terça-feira, 2 de junho de 2026

Conferência da Deusa Portugal 2026 Honrando Cale das Águas – Útero Sagrado da Criação

 

A quarta edição da Conferência da Deusa Portugal realizou-se entre 8 e 10 de Maio, desta vez dedicada à Mãe das Águas. Por essa razão escolhemos a Foz do Arelho, onde as águas doces da Lagoa de Óbidos, alimentadas pelos rios Arnóia, Real e da Cal, se abrem ao mar e com ele comunicam. Foi tendo esta paisagem aquática como pano de fundo que, nas instalações do INATEL, realizámos o nosso evento, após dois intensos anos de preparação.

Contámos, como sempre, com dois grupos de serviço: oito Sacerdotisas e um Sacerdote cerimonialistas, e nove Sacerdotisas do Círculo. Tivemos ainda o precioso apoio de seis melissas e a participação de inúmeras pessoas que encheram o Salão Atlântico de presença, entusiasmo e devoção.


Entre as nossas convidadas estiveram Kathy Jones, Angie Twydall, Amanda Baker, Sandra Evers, Yeshe Matthews, Annwyn Avalon, Luísa Borges, Filipa Faustino — que, além de Sacerdotisa, apresentou também uma palestra —, Ouassima Israe, Sara Ramadoro, Tara Chantelle Gomez, Elaine Wattam e Cristina Moreira. Contámos igualmente com a presença de Angel Roda Saucco, Sacerdote que nos falou de Noctiluca, Deusa da Lua, e da sua gruta-templo em Málaga. Entre os palestrantes estiveram ainda Laura Ghianda, Filipa Faustino, Angel Roda Saucco e eu própria. As Sacerdotisas cerimonialistas Juliana Di Avalon e Alice Campos dinamizaram também diversos workshops.

O tema do primeiro dia foram os rios de Nábia. Na cerimónia de abertura invocámos as bênçãos das Senhoras dos Grandes Rios de cada uma das direcções, com as quais cada cerimonialista se havia conectado ao longo dos meses de preparação. Pequenas amostras das suas águas, pedras, limos e areias constituíam os tesouros que trouxemos para os altares direccionais.


Entre os rios escolhidos encontravam-se o das Maçãs, o Dão, o Douro, o Sado, o Mondego e o Guadiana. Mas também o Boyne, na Irlanda (evocando a nossa Ribeira de Boina do Algarve), de onde veio a Sacerdotisa Juliana Di Avalon; o Manzanares, de Madrid, cidade natal de Angel Roda Saucco/Saucco de Trivia; e o Larganza, de Itália, país de origem da Sacerdotisa Laura Ghianda. Cada um deles com as suas Deusas e Ninfas, os seus poderes e a sua magia.

Evocámos a nossa tradição utilizando cântaros de barro antigos, dos quais pendiam longas tiras de seda azul simbolizando a corrente dessas águas, estendendo-se desde o centro da sala até aos respectivos altares direccionais. No centro, um grande cálice acolhia as águas que cada participante havia sido convidada a trazer consigo, solenemente transportadas na sua “barca”, para oferecer a Cale das Águas.

No final da cerimónia, oferecemos a mistura de todas essas águas a Tétis, Deusa do Mar da nossa Roda, e entregámos a cada participante um pequeno frasco como lembrança e talismã. A bela música que acompanhou as nossas cerimónias foi criada especialmente para a ocasião por Ana Catarina Rosalys.

Logo após a cerimónia de abertura seguiram-se as primeiras palestras. A minha teve como tema os “Rios do Paraíso”, inspirada nos mistérios do Alva e do Alvoco, nas margens dos quais se encontram três sítios das Nove Irmãs. Num deles encontra-se a Pedra da Cabeça da Velha e, não muito longe, um par de chifres em granito que evocam os famosos Chifres da Consagração cretenses, símbolo religioso fundamental da civilização minoica, associado ao carácter sagrado dos lugares, à fertilidade e à Grande Deusa. De resto, toda a serra parece guardar ecos desse simbolismo, desde a estrela que lhe deu o nome — Aldebarã, o Olho do Touro — até às associações possíveis com a constelação de Touro, Vénus e as Plêiades, as próprias Irmãs.

Seguiram-se outras comunicações de grande interesse, conforme se pode constatar pelo programa da Conferência.

Uma apresentação de belas vestes cerimoniais criadas pela Sacerdotisa do Círculo Sandra Marques e apresentadas por Alenka encerrou os trabalhos do primeiro dia.

