sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Deusas das Águas - Maria

 

 Série especialmente dedicada às nossas Deusas das Águas, tema da Conferência da Deusa Portugal 2026

Deusa Maria

Esta encantadora Virgem vestida de azul, de colar de pérolas ao peito, era a antiga Deusa do Mar pagã, Marian, Miriam, Mariamne (“cordeiro do mar”), Myrrhine, Myrtea, Myrrha, Maria ou Marina, matrona de poetas e amantes e mãe orgulhosa do Arqueiro do Amor.Robert Graves, A Deusa Branca

Na Invocação do seu Sermão de Santo António aos Peixes, o famoso pregador português do séc. XVII, o Padre António Vieira, invoca Maria como Domina Maris (Senhora do Mar). Em outras ocasiões, ele usa imagens marítimas para falar de Maria, dando-Lhe também o título de Stella Maris (Estrela do Mar) e desenvolvendo a ideia de que Ela é guia e protecção dos navegantes no meio das tempestades, “Estrela que governa o mar desta vida”; “Senhora das ondas e dos ventos”; “Porto seguro no mar das tribulações”. Com o mar simbolizando o mundo instável, a vida humana em perigo, a salvação como porto seguro. Maria é então Aquela que orienta, a Senhora que domina os elementos, o Porto seguro onde a alma encontra abrigo, ou seja, Aquela que protege a grande travessia, que é a própria Vida.

Para a investigadora e autora espanhola Marta Blanco Fernández, Maria faz parte dum imaginário espiritual mais amplo, ligado ao feminino sagrado que foi silenciado ou marginalizado pelas religiões patriarcais, e a sua presença contínua nas tradições populares e devocionais indica que o sagrado feminino sobrevive e se reconfigura através dela. Ela diz de Maria: “Não é um vaso, mas o oceano primitivo que contém o sol; porque se Maria é a mãe de Deus, quem é Maria?”

Na nossa roda do ano, Maria, tão cultuada entre nós, neste território dominado pelo mar, como Mãe de Misericórdia, protectora, Senhora do Mar de todas as Emoções, está em honra no Solstício de Verão, o festival de Litha, festival das Águas, como Senhora da Compaixão que tudo abarca e protege; do Amor Incondicional; da Cura, das águas de cura, como as das lágrimas, que dissolvem as nossas toxinas emocionais.

 ©Luiza Frazão

Iria do Nabão e da Ribeira de Santarém

Série especialmente dedicada às nossas Deusas das Águas, tema da Conferência da Deusa Portugal 2026

A morte de Santa Iria no Rio Nabão está carregada de simbolismo espiritual e pode ser interpretada como um rito de passagem, purificação e sacralização do rio. O Seu martírio reforça a ideia do Nabão como um rio iniciático, um local onde o sagrado e o profano se encontram, semelhante a outros rios mitológicos ligados à transformação e à travessia entre mundos.

O Mito de Santa Iria: Sacrifício e Pureza

Santa Iria (ou Irene) era uma jovem monja de Tomar que, segundo a tradição, viveu no século VII. A Sua beleza e virtude atraíram a atenção indesejada de um poderoso homem, Britaldo, que, ao ser rejeitado, acabou envolvido em uma trama de difamação. Espalhou-se o rumor de que ela estaria grávida, o que levou à sua condenação. Como castigo, foi morta e lançada ao Rio Nabão, cujas águas A levaram até ao Tejo, onde o Seu corpo teria sido encontrado intacto em Scalabis (atual Santarém).

Esta narrativa apresenta diversos elementos de transcendência e sagração, já que a morte na água se liga a rituais de purificação e transmutação espiritual. O rio como condutor da alma, carregando o Seu corpo até outro destino ou dimensão, liga-se ao elemento água como meio de transição entre mundos.

A incorruptibilidade do corpo de Iria reforça a ideia do Seu estatuto divino, evocando o conceito de imortalidade espiritual.

