domingo, 31 de janeiro de 2021

IMBOLC - A VIVIFICAÇÃO


A palavra “Imbolc” significa “no leite”, ou “leite de ovelha”, leite das ovelhas na altura do nascimento das suas primeiras crias, sinónimos de vida nova, de renascimento e renovação. Trata-se, pois, desse momento do ano em que sentimos que a vida volta à superfície depois da quietude da hibernação da estação anterior. Quando sentimos que o nosso mergulho na interioridade já durou o suficiente; quando já temos saudades da luz e do calor e os dias começam a ficar progressivamente maiores e nos apetece criar, celebrar a vida, sair de casa, sair para o mundo, concretizar projectos; quando surgem ainda que vagas as primeiras promessas do vigor primaveril, a Deusa Menina voltou, ocupando o lugar da Anciã que reinou nos árduos meses do Inverno. Foi a Anciã, que mantendo ciosa o seu tempo de quietude, de vida inclusa, em que à superfície nada cresceu, que ajudou a morte a cumprir o seu papel de limpar e de preparar o terreno para o recomeço. Por isso o abutre, que limpa a carne putrefacta dos cadáveres dos animais que não resistiram aos rigores do inverno, é uma das aves sagradas de Ana, ou Dana, Deusa honrada entre nós no Yule, Senhora do Inverno. Sem o poder da Deusa Anciã, a guardiã das sementes, não há lugar para a nova vida.

Sabemos que na nossa tradição esta festa foi muito importante e ainda o é em alguns locais, embora a Igreja Católica tenha por vezes trocado as voltas e mudado as datas, como aconteceu na freguesia do Reguengo do Fetal, por exemplo, onde uma celebração nitidamente com características do Imbolc se celebra agora no princípio do mês de Outubro. Trata-se duma festa com uma procissão nocturna desfilando por ruas iluminadas por milhares de cascas de caracóis transformadas para a ocasião em candeias alimentadas a azeite. Sem dúvida uma tradição muitíssimo antiga com raízes pagãs porquanto a casca do caracol é um dos símbolos da Deusa do Inverno, da Senhora dos Ossos, sendo estes, à semelhança das cascas, símbolos de permanência, daquilo que é estrutural e essencial e que sobrevive à morte. A casca do caracol transformada agora em candeia, portadora da luz que ressurge, é perfeita para evocar e celebrar a metamorfose da Anciã em Menina.

Esta festividade, como tantas outras, foi cristianizada, transferida para o dia 2 de Fevereiro, tomando a designação de Candelária, ou Festa das Candeias, em inglês Candlemass, quando se benziam as velas. O seu sentido passou a estar associada à “purificação” de Nossa Senhora, presumindo-se que o parto a tornara impura, claro, bem como à apresentação de Jesus no templo. Antigas tradições pagãs persistiram, entretanto, na cultura popular, como os fritos, as filhoses fritas em azeite, e outras. Lembro-me de em minha casa a minha mãe fazer sempre neste dia a sua receita especial de filhoses alentejanas. Numa freguesia perto do local onde nasci, na Zona Centro, entretanto, foi hábito até mais ou menos ao final da primeira metade do século XX, fazer pequenos bolos fritos, as velhoses, expressamente para serem oferecidos às oliveiras, colocando-se um junto de cada uma das que se possuíam, como forma de agradecimento pela luz e pelo alimento recebidos durante o ano.