O segundo dia foi dedicado à cura e às águas profundas. Invocámos as Senhoras do Grande Lago de cada uma das direcções, pedindo-Lhes cura para as nossas emoções mais densas. No centro do salão recriámos o ambiente da gruta, onde cada participante foi acolhida numa cerimónia de cura profunda, significativa e comovente.

Seguiram-se palestras de Sara Ramadoro, Angel Roda Saucco, Annwyn Avalon e Yeshe Matthews. Depois, Kathy Jones e Angie Twydall conduziram-nos em dinâmicas de cura das nossas águas uterinas e das nossas águas mais tóxicas.

Ao longo da tarde realizou-se uma selecção de excelentes workshops e, ao serão, no Coração dos Mistérios, teve lugar a cerimónia de incorporação da Deusa. Acompanhada pelas Sacerdotisas do Círculo e pelas taças tibetanas tocadas por Nadine Santos, criou-se uma atmosfera perfeita para uma ocasião tão especial e sagrada.

No domingo, o dia começou com uma pequena cerimónia de junção, no grande cálice central, das águas trazidas de alguns dos mais míticos rios portugueses, incluindo até o Nilo. Em seguida saímos em procissão pelo extenso areal da Foz do Arelho, junto à Lagoa, até alcançarmos o grande Atlântico.

Ali invocámos as Deusas das Águas e da Lua — Tétis, Nábia, Marinha, Maria, Cynthia, Selene, Diana e muitas outras — oferecendo-Lhes o som dos tambores e das maracas, as nossas vozes, pétalas de rosas, a mistura das águas trazidas por todos os participantes e também as toxinas emocionais que haviam sido deixadas na gruta recriada na cerimónia do dia anterior.


Foi um dos momentos mais elevados de todo o evento. Estarmos juntas e juntos na Sua natureza, junto das Suas águas oceânicas, que pareciam revelar-se a cada instante mais intensas, misteriosas, vivas e poderosas, constituiu uma experiência profundamente tocante. Antes de partirmos, escrevemos na areia palavras de amor e gratidão pelas águas da Vida.

À tarde, tivemos o imenso prazer de apresentar a edição portuguesa do livro de Kathy Jones, Sacerdotisa de Avalon, Sacerdotisa da Deusa, traduzido por mim e publicado pela Associação Cultural Jardim das Hespérides. Foi sem dúvida uma grande honra termos tido connosco a autora, a Sacerdotisa que iniciou este caminho de devoção à Deusa, que criou a Conferência e o Templo da Deusa de Glastonbury, que abriu caminhos tão belos e significativos para o nosso tempo.

O programa era tão rico que ainda tivemos mais palestras. Cristina Moreira apresentou-nos um fascinante trabalho de investigação sobre as chamadas Águas Santas de Portugal, ou águas tradicionalmente consideradas curativas, cruzando folclore e ciência e revelando conclusões preciosas acerca do poder terapêutico das águas e da intuição popular para o reconhecer e dele beneficiar.

Ainda no domingo, Marcelle Bottini realizou a sua bela cerimónia No Coração da Rosa. Laura Ghianda, autora de Introduzione alla Teasofia – La Dea oltre i Dualismi (Introdução à Teasofia — A Deusa para Além dos Dualismos), trouxe-nos uma perspectiva original sobre a Deusa, entendida não como uma nova religião nem como uma tentativa de restaurar um passado matriarcal idealizado, mas antes como uma matriz simbólica e espiritual capaz de transcender os dualismos que estruturam o pensamento ocidental e de inspirar um novo humanismo.

Na verdade, o nosso evento foi tão rico em cerimónias e vivências quanto em ensinamentos, partilhados por palestrantes excepcionais, sábias, inspiradas e profundamente inspiradoras. Algumas trouxeram-nos investigações particularmente originais, como as Sacerdotisas em acção na região de Manchester, dedicadas a uma tradição da Deusa inspirada no antigo Mamucium, nome romano da cidade. A partir da memória da paisagem, do rio e das antigas raízes do lugar, construíram uma prática espiritual viva e profundamente enraizada na comunidade local, falando-nos também do seu importante trabalho junto das populações mais desfavorecidas e marginalizadas.

E tudo isso nos foi possível ouvir e compreender em português e em inglês graças à nossa fantástica e incansável tradutora, Joana Nobre, já bem conhecida do público que acompanha regularmente o nosso evento.