A Água como Elemento de Iniciação e Renascimento

Por outro lado, nos mitos e tradições esotéricas, a imersão na água representa um rito de iniciação e renovação. O facto de Iria ser lançada ao Nabão pode ser interpretado como um acto de morte e renascimento espiritual, similar ao batismo cristão e a outros ritos de passagem de outras tradições.

O facto do corpo seguir o fluxo do Nabão até ao Zêzere e depois até ao Tejo, chegando depois à Ribeira de Santarém (cidade que, segundo algumas tradições, tem um nome derivado do nome  Iria) sugere um trajeto sagrado, como se a própria correnteza fosse um instrumento da vontade divina.

Paralelos com outras narrativas de rios e transcendência, evocam Ofélia, na peça Hamlet de Shakespeare; tal como ela, Iria encontra a morte na água, elemento que simboliza tanto o esquecimento quanto a passagem para outra realidade ou dimensão.

O Aqueronte e o Estige, na Grécia antiga, serviam como limiares entre o mundo dos vivos e o além ou paraíso. O Nabão, nesse contexto, desempenha um papel semelhante, sendo o veículo da passagem de Iria do mundo terrestre para o espiritual.

O Rio Jordão, onde Cristo foi batizado, também representa um limiar entre o mundo físico e o espiritual. A morte de Santa Iria no Nabão ecoa esse simbolismo.

Com o martírio de Iria, o Rio Nabão adquire assim um estatuto especial, com as suas águas sacralizadas; de simples curso de água, ele eleva-se à categoria de rio santificado, como o Aqueronte na Grécia, tornando-se um símbolo de transcendência e um caminho espiritual. Sem dúvida que a história de Iria ajudou a enraizar a sacralidade do Nabão na tradição popular.

O corpo sem vida de Iria foi depois encontrado junto ao Tejo, depois de ter navegado nas águas do Zêzere, seu afluente, na Ribeira de Santarém. Aí nesse lugar, a renascida Deusa renascida é agora a Guardiã das águas do rio, reguladora e protectora contra os seus excessos, as enchentes que põem em perigo as gentes da Ribeira de Santarém, conforme nos indica o padrão que aí podemos ver, como um Templo vivo, à beira do grande Tejo.

©Luiza Frazão

 Imagens: 

1. Tomar, 20 de Outubro

2. Lady of Shalott, Walter Crane (1845-1915)

3. Padrão de Santa Iria, Ribeira de Santarém

 

 

 

 

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Deusas das Águas - Tétis, Senhora do Mar

 Série especialmente dedicada às nossas Deusas das Águas, tema da Conferência da Deusa Portugal 2026

Tétis é a nossa Deusa do Mar, como nos lembra Dalila Pereira da Costa: “Tétis, a deusa que anteriormente tinha reinado nesse mundo marinho, embora com outro nome, antes do deus pai e dos deuses olímpicos. Desse mundo marinho primitivo, cenas haverá na epopeia camoniana que nos trarão das suas mais maravilhosas e potentes visões em toda a poesia ocidental moderna…”

In Raízes Arcaicas da Epopeia Portuguesa e Camoniana, Dalila Pereira da Costa,

Tétis encarna um mundo marinho arcaico, anterior à ordem estritamente olímpica, patriarcal, ligado ao caos fecundo, à origem da vida e ao fluxo do cosmos. Ela é a Deusa Mãe primordial do mar de onde viemos, a antiga Deusa Grega Tiamat: “Tétis é uma Deusa muito arcaica, de nome primitivo e simples, que parece ter sido de facto a equivalente de Ti-ama-at. Se retirarmos o “ama”, que não é senão Mãe, ficamos com: Te-at > Te-te(is), Deusa dos Deuses, a transliteração grega de Tiamat, que é uma Deusa das mitologias babilónica, suméria e hebraica” (Artur Felisberto, Blogue Numância)

Tétis está ligada a essa memória primordial, oceânica, iniciática. O mar de Tétis é anterior à ordem, como matriz de tudo o que nasce. Ela é o útero do mundo, o mar enquanto princípio gerador.