In A Deusa do Jardim das Hespérides: Desvelando a Dimensão Encoberta do Sagrado Feminino em Portugal, Zéfiro Editores

sábado, 16 de janeiro de 2021

CELEBRAÇÃO DO IMBOLC - FESTA DAS CANDEIAS

 

Nesta noite sagrada, junta-te a nós na nossa cerimónia em honra e louvor da Grande Deusa celta, solar e lunar, que no nosso território também invocamos como Senhora das Candeias. Vamos junt@s Honrar o Seu Fogo e as Suas Águas, o espelho das águas dos Seus poços sagrados que recebem a medicina do fogo solar de Brígida e a oferecem como cura dos males do corpo e da alma. Vamos acender e manter a tradição da Chama Eterna de Brígida, a Chama dos Seus poderes, que a tradição lembra como sendo mantida por dezanove Sacerdotisas. Em devoção, para que essa Luz nos ilumine, nos guie em tempos de escuridão, abrindo caminhos de despertar, de inspiração, de conhecimento, de transformação, de sanação do corpo e da alma, individual e colectiva. São caminhos de poesia e de criatividade, que te propomos abrir connosco, trilhos de novos começos, sob a protecção de Brízida, Deusa Sol, olho divino no céu que tudo vê e testemunha.

Inscreve-te em:

jardimdashesperides@gmail.com

e recebe a lista dos materiais que precisas de ter contigo

Celebração gratuita

Caso desejes fazer um donativo para o Templo da Deusa de Óbidos/Associação Cultural Jardim das Hespérides: IBAN PT50 0018 0003 461 560 140 20 24

Sacerdotisa responsável: Luiza Frazão

Em colaboração com grupo de Sacerdotisas da Deusa do Jardim das Hespérides

 Evento no Facebook 

 

 

sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

Testemunho sobre Workshop VESTINDO A PELE DA ALMA - Experienciando o Poder Transformador do Vestuário

Mónica, de A Prateleira, dá aqui o seu testemunho sobre como foi ter participado neste trabalho que dinamizei em Novembro de 2020, na Ericeira, no espaço da Sacerdotisa Isabel Angélica:

"Quando eu li “vestindo a pele da alma – experienciando o poder transformador do vestuário – com realização de capa cerimonial”, sabia que tinha de fazer este workshop da Luiza Frazão.

Vibrei do princípio ao fim senti-me em casa.

Podem pensar, mas tu não sabias fazer uma capa? Claro, fazer uma capa sim, mas fazer uma capa num círculo feminino conduzido por uma sacerdotisa e à volta de um altar veio mostrar-me uma outra dimensão de ser a fazer, mesmo no momento em que eu estava pronta para a ver.

Abriu o meu olhar para o papel da roupa nas nossas vidas, como as roupas carregam energia, significado, simbologia. Como têm uma história há muito esquecida e como podemos aprofundar e recuperar esse conhecimento ancestral. Despertou a minha vontade para estudar e recuperar as tradições manuais da deusa, de fazer as peças que nos podem ajudar a conectar com ela, a fazer essa ponte entre mundos.


Foi ali que percebi que a costura podia ser sagrada, que juntar a deusa e a costura era possível.

Até ali às vezes perguntava-me se queria seguir um caminho ou o outro, mas esta é a magia da vida, cada um de nós faz o seu caminho juntando todas as coisas que nos apaixonam, todas as coisas que vivemos, aprendemos, experienciámos, e por isso os caminhos são únicos.

O meu atelier é agora um templo sagrado. Aho!"

Mónica

A Prateleira:  https://www.facebook.com/aprateleira.pt/

Ver publicação original com vídeo: https://fb.watch/2UaMs_OvsS/

 

 

 

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

INCENSO DO TEMPLO

 

Dia de empacotar o novo lote de incenso preparado no primeiro dia do ano. Consagrado às Deusas do Jardim das Hespérides e às suas Nove Irmãs divinas. Meio inebriada pelo odor, pela beleza visual, pela alegria de assim louvar a Deusa, expressar-lhe o meu amor. Momentos em que sinto a minha Sacerdotisa antiga, primordial, o meu Self-Sacerdotisa, aquela que serve a Deusa e o Seu Templo, bem próxima, una comigo; cedi-lhe o meu lugar. Na minha alma e coração, nas minhas mãos, sou ela.