Criar esta Conferência é sempre um enorme desafio. Felizmente, a Deusa tem-nos trazido as pessoas certas. Uma das grandes alegrias desta fase da minha vida é precisamente este trabalho voluntário de entrega, criatividade e parceria, em que os sonhos ganham forma e a imaginação encontra espaço para florescer, inclusive nas artistas plásticas, como Antonieta Silvino (autora da Senhora das Águas do altar principal); Cristina Grumete, a nossa Melissa Mãe; Célia Reis e na cantora e compositora Ana Catarina, que nos oferecem com tanta generosidade os dons do seu talento.

Tudo isto é feito por amor a uma causa maior, que tanto nos entusiasma e que tanta alegria, amizade e coesão nos traz.

E já sonhamos com 2028, quando honraremos a Deusa como a Grande Mãe Criadora no festival das primeiras colheitas.

Abençoada!

@conferenciadeusaportugal2026

@luiza.frazao.sacerdotisa



sexta-feira, 3 de abril de 2026

Páscoa - uma celebração antiga da ressurreição da vida

 

A Páscoa era uma celebração de que gostava muito na minha infância na aldeia. Era Primavera e havia férias, e como o padre e todo o seu séquito ia de casa em casa, havia que lavar e caiar tudo na véspera. Era ainda preciso ir ao campo apanhar as flores amarelas, chamadas Maias, que apesar do nome, são das primeiras a abrir no início da primavera. Espalhavam-se pelo chão à entrada da casa e assim o padre sabia que aí seria devidamente recebido. Nas minhas recordações mais antigas, ele vinha de carroça, com as gaiolas para as galinhas e coelhos que receberia, bem como sacos para os cereais. Era assim que se pagava anualmente pelo seu serviço espiritual à comunidade. Depois, o pagamento passou a ser feito em notas deixadas dentro dum envelope em cima da mesa da sala. Esta era coberta com a toalha mais bonita, enfeitada com uma jarra de flores e tacinhas de vidro ou porcelana para as amêndoas e os confeitos, que evocavam os ovos de Eostre e eram no fundo o que dava o sabor à festa.

Mas a Páscoa, como sabemos, tem uma origem muito arcaica, relacionada com a alternância das estações. O que se celebra é o renascimento da natureza após a morte do Inverno.

Partilho este texto que alguém partilhou comigo e cuja autoria desconheço:

"A Páscoa que Existia Antes da Cruz: O Despertar da Deusa Viva

Muito antes de se tornar a festa da crucificação e ressurreição de um Cristo, a Páscoa era, em diversas culturas antigas, uma celebração Solar-Lunar profundamente ligada à fertilidade, ao Equinócio da Primavera e ao triunfo da Vida sobre o Inverno.

Era o instante em que a Terra Mãe despertava novamente, cobrindo-se de flores, fazendo os animais renascerem, os rios correrem mais vivos e o corpo da mulher celebrar a sua própria fertilidade.

Nesse tempo sagrado, várias divindades femininas personificavam a essência da Páscoa:


 OSTARA / ĒOSTRE 

Deusa germânica da Aurora e da Primavera. 

Símbolos: ovos coloridos, coelhos, flores e a primeira luz da manhã. 

→ O nome “Easter”, em inglês, deriva diretamente do seu nome. 

→ Simboliza o regresso da luz, o equilíbrio perfeito e o início de um novo ciclo.

🌟 ISHTAR / INANNA 

Deusa suméria-babilónica do amor, da fertilidade, da paixão e da transformação. 

→ Era celebrada o seu regresso do submundo após três dias de morte — uma história que ecoa fortemente a ideia de ressurreição. 

→ Os seus rituais de primavera eram plenos de energia criadora e fertilidade.

🌹 ISIS 

A Grande Mãe egípcia, senhora da magia, da cura e da ressurreição. 

→ Reconstrói e devolve a vida a Osíris, dando à luz Hórus, o Sol renascido. 

→ Representa a morte e o renascimento como um acto supremo de amor e de poder mágico.

 AINE 

Deusa celta irlandesa do Sol, da fertilidade e da abundância. 

→ Honrada no limiar da primavera e do verão. 

→ Ligada à terra fértil, à sexualidade sagrada e ao rejuvenescimento dos campos.

 DEMÉTER / PERSEFONE 

Na mitologia grega, Deméter, deusa da colheita, vê a filha Perséfone ser levada para o submundo. 

→ O seu regresso traz de volta a primavera e a vida à Terra. 

→ Esta narrativa é uma bela alegoria ao ciclo do inverno (morte) e da primavera (ressurreição).

 FRIGGA / FREYJA 

Deusas nórdicas do amor, do nascimento e da renovação cíclica. 

→ Freyja percorria os céus numa carruagem puxada por gatos, simbolizando a energia lunar e feminina. 