Tétis pode aparecer na Sua zoofania de serpente ou dragão do mar; o carácter ondulante, transformador e submerso da Sua presença evoca a Sua essência dracónica ou serpentina, fluida, invisível e poderosa, como o fluxo da água e da energia vital, como a força primordial geradora do mundo, dispensadora de proteção e sabedoria.



Imagens:

1.     Restos de mosaico de Antioquia, Wikipedia

2.     Mosaico do século IV encontrado em Philipopolis (atual Chahba, Síria)

 ©Luiza Frazão

 

 

 


sábado, 7 de fevereiro de 2026

Deusas das Águas - Nábia

 Série especialmente dedicada às nossas Deusas das Águas, tema da Conferência da Deusa Portugal 2026

Seus lugares de culto, rios associados, oferendas e devoção

Nábia é uma das mais antigas e amplamente veneradas deusas do mundo galaico-lusitano, profundamente associada às águas vivas, às passagens e ao equilíbrio entre a comunidade humana e a paisagem sagrada. O Seu culto não se centra em mitos narrados, mas em lugares concretos, onde a água brota, corre e liga territórios.

Nábia é, acima de tudo, uma deusa da água em movimento. Preside a fontes, nascentes, rios e confluências, mas também aos espaços liminares que esses lugares representam: margens, pontes, vales e caminhos. Não é uma divindade distante nem celeste; é imanente, presente no território e no quotidiano. A sua acção não é violenta nem abrupta, mas contínua e reguladora, como o curso de um rio.

Espiritualmente, Nábia é uma deusa liminar: acompanha transições, mudanças de ciclo, viagens e decisões importantes. Onde algo se transforma — da nascente ao rio, da margem ao atravessar — aí está Nábia.

Lugares especiais do Seu culto

O culto a Nábia está bem atestado por inscrições votivas encontradas sobretudo no Noroeste da Península Ibérica, abrangendo a Galiza, o Norte de Portugal (Minho, Trás-os-Montes) e zonas do actual Centro de Portugal. Surge frequentemente com epítetos locais (como Nabia Corona, Nabia Elaesurra), o que indica que o seu culto se adaptava a cada lugar específico. A Fonte do Ídolo em Braga parece ter sido dedicada a Nábia.

Essas dedicatórias encontram-se, regra geral, perto de: fontes e nascentes, rios e vales férteis, antigos caminhos e zonas de travessia. Isto mostra que Nábia era venerada no próprio espaço natural, e não num templo isolado da paisagem.


Rios associados ao Seu nome

A importância de Nábia é tal que o seu nome ficou gravado na própria hidrografia da Península. Entre os rios cujo nome é geralmente associado à sua raiz destacam-se:

  • Rio Navia (Galiza), um dos exemplos mais claros e frequentemente citados
  • Rio Nabão (Tomar), cuja etimologia é tradicionalmente ligada à deusa
  • Possivelmente também rios como o Neiva, no Norte de Portugal, conservam ecos antigos do seu nome
  • Rio Nava, Terras de Bouro, Gerês

Estes rios não são apenas acidentes geográficos: são testemunhos vivos da antiga sacralização da água e da presença contínua de Nábia no território. O rio Nava que corre no Gerês por terras de Bouro passa por um importante santuário, o da Senhora da Abadia, onde, numa pequena gruta repleta de água, se encontra uma imagem da Senhora. Diz-se que foi a primeira, que esse foi o lugar que deu origem à construção da imponente abadia que hoje se vê. A água é do rio Nava, e uma pergunta surge: Será esse um dos primitivos santuários ou altares a Nábia, que teve tão intenso culto naquela região?

