta Silvino (autora da Senhora das Águas do altar principal); Cristina Grumete, a nossa Melissa Mãe; Célia Reis e na cantora e compositora Ana Catarina, que nos oferecem com tanta generosidade os dons do seu talento.

Tudo isto é feito por amor a uma causa maior, que tanto nos entusiasma e que tanta alegria, amizade e coesão nos traz.

E já sonhamos com 2028, quando honraremos a Deusa como a Grande Mãe Criadora no festival das primeiras colheitas.

Abençoada!

@conferenciadeusaportugal2026

@luiza.frazao.sacerdotisa



Conferência da Deusa Portugal 2026 Honrando Cale das Águas – Útero Sagrado da Criação

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