→ Eram veneradas nas festas da primavera e da vitalidade da natureza.

 E A PRÓPRIA MARIA MADALENA... 

Na tradição esotérica e gnóstica, Madalena incorpora o sagrado feminino do Cristo Solar. 

→ É ela a primeira testemunha da Ressurreição. 

→ Em muitas correntes ocultas, representa a Deusa eterna que permanece, a Consciência que sempre renasce, a Rosa Mística que nunca se extingue. 

→ Funciona como ponte viva entre o feminino ancestral e a era de luz que se anuncia.


Ishtar, Isis e Ostara estão intimamente ligadas à verdadeira raiz da Páscoa, mas não são as únicas. 

Elas fazem parte de uma vasta teia de manifestações da Deusa da Ressurreição e do Equilíbrio, presente em quase todas as culturas antigas — até que o patriarcado institucional transformasse o rito sagrado de vida e renovação num símbolo de sofrimento e dor."

Então, celebremos a Páscoa antes da cruz, o Equinócio da Primavera! Honremos a Deusa que floresce, que ressuscita, que dança e que ama sem limites, a Terra que se levanta, o útero vibrante da Grande Criadora e a memória ancestral que regressa, primavera após primavera.

 Luiza Frazão

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Deusas das Águas - Maria

 

 Série especialmente dedicada às nossas Deusas das Águas, tema da Conferência da Deusa Portugal 2026

Deusa Maria

Esta encantadora Virgem vestida de azul, de colar de pérolas ao peito, era a antiga Deusa do Mar pagã, Marian, Miriam, Mariamne (“cordeiro do mar”), Myrrhine, Myrtea, Myrrha, Maria ou Marina, matrona de poetas e amantes e mãe orgulhosa do Arqueiro do Amor.Robert Graves, A Deusa Branca

Na Invocação do seu Sermão de Santo António aos Peixes, o famoso pregador português do séc. XVII, o Padre António Vieira, invoca Maria como Domina Maris (Senhora do Mar). Em outras ocasiões, ele usa imagens marítimas para falar de Maria, dando-Lhe também o título de Stella Maris (Estrela do Mar) e desenvolvendo a ideia de que Ela é guia e protecção dos navegantes no meio das tempestades, “Estrela que governa o mar desta vida”; “Senhora das ondas e dos ventos”; “Porto seguro no mar das tribulações”. Com o mar simbolizando o mundo instável, a vida humana em perigo, a salvação como porto seguro. Maria é então Aquela que orienta, a Senhora que domina os elementos, o Porto seguro onde a alma encontra abrigo, ou seja, Aquela que protege a grande travessia, que é a própria Vida.

Para a investigadora e autora espanhola Marta Blanco Fernández, Maria faz parte dum imaginário espiritual mais amplo, ligado ao feminino sagrado que foi silenciado ou marginalizado pelas religiões patriarcais, e a sua presença contínua nas tradições populares e devocionais indica que o sagrado feminino sobrevive e se reconfigura através dela. Ela diz de Maria: “Não é um vaso, mas o oceano primitivo que contém o sol; porque se Maria é a mãe de Deus, quem é Maria?”

Na nossa roda do ano, Maria, tão cultuada entre nós, neste território dominado pelo mar, como Mãe de Misericórdia, protectora, Senhora do Mar de todas as Emoções, está em honra no Solstício de Verão, o festival de Litha, festival das Águas, como Senhora da Compaixão que tudo abarca e protege; do Amor Incondicional; da Cura, das águas de cura, como as das lágrimas, que dissolvem as nossas toxinas emocionais.

 ©Luiza Frazão

Iria do Nabão e da Ribeira de Santarém

Série especialmente dedicada às nossas Deusas das Águas, tema da Conferência da Deusa Portugal 2026

A morte de Santa Iria no Rio Nabão está carregada de simbolismo espiritual e pode ser interpretada como um rito de passagem, purificação e sacralização do rio. O Seu martírio reforça a ideia do Nabão como um rio iniciático, um local onde o sagrado e o profano se encontram, semelhante a outros rios mitológicos ligados à transformação e à travessia entre mundos.

O Mito de Santa Iria: Sacrifício e Pureza

Santa Iria (ou Irene) era uma jovem monja de Tomar que, segundo a tradição, viveu no século VII. A Sua beleza e virtude atraíram a atenção indesejada de um poderoso homem, Britaldo, que, ao ser rejeitado, acabou envolvido em uma trama de difamação. Espalhou-se o rumor de que ela estaria grávida, o que levou à sua condenação. Como castigo, foi morta e lançada ao Rio Nabão, cujas águas A levaram até ao Tejo, onde o Seu corpo teria sido encontrado intacto em Scalabis (atual Santarém).