Prova de que o seu culto desceu mais a sul é a Travessa da Horta Návia, que encontramos em Alcântara (“ponte” em árabe), em Lisboa. As águas do Nabão conduzem a Sua energia até ao Tejo, com o Zêzere servindo de intermediário.


Devoção a Nábia

O que se pedia e pede a Nábia

Nábia não é invocada para a conquista ou para a ruptura, mas para que o fluxo da vida se mantenha harmonioso. É uma deusa de continuidade, ligação e cuidado.

A ela se pedia e pede proteção da comunidade, fertilidade da terra, dos seres e das águas, saúde e equilíbrio, boa passagem em momentos de mudança ou viagem, ou travessia, quer seja física quer seja simbólica, ou ao iniciarmos um novo ciclo, na nossa vida ou na vida da comunidade.

Nábia é uma das Deusas aquáticas terapêuticas, conforme atestam as propriedades da água da nascente do Nabão, no Agroal, concelho de Ourém. Desde tempos imemoriais até ao presente, esta água é considerada sagrada e procurada para cura, para restabelecimento do fluxo vital. 

Actos de devoção, como gestos simbólicos junto da água – tocar a água, beber dela, lavar mãos ou rosto – eram e são praticados como a mesma intenção de reconhecimento e de sagrada conexão.

Oferendas a Nábia

As oferendas e votos dirigidos a Nábia são simples e essenciais, refletindo a natureza do Seu culto. A oferenda era, e continua a ser, um gesto de alinhamento com o fluxo da água, de reconhecimento da sua força liminar, e de gratidão pela vida que ela sustenta.


A Nábia se oferecia alimentos, como leite – símbolo de pureza e renovação da vida; pão e cereais – associados à fertilidade da terra e à nutrição da comunidade; frutas ou produtos locais – frutos silvestres, possivelmente mel ou sementes, entregues junto de rios ou nascentes. Também objectos votivos como coroas ou guirlandas de flores ou de ramos. Pequenos utensílios de uso quotidiano ou simbólico – como lâminas de bronze, peças de cerâmica ou contas – eram colocados nas margens ou em fontes sagradas, assim como pedras ou seixos especiais eram depositados nos leitos de rios ou nas nascentes, marcando presença e intenção ritual.

©Luiza Frazão
 

Fontes:

José Leite de Vasconcelos, Etnografia Portuguesa

Ramón Menéndez Pidal e estudos sobre toponímia galaicaParte superior do formulário

Luís Graça, Religião pré-romana em Portugal

 

Alberto Gutiérrez, estudos sobre hidronímia galaico-lusitana

Parte inferior do formulário

Miranda Green, Celtic Goddesses (1995)

John T. Koch, Celtic Culture: A Historical Encyclopedia (2006)

Francisco Calvo, artigos sobre a religiosidade indígena lusitana

 Imagens:

1. Estátua de Nábia, de Carlos García, no município de San Sadurniño, na província da Corunha, Galiza (Espanha)

2. Altar a Nábia junto do rio Nava? Gerês, Terras de Bouro, Senhora da Abadia

3. Rio Tejo, Ribeira de Santarém

4. Rio Nabáo, Tomar

 

sexta-feira, 24 de outubro de 2025

Oferendas aos Seres Míticos e o Pacto Ancestral com a Terra

por Jason Hine

(tradução e adaptação em português)

 O pão, o leite e o pacto esquecido

Muitas pessoas ainda hoje oferecem pão e leite aos duendes e fadas.
Mas afinal — qual é o propósito verdadeiro dessa antiga prática?
Quem fez, em primeiro lugar, esse pacto com o povo das colinas?
E como podemos, em tempos de crise ecológica, alimentar o que nos alimenta — com a intenção de compostar o Antropoceno?

“É fácil deixar um pouco de leite para as fadas,
mas difícil oferecer algo que verdadeiramente regenere o mundo.”

As oferendas como elos de memória

Algumas tradições dizem que certas fadas são ancestrais trans-humanizados — espíritos de antigas linhagens humanas.
Se isso é verdade, por que se interessariam por alimentos que os caçadores-coletores nem podiam digerir?