Foi ela que colectou os ingredientes, nos campos e jardins, e que alguns recebeu de outra dedicada Sacerdotisa algures no território; foi ela que encomendou as resinas de outras latitudes, o óleo essencial e todos os produtos não locais. Com devoção, excitação e alegria, colheu a calêndula que cresce livre nos campos, impregnada do Sol de Ibéria, Hespéria. Foram as suas mãos que quebraram as ramos do alecrim, lá onde o sentiu mais puro e mais sagrado, pelo meio-dia duma Lua Cheia de Verão. 

Foi ela que, devagar, repetiu os gestos das suas ancestrais; ela que calcorreou os caminhos de terra, sobre as pegadas das antepassadas, farejando, adivinhando, deixando-se cativar pelas ervas, pelas árvores, pelos frutos e flores onde ficou retido o poder telúrico, o calor radiante, o sopro do vento, as bátegas de água, espanto e significado, glória de prados onde cantam aves, rastejam répteis, se desfazem as cascas eclodidas de todos os ovos donde os pássaros saltaram para dentro da Primavera. E a Vida brotou. Foi ela que  vagueou por paisagens fustigadas pela ventania, encharcadas de chuva, varridas pelas enxurradas, purificadas pelo gelo e pela geada das madrugadas brancas do Inverno; ela que atravessou caminhos antigos, bordeando laranjais de legenda, repletos de frutos onde a memória do calor e da luz do alto Sol estival permanece retida, esconjuro contra o olvido. Foi ela que colheu da medicina de pomares de macieiras bravas, do olival centenário, de encostas recobertas de matagais rasteiros e odorados de mel, do intenso eflúvio floral que ascende da terra arfante abrasada do Verão.

Essa alquimia, essa fragrância de êxtase eu te ofereço, Deusa, Senhora da Terra, no Teu altar, no altar do coração de cada mulher e de cada homem que aqui Te procura em devoção, para que se abra esse portal divino onde o meu amor encontra o Teu e contigo eu regresso a casa.  

Sacerdotisa Luiza Frazão

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

CELEBRAÇÃO DO SOLSTÍCIO DE INVERNO - via Zoom

Vem honrar connosco a Mãe do Ar, a Anciã do Inverno, Senhora da Pedra e da Montanha, dos Ossos e das Estrelas. Que a Sua poderosa energia fortaleça a nossa alma, ajudando-nos a conectar com os valores da Vida: inclusividade, sentido de união, compaixão, espírito de entreajuda.

Vem invocar connosco a Moura Tecedeira, aquela que tece os fios da existência, para que nos ajude a reforçar os laços que nos unem à comunidade humana de que fazemos parte.

Que em amor e confiança possamos atravessar os rigores da próxima estação, quando a Senhora do Inverno nos convida ao recolhimento, à hibernação, à quietude, ao silêncio e ao sonho. Que nesse voltar para dentro a nossa luz e o nosso fogo interior continuem a brilhar, a aquecer o nosso coração para que pulse ao ritmo da alma maior do grupo a que pertencemos, da grande família humana.

Invocação da Roda do Ano da Deusa

Meditação

Oração

Artes da Deusa

Este evento é gratuito, mas se quiseres ou puderes fazer um donativo para ajudares o Templo da Deusa/Associação Cultural Jardim das Hespérides a crescer e a expandir-se, a nossa gratidão desde já:

IBAN PT50 0018 0003 461 560 140 20 24

 Os materiais de que precisas ser-te-ão indicados no acto da inscrição.

Muitas bênçãos da Mãe do Ar.