Esta narrativa apresenta diversos elementos de transcendência e sagração, já que a morte na água se liga a rituais de purificação e transmutação espiritual. O rio como condutor da alma, carregando o Seu corpo até outro destino ou dimensão, liga-se ao elemento água como meio de transição entre mundos.

A incorruptibilidade do corpo de Iria reforça a ideia do Seu estatuto divino, evocando o conceito de imortalidade espiritual.

A Água como Elemento de Iniciação e Renascimento

Por outro lado, nos mitos e tradições esotéricas, a imersão na água representa um rito de iniciação e renovação. O facto de Iria ser lançada ao Nabão pode ser interpretado como um acto de morte e renascimento espiritual, similar ao batismo cristão e a outros ritos de passagem de outras tradições.

O facto do corpo seguir o fluxo do Nabão até ao Zêzere e depois até ao Tejo, chegando depois à Ribeira de Santarém (cidade que, segundo algumas tradições, tem um nome derivado do nome  Iria) sugere um trajeto sagrado, como se a própria correnteza fosse um instrumento da vontade divina.

Paralelos com outras narrativas de rios e transcendência, evocam Ofélia, na peça Hamlet de Shakespeare; tal como ela, Iria encontra a morte na água, elemento que simboliza tanto o esquecimento quanto a passagem para outra realidade ou dimensão.

O Aqueronte e o Estige, na Grécia antiga, serviam como limiares entre o mundo dos vivos e o além ou paraíso. O Nabão, nesse contexto, desempenha um papel semelhante, sendo o veículo da passagem de Iria do mundo terrestre para o espiritual.

O Rio Jordão, onde Cristo foi batizado, também representa um limiar entre o mundo físico e o espiritual. A morte de Santa Iria no Nabão ecoa esse simbolismo.

Com o martírio de Iria, o Rio Nabão adquire assim um estatuto especial, com as suas águas sacralizadas; de simples curso de água, ele eleva-se à categoria de rio santificado, como o Aqueronte na Grécia, tornando-se um símbolo de transcendência e um caminho espiritual. Sem dúvida que a história de Iria ajudou a enraizar a sacralidade do Nabão na tradição popular.

O corpo sem vida de Iria foi depois encontrado junto ao Tejo, depois de ter navegado nas águas do Zêzere, seu afluente, na Ribeira de Santarém. Aí nesse lugar, a renascida Deusa renascida é agora a Guardiã das águas do rio, reguladora e protectora contra os seus excessos, as enchentes que põem em perigo as gentes da Ribeira de Santarém, conforme nos indica o padrão que aí podemos ver, como um Templo vivo, à beira do grande Tejo.

©Luiza Frazão

 Imagens: 

1. Tomar, 20 de Outubro

2. Lady of Shalott, Walter Crane (1845-1915)

3. Padrão de Santa Iria, Ribeira de Santarém

 

 

 

 

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Deusas das Águas - Tétis, Senhora do Mar

 Série especialmente dedicada às nossas Deusas das Águas, tema da Conferência da Deusa Portugal 2026

Tétis é a nossa Deusa do Mar, como nos lembra Dalila Pereira da Costa: “Tétis, a deusa que anteriormente tinha reinado nesse mundo marinho, embora com outro nome, antes do deus pai e dos deuses olímpicos. Desse mundo marinho primitivo, cenas haverá na epopeia camoniana que nos trarão das suas mais maravilhosas e potentes visões em toda a poesia ocidental moderna…”

In Raízes Arcaicas da Epopeia Portuguesa e Camoniana, Dalila Pereira da Costa,

Tétis encarna um mundo marinho arcaico, anterior à ordem estritamente olímpica, patriarcal, ligado ao caos fecundo, à origem da vida e ao fluxo do cosmos. Ela é a Deusa Mãe primordial do mar de onde viemos, a antiga Deusa Grega Tiamat: “Tétis é uma Deusa muito arcaica, de nome primitivo e simples, que parece ter sido de facto a equivalente de Ti-ama-at. Se retirarmos o “ama”, que não é senão Mãe, ficamos com: Te-at > Te-te(is), Deusa dos Deuses, a transliteração grega de Tiamat, que é uma Deusa das mitologias babilónica, suméria e hebraica” (Artur Felisberto, Blogue Numância)

Tétis está ligada a essa memória primordial, oceânica, iniciática. O mar de Tétis é anterior à ordem, como matriz de tudo o que nasce. Ela é o útero do mundo, o mar enquanto princípio gerador.