A resposta pode estar nas memórias.
As oferendas não servem apenas como alimento simbólico, mas como elos de lembrança — fios vivos que reconectam os humanos à vasta rede de inteligências da Terra e ao motor vital das bio-regiões.

“O que realmente se oferece não é a substância,
mas as origens lembradas
a história viva e cantada que refaz a teia do mundo.”

Conhecer as origens é o verdadeiro ritual

O valor da oferenda está em conhecer a sua proveniência:
Quem cultivou o grão?
De onde veio o leite?
Que emoções acompanharam quem colheu, amassou e preparou?
Quando essa história é esquecida, ocorre perda de alma e desligamento do corpo da Terra.

“A história lembrada é a oferenda.”

Ao relembrar os elos físicos com a bio-região, refazemos o mundo.
Voltamos a fazer parte da comunidade mais-que-humana — composta de plantas, rios, ventos, pedras, animais e espíritos do lugar.

Oferenda x Sacrifício

As culturas de sacrifício surgem quando a memória se rompe.
São tentativas desesperadas de reparar o esquecimento.
Sacrifícios aparecem quando as coisas já deram errado.

Durante a Idade do Bronze, povos isolados em terras devastadas por desmatamento e erosão tentaram, através de sacrifícios, restaurar a abundância — mas geralmente tarde demais.
Grande parte do “paganismo” posterior foi, talvez, uma tentativa de corrigir o antigo erro ecológico.

Com o Cristianismo, surgiu o “sacrifício final” — o meta-sacrifício que encerraria todos os outros.
Mas ao substituir o ritual físico e ecológico por um sacrifício simbólico e interno, o Cristianismo rompeu os últimos fios de ligação com as tradições de abundância da Terra.
Essa ruptura abriu caminho tanto para as culturas industriais quanto para o racionalismo cartesiano.

 

De que as divindades realmente se alimentam

Hoje, muitas oferendas são apenas gestos vazios — sacrifícios disfarçados.
Mas os seres míticos não se alimentam da matéria, e sim da história, do amor e da memória contidos no gesto.

Elas e eles alimentam-se:

  • do cordão de conchas feito à mão,
  • do leite de um animal cuidado com ternura,
  • da canção de louvor composta no coração,
  • do pão assado com conhecimento da sua origem.

“Os deuses alimentam-se da proveniência —
o fio vivo da memória ancestral
que se estende antes da última era do gelo.”

Ao oferecer algo feito à mão e de origem conhecida, nossas mãos se unem às mãos de milhares de gerações anteriores.
Deixamos de ser “apenas eu” e nos tornamos uma extensão da vontade maior da Terra, um coro de carvalhos, montanhas, corvos, salmões e flores.

Oferecer é relembrar

Pergunta-te:
De onde veio este pão?
Quem cultivou o centeio?
Como esta abóbora viajou da América do Sul até à tua mesa?
Como o trigo saiu do vale do Eufrates e chegou à tua terra?

Essas são as canções que alimentam as divindades.
Canta as histórias das plantas, das mãos que as plantaram, das tradições que as sustentam.
É disso que as divindades se alimentam.

Regenerar a Terra: a maior oferenda

Hoje, não é possível falar em magia, bruxaria, paganismo ou espiritualidade ecológica sem regeneração real da Terra.
O fio dourado da memória ancestral não pode ser refeito enquanto o solo estiver esquecido.

Por isso, a maior oferenda que podemos fazer é:
🌳 reflorestar,
💧 restaurar rios e nascentes,
🌻 plantar ervas e árvores,
🏡 cuidar de pequenos pedaços de terra,
🌆 criar redes e comunidades regenerativas, mesmo nas cidades.

“A regeneração da Terra é a oferenda mais bela e urgente.”