                                           https://www.facebook.com/events/400120434510002

YULE - SOLSTÍCIO DE INVERNO

 YULE, SOLSTÍCIO DE INVERNO

A ENERGIA DO MOMENTO

Fiquei surpreendida com o primeiro Yule, a celebração do Solstício do Inverno, vivido na energia da Roda do Ano de Avalon. Contrariamente ao que acontece na espiritualidade pagã em geral, aqui a ênfase não é dada exatamente ao nascimento do Sol, ao facto de a partir deste momento de menor duração da luz do Sol, ele começar a ficar cada vez mais tempo no céu, aumentando o tamanho do dia em relação ao da noite. Aqui, pelo contrário, e isso fez logo todo o sentido para mim, este é o momento de entrarmos mais fundo no inverno e no silêncio, na quietude que as desafiadoras condições atmosféricas exteriores impõem à nossa vida, e à vida em geral, levando-nos a hibernar, a procurarmos recursos no interior.

No exterior, na natureza, o despojamento continua com a desintegração de tudo aquilo que envelheceu e já não serve mais. A morte física sobrevém. A ação do vento, da neve e do gelo, da água que cai em abundância destrói o que ainda resta da estação anterior e os abutres precipitam-se agora sobre os cadáveres dos animais que pereceram, limpando-os de toda a carne, deixando apenas os ossos, símbolos daquilo que é essencial e imperecível, daquilo que resiste ao tempo.


Voltarmo-nos para dentro de nós e encontrarmos o caminho para as dimensões espirituais de entre vidas, conectando-nos com as e os ancestrais primordiais, que nas palavras de Kathy Jones, são “os seres de Fogo, Gelo, Água, Ar e Terra que criaram o maravilhoso mundo em que nós vivemos”, é uma forma extraordinária de atravessarmos esta estação. Honrarmos a sabedoria das anciãs e dos anciãos da nossa cultura; irmos mais fundo na compreensão da nossa linhagem, da nossa história enquanto alma individual, da da alma da família e do território onde nascemos; aprofundarmos a nossa espiritualidade, reconstruindo o nosso caminho até às estrelas de onde viemos, é algo de muito mágico, que nos leva a verdadeiramente sentirmos a nossa infinidade, a nossa imortalidade e a nossa profunda ligação com o vasto cosmos. A proposta nesta estação é então sentirmos o mundo do lado de dentro e olharmos para a nossa vida duma perspetiva mais elevada, considerando a nossa infinidade, a nossa imortalidade enquanto espírito, ligando-nos a quantas e a quantos nos precederam e tomando maior consciência da nossa história enquanto alma imortal.


Este é também o Tempo do Sonho, pois enquanto momento de hibernação, esta dimensão torna-se agora mais poderosa, em todas as suas vertentes, tanto do sonhar acordada ou acordado, como a da prática da visualização criativa, sonhando a vida como realmente a queremos, como ainda daquele sonhar que nos permite visitar outras realidades, outras linhas do tempo, ou vislumbrar conteúdos escondidos do nosso subconsciente. Manter um registo de sonhos é algo de muito importante sempre, mas em particular nesta altura do ano em que estamos tão recetivas a mensagens e insights de outras dimensões.


Aprofundar a nossa espiritualidade é também a proposta deste tempo de maior conexão com o cosmos, em que honramos Cale do Ar, a Mãe do Ar, Ana, Dana, a Senhora dos Ossos, a Senhora da Pedra, a Senhora do Inverno, a Senhora da Montanha, a Senhora das Estrelas, a Hespéride Germana, a Senhora do Pinheiro e a Moura Tecedeira, Aquela que tece o destino.

Do livro A Deusa do Jardim das Hespérides: Desvelando a Dimensão Encoberta do Sagrado Feminino em Portugal, Luiza Frazão

domingo, 18 de outubro de 2020

OUTUBRO: ACOLHENDO A ANCIÃ DO INVERNO ( a Deusa do Centro da nossa Roda do Ano é uma entidade dupla)

 