Tétis pode aparecer na Sua zoofania de serpente ou dragão do mar; o carácter ondulante, transformador e submerso da Sua presença evoca a Sua essência dracónica ou serpentina, fluida, invisível e poderosa, como o fluxo da água e da energia vital, como a força primordial geradora do mundo, dispensadora de proteção e sabedoria.



Imagens:

1.     Restos de mosaico de Antioquia, Wikipedia

2.     Mosaico do século IV encontrado em Philipopolis (atual Chahba, Síria)

 ©Luiza Frazão

 

 

 


sábado, 7 de fevereiro de 2026

Deusas das Águas - Nábia

 Série especialmente dedicada às nossas Deusas das Águas, tema da Conferência da Deusa Portugal 2026

Seus lugares de culto, rios associados, oferendas e devoção

Nábia é uma das mais antigas e amplamente veneradas deusas do mundo galaico-lusitano, profundamente associada às águas vivas, às passagens e ao equilíbrio entre a comunidade humana e a paisagem sagrada. O Seu culto não se centra em mitos narrados, mas em lugares concretos, onde a água brota, corre e liga territórios.

Nábia é, acima de tudo, uma deusa da água em movimento. Preside a fontes, nascentes, rios e confluências, mas também aos espaços liminares que esses lugares representam: margens, pontes, vales e caminhos. Não é uma divindade distante nem celeste; é imanente, presente no território e no quotidiano. A sua acção não é violenta nem abrupta, mas contínua e reguladora, como o curso de um rio.

Espiritualmente, Nábia é uma deusa liminar: acompanha transições, mudanças de ciclo, viagens e decisões importantes. Onde algo se transforma — da nascente ao rio, da margem ao atravessar — aí está Nábia.

Lugares especiais do Seu culto

O culto a Nábia está bem atestado por inscrições votivas encontradas sobretudo no Noroeste da Península Ibérica, abrangendo a Galiza, o Norte de Portugal (Minho, Trás-os-Montes) e zonas do actual Centro de Portugal. Surge frequentemente com epítetos locais (como Nabia Corona, Nabia Elaesurra), o que indica que o seu culto se adaptava a cada lugar específico. A Fonte do Ídolo em Braga parece ter sido dedicada a Nábia.

Essas dedicatórias encontram-se, regra geral, perto de: fontes e nascentes, rios e vales férteis, antigos caminhos e zonas de travessia. Isto mostra que Nábia era venerada no próprio espaço natural, e não num templo isolado da paisagem.


Rios associados ao Seu nome

A importância de Nábia é tal que o seu nome ficou gravado na própria hidrografia da Península. Entre os rios cujo nome é geralmente associado à sua raiz destacam-se:

  • Rio Navia (Galiza), um dos exemplos mais claros e frequentemente citados
  • Rio Nabão (Tomar), cuja etimologia é tradicionalmente ligada à deusa
  • Possivelmente também rios como o Neiva, no Norte de Portugal, conservam ecos antigos do seu nome
  • Rio Nava, Terras de Bouro, Gerês

Estes rios não são apenas acidentes geográficos: são testemunhos vivos da antiga sacralização da água e da presença contínua de Nábia no território. O rio Nava que corre no Gerês por terras de Bouro passa por um importante santuário, o da Senhora da Abadia, onde, numa pequena gruta repleta de água, se encontra uma imagem da Senhora. Diz-se que foi a primeira, que esse foi o lugar que deu origem à construção da imponente abadia que hoje se vê. A água é do rio Nava, e uma pergunta surge: Será esse um dos primitivos santuários ou altares a Nábia, que teve tão intenso culto naquela região?

Prova de que o seu culto desceu mais a sul é a Travessa da Horta Návia, que encontramos em Alcântara (“ponte” em árabe), em Lisboa. As águas do Nabão conduzem a Sua energia até ao Tejo, com o Zêzere servindo de intermediário.


Devoção a Nábia

O que se pedia e pede a Nábia

Nábia não é invocada para a conquista ou para a ruptura, mas para que o fluxo da vida se mantenha harmonioso. É uma deusa de continuidade, ligação e cuidado.

A ela se pedia e pede proteção da comunidade, fertilidade da terra, dos seres e das águas, saúde e equilíbrio, boa passagem em momentos de mudança ou viagem, ou travessia, quer seja física quer seja simbólica, ou ao iniciarmos um novo ciclo, na nossa vida ou na vida da comunidade.

