A quarta edição da Conferência da Deusa Portugal realizou-se entre 8 e 10 de Maio, desta vez dedicada à Mãe das Águas. Por essa razão escolhemos a Foz do Arelho, onde as águas doces da Lagoa de Óbidos, alimentadas pelos rios Arnóia, Real e da Cal, se abrem ao mar e com ele comunicam. Foi tendo esta paisagem aquática como pano de fundo que, nas instalações do INATEL, realizámos o nosso evento, após dois intensos anos de preparação.
Contámos, como sempre, com dois grupos de serviço: oito
Sacerdotisas e um Sacerdote cerimonialistas, e nove Sacerdotisas do
Círculo. Tivemos ainda o precioso apoio de seis melissas e a participação de
inúmeras pessoas que encheram o Salão Atlântico de presença, entusiasmo e
devoção.
Entre as nossas convidadas estiveram Kathy Jones, Angie Twydall, Amanda Baker, Sandra Evers, Yeshe Matthews, Annwyn Avalon, Luísa Borges, Filipa Faustino — que, além de Sacerdotisa, apresentou também uma palestra —, Ouassima Israe, Sara Ramadoro, Tara Chantelle Gomez, Elaine Wattam e Cristina Moreira. Contámos igualmente com a presença de Angel Roda Saucco, Sacerdote que nos falou de Noctiluca, Deusa da Lua, e da sua gruta-templo em Málaga. Entre os palestrantes estiveram ainda Laura Ghianda, Filipa Faustino, Angel Roda Saucco e eu própria. As Sacerdotisas cerimonialistas Juliana Di Avalon e Alice Campos dinamizaram também diversos workshops.
O tema do primeiro dia foram os rios de Nábia. Na cerimónia
de abertura invocámos as bênçãos das Senhoras dos Grandes Rios de cada uma das
direcções, com as quais cada cerimonialista se havia conectado ao longo dos
meses de preparação. Pequenas amostras das suas águas, pedras, limos e areias
constituíam os tesouros que trouxemos para os altares direccionais.
Entre os rios escolhidos encontravam-se o das Maçãs, o Dão, o Douro, o Sado, o Mondego e o Guadiana. Mas também o Boyne, na Irlanda (evocando a nossa Ribeira de Boina do Algarve), de onde veio a Sacerdotisa Juliana Di Avalon; o Manzanares, de Madrid, cidade natal de Angel Roda Saucco/Saucco de Trivia; e o Larganza, de Itália, país de origem da Sacerdotisa Laura Ghianda. Cada um deles com as suas Deusas e Ninfas, os seus poderes e a sua magia.
No final da cerimónia, oferecemos a mistura de todas essas
águas a Tétis, Deusa do Mar da nossa Roda, e entregámos a cada participante um
pequeno frasco como lembrança e talismã. A bela música que acompanhou as nossas
cerimónias foi criada especialmente para a ocasião por Ana Catarina Rosalys.
Logo após a cerimónia de abertura seguiram-se as primeiras
palestras. A minha teve como tema os “Rios do Paraíso”, inspirada nos mistérios
do Alva e do Alvoco, nas margens dos quais se encontram três sítios das Nove
Irmãs. Num deles encontra-se a Pedra da Cabeça da Velha e, não muito longe, um
par de chifres em granito que evocam os famosos Chifres da Consagração
cretenses, símbolo religioso fundamental da civilização minoica, associado ao
carácter sagrado dos lugares, à fertilidade e à Grande Deusa. De resto, toda a
serra parece guardar ecos desse simbolismo, desde a estrela que lhe deu o nome
— Aldebarã, o Olho do Touro — até às associações possíveis com a constelação de
Touro, Vénus e as Plêiades, as próprias Irmãs.
Seguiram-se outras comunicações de grande interesse,
conforme se pode constatar pelo programa da Conferência.
Uma apresentação de belas vestes cerimoniais criadas pela
Sacerdotisa do Círculo Sandra Marques e apresentadas por Alenka encerrou os
trabalhos do primeiro dia.
O segundo dia foi dedicado à cura e às águas profundas.
Invocámos as Senhoras do Grande Lago de cada uma das direcções, pedindo-Lhes
cura para as nossas emoções mais densas. No centro do salão recriámos o
ambiente da gruta, onde cada participante foi acolhida numa cerimónia de cura
profunda, significativa e comovente.