A Deusa na Sua Face de Rainha do Verão despede-se de nós a 13 de Outubro, na Cova da Iria, e uma semana depois Ela é “morta” em Tomar, de onde o Seu corpo, levado pelas águas daquele que é agora também um Rio da Morte e Esquecimento, o Nabão, vai dar ao Zêzere e depois ao Tejo. O Rio do Verão é o Rio da Vida, da fertilidade dos campos, da alegria de chapinhar nas águas que refrescam do calor excessivo do Verão. No Inverno, porém, ele transforma-se no Rio da Morte, que leva o que já pereceu, que destrói, dissolvendo, os destroços da vida. Ele pode também ser o Rio da Morte pelos excessos da sua corrente, pelo transbordar do seu caudal. Mas vendo bem, tal como no Yin temos a marca do Yang e vice-versa, mesmo transbordando, alagando, destruindo a velha forma, ele sempre traz consigo mais e mais fertilidade aos campos. 

E é aí, nesse transbordar das águas do Inverno, que a Deusa vela e protege, conforme testemunha o Seu padrão na Ribeira de Santarém, no santuário erigida a Iria, um lugar onde, sabe-se lá desde quando, o culto desta Deusa se mantém. Aí se Lhe pede protecção e cura, se lhe oferece flores e círios e por vezes se reforça o

pedido com uma imagem do médico santo doutor Sousa Martins, que viveu não longe dali. Iria é agora Rainha do Inframundo, como Perséfone ou Proserpina; Ela jaz e ao mesmo tempo exerce o Seu poder a partir das profundezas do leito do Tejo, desde a Sua “última morada”, o Seu túmulo do mais puro alabastro fabricado pelos próprios anjos, um túmulo nunca visto por olhos humanos a não ser pelos do nosso rei poeta e agricultor, Dinis, e da sua mulher, rainha e santa, Isabel de Aragão, que na nossa cultura têm quase o mítico estatuto do céltico par real Artur e Genivera.

A morte associada ao rio, o Rio da Morte…

A teologia, ou tealogia, da nossa Deusa é rica e complexa e envolve o Sol e a Lua, a Terra e as Águas, para o fundo das quais Ela é levada pela corrente, na estação em que morre a vegetação, os animais hibernam e os campos entram em pousio.

Iria sempre inspirou, além do povo simples, poetas como, aqui, António Nobre:


Santa Iria

(Que floresceu em Nabância no século VII)

 

Num rio virginal de águas claras e mansas,

Pequenino baixel, a Santa vai boiando.

Pouco a pouco, dilui-se o oiro das suas tranças

E, diluído, vê-se as águas aloirando.

 

Circunda-a um esplendor de verdes Esperanças.

Unge-lhe a fronte o luar (os Santos Óleos) brando,

E, com a Graça etérea e meiga das crianças,

Formosa Iria vai boiando, vai boiando…

 

Os cravos e os jasmins abrem-se à luz da Lua,

E, ao verem-na passar, fantástica barquinha,

Murmuram-se entre si: «É um mármore que flutua!»

 

Ela entra, enfim, no Oceano… E escuta-se, ao luar,

A mãe do Pescador, rezando a ladainha

Pelos que andam, Senhor! Sobre as águas do Mar…”

 Leça, 1885, António Nobre

 

À superfície reina agora a Sua contraparte anciã, a Senhora da Pedra, cuja cabeça, a parte mais importante do corpo, onde se aloja a sabedoria e a própria alma, para as nossas antepassadas e os nossos antepassados, vela por nós e pela terra. A Senhora do Inverno, da Pedra, dos Ossos, das Neves, com as Suas Nove Sacerdotisas. Nós te honramos e invocamos o Teu rigor, a tua resiliência, a Tua foice que limpa a terra física, bem como o território da nossa alma, daquilo que já pereceu depois de ter cumprido o seu propósito e tempo de vida. Aí na serra, à Sua cabeça somam-se as outras partes mais significativas do Seu corpo de Grande Criadora. Precisamos da nossa visão desperta e alerta para ver o 

Seu ventre prenhe e os Seus seios fartos, e mais além ainda, anunciada pela marca do seu pezinho de Donzela, a Sua sagrada vulva de onde jorram as águas amnióticas que alimentam e sustêm a Vida.