Quando unida a canções, danças e objetos de origem conhecida, essa prática torna-se um presente sagrado aos seres míticos — e ao planeta que nos sustenta.

🌍 Refazendo o pacto

Há milhares de anos, quando deixamos de caçar e passamos a cultivar, fizemos um pacto com os seres da Terra.
As oferendas às fadas são ecos distantes desse pacto.

Mas quando rompemos essa relação — com a industrialização e o esquecimento da alma — o pacto foi quebrado.
Agora, é hora de negociar um novo acordo.

Hoje, não basta oferecer leite, incenso ou whisky.
Precisamos de restaurar a Terra até ao ponto ecológico do último pacto —
antes da devastação e da perda da memória.

Isso requer a criação de ecocívios (cidadãs e cidadãos conscientes), vilas-florestas, economias regenerativas e bio-regiões restauradas.
Mesmo o cuidado com um pequeno jardim urbano já é um começo — uma oferenda viva.

Conclusão: o novo pacto com a Terra

Através da regeneração do solo, da restauração da água e das oferendas de origem conhecida, começamos o “retecimento” da nossa relação com todos os seres
plantas, animais, rios, montanhas e espíritos.

E assim, um novo pacto é feito com os seres mais-que-humanos da Terra.
Um pacto de memória, gratidão e regeneração.

“Ao relembrar, retecemos.
Ao regenerar, reencantamos.
E ao oferecer com consciência,
alimentamos novamente o corpo da Terra.”

Jason Hine

(Escritor, ecologista, contador de histórias e facilitador de rituais; um dos principais nomes ligados ao movimento de ecologia animista e mitopoética no Reino Unido;

Ex-professor e cofundador da Feral College, uma escola alternativa dedicada a estudos de ecologia mítica, rewilding espiritual e práticas de reconexão com a terra;

Autor de vários ensaios que circulam em blogs, redes sociais (como Facebook) e em coletâneas independentes de ecologia e espiritualidade.

O tema central dele é o “reenraizamento ecológico e espiritual” através das “ofertas de origem lembrada” (remembered origins offerings), que liga práticas pagãs antigas à regeneração ecológica contemporânea — um conceito que ele chama de “composting the Anthropocene” (compostar o Antropoceno).

 

 



sexta-feira, 3 de outubro de 2025

ESCLARECIMENTO EM NOME DA SACERDOTISA RESPONSÁVEL PELO TEMPLO, LUIZA FRAZÃO

 


Facebook - Luiza Frazão

@sacerdotisaluizafrazao
@templodashesperides
@conferenciadadeusaportugal

Queridas amigas e amigos e membros da comunidade do Facebook, Instagram, Conferência da Deusa e Templo da Deusa do Jardim das Hespérides,

Na tarde do dia 1 de outubro, enquanto acompanhava as obras de impermeabilização no telhado da minha casa, a minha conta do Facebook foi alvo de um ataque cibernético grave. Uma publicação maliciosa e criminosa foi feita em meu nome, com conteúdo abjeto de teor ped*filo e com o claro objetivo de causar o maior dano possível.

As consequências foram imediatas: as minhas duas páginas no Facebook — “Luiza Frazão” e “Sacerdotisa em Avalon” — foram desativadas sem qualquer possibilidade de defesa. Pouco depois, as três contas que administro no Instagram também foram removidas:

  • A minha conta pessoal: @sacerdotisaluizafrazao
  • A página do Templo da Deusa: @templodashesperides
  • A página da Conferência da Deusa em Portugal: @conferenciadadeusaportugal

A plataforma assumiu automaticamente que a publicação havia sido feita por mim, sem qualquer investigação técnica mais aprofundada para apurar a verdadeira origem — algo que poderia ter sido facilmente rastreado através do endereço IP ou da localização do dispositivo. Fui assim penalizada e injustamente associada a um conteúdo abjeto, que repudio de forma absoluta.