Ao longo da tarde realizou-se uma selecção de excelentes
workshops e, ao serão, no Coração dos Mistérios, teve lugar a cerimónia de
incorporação da Deusa. Acompanhada pelas Sacerdotisas do Círculo e pelas taças
tibetanas tocadas por Nadine Santos, criou-se uma atmosfera perfeita para uma
ocasião tão especial e sagrada.
No domingo, o dia começou com uma pequena cerimónia de
junção, no grande cálice central, das águas trazidas de alguns dos mais míticos
rios portugueses, incluindo até o Nilo. Em seguida saímos em procissão pelo
extenso areal da Foz do Arelho, junto à Lagoa, até alcançarmos o grande
Atlântico.
Ali invocámos as Deusas das Águas e da Lua — Tétis, Nábia,
Marinha, Maria, Cynthia, Selene, Diana e muitas outras — oferecendo-Lhes o som
dos tambores e das maracas, as nossas vozes, pétalas de rosas, a mistura das
águas trazidas por todos os participantes e também as toxinas emocionais que
haviam sido deixadas na gruta recriada na cerimónia do dia anterior.
Foi um dos momentos mais elevados de todo o evento. Estarmos juntas e juntos na Sua natureza, junto das Suas águas oceânicas, que pareciam revelar-se a cada instante mais intensas, misteriosas, vivas e poderosas, constituiu uma experiência profundamente tocante. Antes de partirmos, escrevemos na areia palavras de amor e gratidão pelas águas da Vida.
À tarde, tivemos o imenso prazer de apresentar a edição
portuguesa do livro de Kathy Jones, Sacerdotisa de Avalon, Sacerdotisa da
Deusa, traduzido por mim e publicado pela Associação Cultural Jardim das
Hespérides. Foi sem dúvida uma grande honra termos tido connosco a autora, a
Sacerdotisa que iniciou este caminho de devoção à Deusa, que criou a
Conferência e o Templo da Deusa de Glastonbury, que abriu caminhos tão belos e
significativos para o nosso tempo.
O programa era tão rico que ainda tivemos mais palestras.
Cristina Moreira apresentou-nos um fascinante trabalho de investigação sobre as
chamadas Águas Santas de Portugal, ou águas tradicionalmente consideradas
curativas, cruzando folclore e ciência e revelando conclusões preciosas acerca
do poder terapêutico das águas e da intuição popular para o reconhecer e dele
beneficiar.
Na verdade, o nosso evento foi tão rico em cerimónias e
vivências quanto em ensinamentos, partilhados por palestrantes excepcionais,
sábias, inspiradas e profundamente inspiradoras. Algumas trouxeram-nos
investigações particularmente originais, como as Sacerdotisas em acção na
região de Manchester, dedicadas a uma tradição da Deusa inspirada no antigo
Mamucium, nome romano da cidade. A partir da memória da paisagem, do rio e das
antigas raízes do lugar, construíram uma prática espiritual viva e profundamente
enraizada na comunidade local, falando-nos também do seu importante trabalho
junto das populações mais desfavorecidas e marginalizadas.
E tudo isso nos foi possível ouvir e compreender em
português e em inglês graças à nossa fantástica e incansável tradutora, Joana
Nobre, já bem conhecida do público que acompanha regularmente o nosso evento.
Criar esta Conferência é sempre um enorme desafio.
Felizmente, a Deusa tem-nos trazido as pessoas certas. Uma das grandes alegrias
desta fase da minha vida é precisamente este trabalho voluntário de entrega,
criatividade e parceria, em que os sonhos ganham forma e a imaginação encontra
espaço para florescer, inclusive nas artistas plásticas, como Antonieta Silvino
(autora da Senhora das Águas do altar principal); Cristina Grumete, a nossa
Melissa Mãe; Célia Reis e na cantora e compositora Ana Catarina, que nos
oferecem com tanta generosidade os dons do seu talento.
Tudo isto é feito por amor a uma causa maior, que tanto nos
entusiasma e que tanta alegria, amizade e coesão nos traz.
E já sonhamos com 2028, quando honraremos a Deusa como a
Grande Mãe Criadora no festival das primeiras colheitas.
Abençoada!















.jpg)