Lugar tão sagrado no centro do nosso território! Não muito longe dali, está a Sua zoofania do Touro… mas sobre essa pedra que foi entretanto demonizada e transformada nos “chifres do diabo”, falarei apenas depois de a ter pessoalmente visitado. Só sei que em Tomar, lá no lugar de Iria, junto do rio, outro Touro que só pode ser muito sagrado existe também…

 Em Tomar, a 20 de Outubro, quando se realiza a Sua feira dos frutos de Outono, lançamos pétalas de rosas vermelhas no Nabão, oferecidas a Iria, para que o sangue da vida acompanhe a Deusa e A traga de volta no momento certo do Seu regresso em Maio. Abençoada!

 Imagens: 

1. Cabeça da Velha, Serra da Estrela

2. Padrão de Santa Iria, Ribeira de Santarém

3. Pego de Santa Iria, Tomar

4. Cabeça da Velha, Serra da Estrela

5. Rio Nabão em Tomar

sábado, 5 de setembro de 2020

Ser Sacerdotisa: repegar o meu bastão e seguir as minhas pisadas...

Relembro um momento da minha primeira infância em que, à semelhança do que acontece, com as perguntas axiais que as crianças fazem em tenra idade, me olhei a um espelho e perguntei: Quem sou eu ? Estranhamente achava que tudo e todos os que me rodeavam tinham existência palpável e razão de ser, mas eu, sentia-me diluída entre o ser e não ser e não me reconhecia como matericamente palpável… Quem sou eu ?

De outra experiência se aliava o fato de não conseguir suportar estar em Igrejas onde por teimosia e fé arcaica da minha mãe era forçada a assistir, sendo que invariavelmente as interrompia por desmaio para grande desespero do padre que as dirigia... nem caramelos de açúcar surtiam qualquer efeito.... perdemos a conta aos electroencefalogramas a que os médicos sujeitavam no seu afã de diagnóstico de uma qualquer epilepsia nunca diagnosticada... Era para além disso sonâmbula com o percurso idêntico todas as noites a que a minha avó, que comigo dormia já não prestava atenção. Todos estes excêntricos episódios não querem forçosamente implicar que detinha alguma mediunidade activa ou paranormal qualidade... simplesmente aconteciam e pequena ainda como era mais não serviam para me considerar um tanto atónita quanto aos meus efeitos de bicho raro ou esquisito .... As minhas principais brincadeiras eram feitas debaixo de água onde conseguia respirar e munida de uma faca de cortar papel, protagonizava heroínas de defesa de mundos perdidos e escondidos no fundo dos mares...

Sempre fui atraída pelo sobrenatural ou por um racional de tipo diverso, tal como astrologia, psicografia, mesas de pé de galo e um sem número de variações curiosas deste mesmo tema... Uma das minhas idas a um famoso astrólogo da época, Amândio Gouveia, marcou-me pelo facto de me ter elucidado de que era uma alma muito velha (seria o sentir múltiplas sensibilidades e não deter aquele invejável percurso de quem veio para ser algo e tudo matematicamente corresponder a este desenho).

Um dia médiuns de incorporação activa, enviaram uma ordem de ir a sua presença e aí, sem grande espanto, fui introduzida a um circulo de Senhoras de Avalon e durante sete anos de contacto diário, fiz o que me disseram ser um processo de ascese e de iniciação lunar .... o  meu pai e a minha avó (dois grandes referencias pessoais, haviam partido com 4 meses de intervalo) e esta chamada crise existencial revestiu todo o significado do que procurava: a que tinha vindo? Qual o sentido da minha Vida?