Tenho uma presença ativa no Facebook há quase 20 anos. Ao longo deste tempo, como muitas outras pessoas, enfrentei alguns ataques virais — incómodos, mas sem mais. No entanto, nunca tinha passado por uma situação tão grave, que apagou a minha presença digital e afetou diretamente o trabalho pessoal, espiritual e comunitário que venho desenvolvendo há décadas.

Neste momento, estou a tomar todas as diligências possíveis para tentar recuperar as contas, enquanto mantenho a fé num verdadeiro milagre da Deusa. Abençoada.

Agradeço, desde já, a compreensão, o apoio e as boas energias de todas e de todos.

Que a Deusa nos proteja e abençoe — especialmente às crianças deste mundo.

Com gratidão,

quinta-feira, 31 de julho de 2025

Lammas, Evocando as Águas Amnióticas da Grande Mãe

Águas de Lammas, Águas da Vida

Lammas, Lughnasadh, é o festival celta das Primeiras Colheitas

Celebra-se a 1 de Agosto e nele se honra a Deusa no Seu aspecto de Mãe, de Grande Criadora, de Senhora do Grão, dos Cereais, da Nutrição e da Abundância, a Senhora do Leite, a Senhora da Hora (do Parto), da terra cultivada, diferente da terra selvagem que celebramos em Mabon. A Grande Mãe que "trabalha na estrutura energética da terra e da comunidade, carregando no Seu  vasto útero os ovos dourados do futuro"*

Nesta altura celebramos a nossa Deusa Mãe Caria, cujo nome se aproxima do da Deusa Mãe romana Ceres, e da Deusa cretense Ker bem como da palavra cereal; celebramos também Broénia, na origem do nome que damos ao pão de milho, a broa - lembrando que o milho painço já existia na Europa antes das viagens de exploração intercontinentais. Neste festival, em honra igualmente está Deméter e todas as Deusas Mães, incluindo Isis e a hindu Lalita, ou Metragirta, da Roda da Ibéria, Asherat e muitas outras. 

Na Roda de Avalon também é celebrada Madron, ou Modron, Deusa Mãe muito arcaica, diz-se que desde antes do grande dilúvio. Ela está particularmente associada às águas da fertilidade e da criação, o líquido amniótico onde nos criámos no ventre das nossas mães. Conhecido em muitas tradições espirituais como “águas sagradas”, “oceano primordial”, ou “mar interior”, Madron ainda tem o Seu poço sagrado na Cornualha.

Essas águas, tão apetecidas e decisivas para a nossa sobrevivência e a de toda a vida, especialmente nos meses abrasadores do verão, esse líquido tão precioso onde a vida se gera e se cria, é também sagrado e especialmente dedicado à fertilidade do útero feminino em fontes como a de São Pedro de Rates Localização, situada nas proximidades da Igreja Românica do mesmo lugar, uma freguesia da Póvoa de Varzim, no distrito de Braga. Esta é uma fonte tradicionalmente associada a rituais populares relacionados com a fertilidade, quer para casais que desejam ter filhos, quer para a fecundidade da terra. Costa que durante séculos, pessoas vinham à fonte pedir bênçãos, beber a água ou realizar rituais, numa mistura de tradições pagãs e cristãs ou pagãs cristianizadas.

Existem em Portugal vários outros exemplos de águas, ou de fonte associadas à fertilidade: incluindo a Fonte Santa de Santa Maria da Feira; a Fonte da Senhora da Piedade (Região Centro); Fontes termais e santuários de águas milagrosas, como Vila Real, Caldas da Rainha, ou Chaves onde as águas quentes e minerais eram usadas para tratamentos, inclusive ligados à fertilidade. Ainda na Cidade da Senhora da Hora (por certo uma referência a um anseio frequente nas mulheres de terem um bom parto), aí a Fonte das Sete Bicas está associada à fertilidade feminina. Mulheres grávidas ou que desejavam engravidar, bem como agricultores preocupados com a reprodução dos animais, recorriam a esses locais. Os rituais incluíam beber a água, lavar-se nela, ou mesmo amarrar fitas coloridas nas árvores próximas como símbolo de pedidos e agradecimentos.