Nábia é uma das Deusas aquáticas terapêuticas, conforme atestam as propriedades da água da nascente do Nabão, no Agroal, concelho de Ourém. Desde tempos imemoriais até ao presente, esta água é considerada sagrada e procurada para cura, para restabelecimento do fluxo vital. 

Actos de devoção, como gestos simbólicos junto da água – tocar a água, beber dela, lavar mãos ou rosto – eram e são praticados como a mesma intenção de reconhecimento e de sagrada conexão.

Oferendas a Nábia

As oferendas e votos dirigidos a Nábia são simples e essenciais, refletindo a natureza do Seu culto. A oferenda era, e continua a ser, um gesto de alinhamento com o fluxo da água, de reconhecimento da sua força liminar, e de gratidão pela vida que ela sustenta.


A Nábia se oferecia alimentos, como leite – símbolo de pureza e renovação da vida; pão e cereais – associados à fertilidade da terra e à nutrição da comunidade; frutas ou produtos locais – frutos silvestres, possivelmente mel ou sementes, entregues junto de rios ou nascentes. Também objectos votivos como coroas ou guirlandas de flores ou de ramos. Pequenos utensílios de uso quotidiano ou simbólico – como lâminas de bronze, peças de cerâmica ou contas – eram colocados nas margens ou em fontes sagradas, assim como pedras ou seixos especiais eram depositados nos leitos de rios ou nas nascentes, marcando presença e intenção ritual.

©Luiza Frazão
 

Fontes:

José Leite de Vasconcelos, Etnografia Portuguesa

Ramón Menéndez Pidal e estudos sobre toponímia galaicaParte superior do formulário

Luís Graça, Religião pré-romana em Portugal

 

Alberto Gutiérrez, estudos sobre hidronímia galaico-lusitana

Parte inferior do formulário

Miranda Green, Celtic Goddesses (1995)

John T. Koch, Celtic Culture: A Historical Encyclopedia (2006)

Francisco Calvo, artigos sobre a religiosidade indígena lusitana

 Imagens:

1. Estátua de Nábia, de Carlos García, no município de San Sadurniño, na província da Corunha, Galiza (Espanha)

2. Altar a Nábia junto do rio Nava? Gerês, Terras de Bouro, Senhora da Abadia

3. Rio Tejo, Ribeira de Santarém

4. Rio Nabáo, Tomar

 

sexta-feira, 24 de outubro de 2025

Oferendas aos Seres Míticos e o Pacto Ancestral com a Terra

por Jason Hine

(tradução e adaptação em português)

 O pão, o leite e o pacto esquecido

Muitas pessoas ainda hoje oferecem pão e leite aos duendes e fadas.
Mas afinal — qual é o propósito verdadeiro dessa antiga prática?
Quem fez, em primeiro lugar, esse pacto com o povo das colinas?
E como podemos, em tempos de crise ecológica, alimentar o que nos alimenta — com a intenção de compostar o Antropoceno?

“É fácil deixar um pouco de leite para as fadas,
mas difícil oferecer algo que verdadeiramente regenere o mundo.”

As oferendas como elos de memória

Algumas tradições dizem que certas fadas são ancestrais trans-humanizados — espíritos de antigas linhagens humanas.
Se isso é verdade, por que se interessariam por alimentos que os caçadores-coletores nem podiam digerir?

A resposta pode estar nas memórias.
As oferendas não servem apenas como alimento simbólico, mas como elos de lembrança — fios vivos que reconectam os humanos à vasta rede de inteligências da Terra e ao motor vital das bio-regiões.

“O que realmente se oferece não é a substância,
mas as origens lembradas
a história viva e cantada que refaz a teia do mundo.”

Conhecer as origens é o verdadeiro ritual

O valor da oferenda está em conhecer a sua proveniência:
Quem cultivou o grão?
De onde veio o leite?
Que emoções acompanharam quem colheu, amassou e preparou?
Quando essa história é esquecida, ocorre perda de alma e desligamento do corpo da Terra.

“A história lembrada é a oferenda.”

Ao relembrar os elos físicos com a bio-região, refazemos o mundo.
Voltamos a fazer parte da comunidade mais-que-humana — composta de plantas, rios, ventos, pedras, animais e espíritos do lugar.

Oferenda x Sacrifício

As culturas de sacrifício surgem quando a memória se rompe.
São tentativas desesperadas de reparar o esquecimento.
Sacrifícios aparecem quando as coisas já deram errado.

Durante a Idade do Bronze, povos isolados em terras devastadas por desmatamento e erosão tentaram, através de sacrifícios, restaurar a abundância — mas geralmente tarde demais.
Grande parte do “paganismo” posterior foi, talvez, uma tentativa de corrigir o antigo erro ecológico.