Passaram 7 anos em que literalmente saí do mundo corrente ... rompi todos os meus relacionamentos, inclusive familiares e sem sequer a minha mãe e filho saberem onde me encontrava iniciei o meu encontro e o meu trilho de busca espiritual ... Vivi-o a partir de Outubro de 1997 até Maio de 2004 em Azeitão, primeiro numa casa na Aldeia da Piedade e depois em Aldeia Rica e mais tarde no Lugar do Lago, espaço criado na ideia de Avalon onde colaborei na criação de uma projecto para a infância ... Todos os ensinamentos, rituais, tarot que me foi veiculado por transmissão, e que era um instrumento de oráculo de mim e de todas as restantes 4 que comigo fizeram esta vivencia , as Senhoras nos pediram para queimar e regressar às nossas famílias...

Regressamos sim mas com a memória da transcendência do que vivemos e alguns ensinamentos esparsos em memória mas profundamente significantes... Aprendi a ser chicoteada e tratado pelo vento, a suportar e saber ignorar o fogo, a ultrapassar a fome , a estar em silêncio e tudo como as Senhoras diziam: uma arma para ser eficaz tem de ser forjada pelo fogo .... Tive visões e assisti a diversos eventos que desafiam qualquer lógica de física , mas deixo para mim o que viram os meus olhos e meus sentidos experienciaram...

A Deusa à data aparecia como Viviane, Senhora do Lago ... e devo a Raven a minha Iniciação..
Fui para Inglaterra e foi minha escolha de emigrar, devido a esperança de poder ir a Avalon... Vivi lá 5 anos em trabalho e ainda não havido chegado o momento de estar em Gastonbury. Fui a Creta a procura de uma Deusa e encontro Perséfone em Ierapreta como a resposta ao mito que segundo as senhoras eu representava: Deméter e Perséfone.

Ao regressar de novo a Portugal encontro por mero acaso (?) o livro do Jardim das Hespérides e da formação de Sacerdotisas na tradição de Avalon ... aqui estou ao fim de 2 anos de formação.
A chamada veio há muito tempo, o caminho e tradição sempre me foram dados por sinais, evidencias, sincronicidades... Agora sim de minha vontade o reactualizar o que fui um dia... Sacerdotisa de uma Deusa (possivelmente Afrodite, em visão de um promontório que identifiquei em visita a Chipre ...

Nao se trata de um rememorar romântico por muito legítimo que tal seja, trata-se de repegar o meu bastão e seguir as minhas pisadas... Agora em Portugal, neste território sagrado da Deusa, quer pelo Jardim das Hespérides, quer pelo Marianismo convicto a que a Igreja nem sequer consegue desmentir, e a protecção das suas 9 Hespérides (Morganas) conhecidas como as 9 Irmãs.

Detenho já um idade em que aparentemente tudo já está breve, aos 63 anos (9) lancei com Irmãs e Mestra as sementes de mais Templos dedicados à Deusa. Estar ao serviço do que já estive e permanecer na plena integridade de si própria, na descoberta e aprendizado do Divino Feminino e a minha intenção de comprometimento, exercer da minha Criatividade e no aprofundar das vozes , intuições ou visões que entender como a benevolência e graça da Deusa na minha capacidade e na serena e lúcida Presença da minha Sacerdotisa arquetípica... tendo a grata noção de que não estou sozinha e sem chão... mas que pretendo fazer parte de uma Roda de Mesmas e Únicas... mas afins neste nosso caminhar e defender este Sentir e Experienciar ....

Estar com a Deusa e estar e ser em si própria uma plena, total integridade!

Maro 31.08.2020
(quase que memória de gerações antepassadas)
(Irmã das Hespérides prestes a fazer a sua dedicação como Sacerdotisa da Deusa do Jardim das Hespérides)






IMBOLC - A VIVIFICAÇÃO

A palavra “Imbolc” significa “no leite”, ou “leite de ovelha”, leite das ovelhas na altura do nascimento das suas primeiras crias, sinónimos...