Mas são inúmeros no nosso território os lugares onde águas de nascentes, de tanques e pias, em lugares de milagre e devoção, carregam este poder sagrado de propiciar a criação de nova vida, sendo vistas e sentidas como as águas amnióticas da Grande Mãe. Basta sentir a aura dum lugar, como a Pia da Ovelha, rodeada de símbolos vulvares nas paredes de pedra do maciço calcário estremenho, na companhia duma Sheela na Gig, ou Baubo, exibindo o seu portal interdimensional para percebermos a sua ligação com o parto, a fertilidade e a Grande Mãe. Junto dessa formação natural, a famosa Pia da Ovelha, onde um pingo constante de água assegura o seu perpétuo abastecimento, e não temos dúvidas de que aquele é antes de mais o precioso líquido amniótico do útero da Grande Criadora, ali albergado na lapa-útero da serra. A alguns metros, a capelinha da Memória consagrada à Senhora da Consolação, foi erigida sobre uma “pocinha” de água, que a Senhora do Fetal que ali apareceu, diz-se, no séc. XVII, fez aparecer para matar a sede da Pastorinha a quem antes tinha matado a fome, enchendo de pão a arca da casa da sua família, muito pobre, na aldeia. A “pocinha” de água foi obstruída, mas nem por isso essa Senhora da Consolação deixa de ser procurada para cura, como se pode ver pelas ofertas deixadas no parapeito da janelinha da capela fechada, tal como a porta.


E de súbito, quando estudamos a Mãe nas sociedades celtas, vista muitas vezes como um colectivo de três, as Matres, ou Matronae, ou as Matrubos, como as nossas antepassadas e antepassados as conheciam também por aqui, percebemos ser aquele um poderoso santuário da Grande Mãe, que o povo celta ligava tanto à Criação e Sustentação da Vida, e por isso também à Cura, como à sua regeneração, ou seja, à Morte.  E assim no mesmo lugar onde temos a vulva e a água uterina da Grande Criadora, temos um painel mostrando o milagre do pão que a Generosa Senhora da Abundância providenciou à Pastorinha a quem apareceu, e, logo ao lado, o cemitério da mesma Senhora do Fetal, lembrando que ela acolhe tando no nascimento nesta dimensão quanto no da alma na outra. De resto a aldeia venera três Senhoras - a dos Remédios, a da Consolação e a do Fetal. Sobre a história deste importante santuário, já muito sagrado e importante antes da cristandade, existe abundante literatura para quem quiser aprofundar o tema como de facto merece. Ver por exemplo Memórias do Reguengo do Fetal, Vol. I e II, Joaquim Ribeiro Gomes Calado

Em Lammas celebramos também as águas vermelhas (águas férreas) e brancas do Sangue e do Leite da Vida da Magna Mater. Por isso o ocre vermelho era usado nos rituais funerários para invocar o poder do Seu sangue regenerador, e entre nós Ela é também invocada como a Senhora do Leite, para além de a Senhora do Ó, a Senhora prestes a dar à luz, e a Senhora do Parto – memória de sociedades que valorizavam acima de tudo o milagre da Vida (ver Riane Eisler, O Cálice e a Espada)

 *Kathy Jones, Sacerdotisa de Avalon, Sacerdotisa da Deusa (obra em fase de edição e publicação em Portugal, pela Associação Cultural Jardim das Hespérides)

 Imagem 1 - Senhora da Abadia, Terras de Bouro

Imagem 2 - Serra da Estrela, Seia, zona da Cabeça da Velha

Imagem 3 - Altar de Lammas

Imagem 4 - Matres, Matronae ou Matrubos (representação da autora)

Imagem 5 - Maciço calcário estremenho

©Luiza Frazão


Deusas das Águas - Maria

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