Com o Cristianismo, surgiu o “sacrifício final” — o meta-sacrifício que encerraria todos os outros.
Mas ao substituir o ritual físico e ecológico por um sacrifício simbólico e interno, o Cristianismo rompeu os últimos fios de ligação com as tradições de abundância da Terra.
Essa ruptura abriu caminho tanto para as culturas industriais quanto para o racionalismo cartesiano.

 

De que as divindades realmente se alimentam

Hoje, muitas oferendas são apenas gestos vazios — sacrifícios disfarçados.
Mas os seres míticos não se alimentam da matéria, e sim da história, do amor e da memória contidos no gesto.

Elas e eles alimentam-se:

  • do cordão de conchas feito à mão,
  • do leite de um animal cuidado com ternura,
  • da canção de louvor composta no coração,
  • do pão assado com conhecimento da sua origem.

“Os deuses alimentam-se da proveniência —
o fio vivo da memória ancestral
que se estende antes da última era do gelo.”

Ao oferecer algo feito à mão e de origem conhecida, nossas mãos se unem às mãos de milhares de gerações anteriores.
Deixamos de ser “apenas eu” e nos tornamos uma extensão da vontade maior da Terra, um coro de carvalhos, montanhas, corvos, salmões e flores.

Oferecer é relembrar

Pergunta-te:
De onde veio este pão?
Quem cultivou o centeio?
Como esta abóbora viajou da América do Sul até à tua mesa?
Como o trigo saiu do vale do Eufrates e chegou à tua terra?

Essas são as canções que alimentam as divindades.
Canta as histórias das plantas, das mãos que as plantaram, das tradições que as sustentam.
É disso que as divindades se alimentam.

Regenerar a Terra: a maior oferenda

Hoje, não é possível falar em magia, bruxaria, paganismo ou espiritualidade ecológica sem regeneração real da Terra.
O fio dourado da memória ancestral não pode ser refeito enquanto o solo estiver esquecido.

Por isso, a maior oferenda que podemos fazer é:
🌳 reflorestar,
💧 restaurar rios e nascentes,
🌻 plantar ervas e árvores,
🏡 cuidar de pequenos pedaços de terra,
🌆 criar redes e comunidades regenerativas, mesmo nas cidades.

“A regeneração da Terra é a oferenda mais bela e urgente.”

Quando unida a canções, danças e objetos de origem conhecida, essa prática torna-se um presente sagrado aos seres míticos — e ao planeta que nos sustenta.

🌍 Refazendo o pacto

Há milhares de anos, quando deixamos de caçar e passamos a cultivar, fizemos um pacto com os seres da Terra.
As oferendas às fadas são ecos distantes desse pacto.

Mas quando rompemos essa relação — com a industrialização e o esquecimento da alma — o pacto foi quebrado.
Agora, é hora de negociar um novo acordo.

Hoje, não basta oferecer leite, incenso ou whisky.
Precisamos de restaurar a Terra até ao ponto ecológico do último pacto —
antes da devastação e da perda da memória.

Isso requer a criação de ecocívios (cidadãs e cidadãos conscientes), vilas-florestas, economias regenerativas e bio-regiões restauradas.
Mesmo o cuidado com um pequeno jardim urbano já é um começo — uma oferenda viva.

Conclusão: o novo pacto com a Terra

Através da regeneração do solo, da restauração da água e das oferendas de origem conhecida, começamos o “retecimento” da nossa relação com todos os seres
plantas, animais, rios, montanhas e espíritos.

E assim, um novo pacto é feito com os seres mais-que-humanos da Terra.
Um pacto de memória, gratidão e regeneração.

“Ao relembrar, retecemos.
Ao regenerar, reencantamos.
E ao oferecer com consciência,
alimentamos novamente o corpo da Terra.”

Jason Hine

(Escritor, ecologista, contador de histórias e facilitador de rituais; um dos principais nomes ligados ao movimento de ecologia animista e mitopoética no Reino Unido;

Ex-professor e cofundador da Feral College, uma escola alternativa dedicada a estudos de ecologia mítica, rewilding espiritual e práticas de reconexão com a terra;

Autor de vários ensaios que circulam em blogs, redes sociais (como Facebook) e em coletâneas independentes de ecologia e espiritualidade.

O tema central dele é o “reenraizamento ecológico e espiritual” através das “ofertas de origem lembrada” (remembered origins offerings), que liga práticas pagãs antigas à regeneração ecológica contemporânea — um conceito que ele chama de “composting the Anthropocene” (compostar o Antropoceno).

 

 



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