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sábado, 7 de fevereiro de 2026

Deusas das Águas - Nábia

 Série especialmente dedicada às nossas Deusas das Águas, tema da Conferência da Deusa Portugal 2026

Seus lugares de culto, rios associados, oferendas e devoção

Nábia é uma das mais antigas e amplamente veneradas deusas do mundo galaico-lusitano, profundamente associada às águas vivas, às passagens e ao equilíbrio entre a comunidade humana e a paisagem sagrada. O Seu culto não se centra em mitos narrados, mas em lugares concretos, onde a água brota, corre e liga territórios.

Nábia é, acima de tudo, uma deusa da água em movimento. Preside a fontes, nascentes, rios e confluências, mas também aos espaços liminares que esses lugares representam: margens, pontes, vales e caminhos. Não é uma divindade distante nem celeste; é imanente, presente no território e no quotidiano. A sua acção não é violenta nem abrupta, mas contínua e reguladora, como o curso de um rio.

Espiritualmente, Nábia é uma deusa liminar: acompanha transições, mudanças de ciclo, viagens e decisões importantes. Onde algo se transforma — da nascente ao rio, da margem ao atravessar — aí está Nábia.

Lugares especiais do Seu culto

O culto a Nábia está bem atestado por inscrições votivas encontradas sobretudo no Noroeste da Península Ibérica, abrangendo a Galiza, o Norte de Portugal (Minho, Trás-os-Montes) e zonas do actual Centro de Portugal. Surge frequentemente com epítetos locais (como Nabia Corona, Nabia Elaesurra), o que indica que o seu culto se adaptava a cada lugar específico. A Fonte do Ídolo em Braga parece ter sido dedicada a Nábia.

Essas dedicatórias encontram-se, regra geral, perto de: fontes e nascentes, rios e vales férteis, antigos caminhos e zonas de travessia. Isto mostra que Nábia era venerada no próprio espaço natural, e não num templo isolado da paisagem.


Rios associados ao Seu nome

A importância de Nábia é tal que o seu nome ficou gravado na própria hidrografia da Península. Entre os rios cujo nome é geralmente associado à sua raiz destacam-se:

  • Rio Navia (Galiza), um dos exemplos mais claros e frequentemente citados
  • Rio Nabão (Tomar), cuja etimologia é tradicionalmente ligada à deusa
  • Possivelmente também rios como o Neiva, no Norte de Portugal, conservam ecos antigos do seu nome
  • Rio Nava, Terras de Bouro, Gerês

Estes rios não são apenas acidentes geográficos: são testemunhos vivos da antiga sacralização da água e da presença contínua de Nábia no território. O rio Nava que corre no Gerês por terras de Bouro passa por um importante santuário, o da Senhora da Abadia, onde, numa pequena gruta repleta de água, se encontra uma imagem da Senhora. Diz-se que foi a primeira, que esse foi o lugar que deu origem à construção da imponente abadia que hoje se vê. A água é do rio Nava, e uma pergunta surge: Será esse um dos primitivos santuários ou altares a Nábia, que teve tão intenso culto naquela região?

Prova de que o seu culto desceu mais a sul é a Travessa da Horta Návia, que encontramos em Alcântara (“ponte” em árabe), em Lisboa. As águas do Nabão conduzem a Sua energia até ao Tejo, com o Zêzere servindo de intermediário.


Devoção a Nábia

O que se pedia e pede a Nábia

Nábia não é invocada para a conquista ou para a ruptura, mas para que o fluxo da vida se mantenha harmonioso. É uma deusa de continuidade, ligação e cuidado.

A ela se pedia e pede proteção da comunidade, fertilidade da terra, dos seres e das águas, saúde e equilíbrio, boa passagem em momentos de mudança ou viagem, ou travessia, quer seja física quer seja simbólica, ou ao iniciarmos um novo ciclo, na nossa vida ou na vida da comunidade.

Nábia é uma das Deusas aquáticas terapêuticas, conforme atestam as propriedades da água da nascente do Nabão, no Agroal, concelho de Ourém. Desde tempos imemoriais até ao presente, esta água é considerada sagrada e procurada para cura, para restabelecimento do fluxo vital. 

Actos de devoção, como gestos simbólicos junto da água – tocar a água, beber dela, lavar mãos ou rosto – eram e são praticados como a mesma intenção de reconhecimento e de sagrada conexão.

Oferendas a Nábia

As oferendas e votos dirigidos a Nábia são simples e essenciais, refletindo a natureza do Seu culto. A oferenda era, e continua a ser, um gesto de alinhamento com o fluxo da água, de reconhecimento da sua força liminar, e de gratidão pela vida que ela sustenta.


A Nábia se oferecia alimentos, como leite – símbolo de pureza e renovação da vida; pão e cereais – associados à fertilidade da terra e à nutrição da comunidade; frutas ou produtos locais – frutos silvestres, possivelmente mel ou sementes, entregues junto de rios ou nascentes. Também objectos votivos como coroas ou guirlandas de flores ou de ramos. Pequenos utensílios de uso quotidiano ou simbólico – como lâminas de bronze, peças de cerâmica ou contas – eram colocados nas margens ou em fontes sagradas, assim como pedras ou seixos especiais eram depositados nos leitos de rios ou nas nascentes, marcando presença e intenção ritual.

©Luiza Frazão
 

Fontes:

José Leite de Vasconcelos, Etnografia Portuguesa

Ramón Menéndez Pidal e estudos sobre toponímia galaicaParte superior do formulário

Luís Graça, Religião pré-romana em Portugal

 

Alberto Gutiérrez, estudos sobre hidronímia galaico-lusitana

Parte inferior do formulário

Miranda Green, Celtic Goddesses (1995)

John T. Koch, Celtic Culture: A Historical Encyclopedia (2006)

Francisco Calvo, artigos sobre a religiosidade indígena lusitana

 Imagens:

1. Estátua de Nábia, de Carlos García, no município de San Sadurniño, na província da Corunha, Galiza (Espanha)

2. Altar a Nábia junto do rio Nava? Gerês, Terras de Bouro, Senhora da Abadia

3. Rio Tejo, Ribeira de Santarém

4. Rio Nabáo, Tomar

 

segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

SABES POR QUE O IMBOLC EM ÓBIDOS É TÃO SENTIDO E ESPECIAL?

No Imbolc nós celebramos o regresso da luz após o seu recolhimento no Inverno, pois a duração dos dias aumenta a partir de agora progressivamente. Celebramos assim agora a Deusa no Seu aspecto Donzela. Ela é a Deusa Menina, que na tradição celta que partilhamos com a Britânia, é a Pastorinha, the Little Shepherdess. Ela é Brígida, a Grande Deusa Celta, que tem Brigântia como o Seu aspecto Terra.

A Pastorinha é a Menina Deusa do Neolítico, Deusa do Sol e da Lua, do Fogo e da Água, que na nossa cultura também é invocada como Iria, Senhora da Cova da Iria. Ainda hoje encontramos nesse lugar as Suas mui santas águas de cura e a Sua chama eterna, lado a lado, e foi aí que se deu o famoso Milagre do Sol.

Como a relação entre ambas me parece tão estreita, invoco a Senhora do Imbolc na nossa roda como Iria-Brígida. São ideias que desenvolvo no meu livro A Deusa Celta de Portugal: A Anciã do Inverno e a Rainha do Verão, da editora Zéfiro.

Tenho, entretanto, o prazer de morar na bela vila de Óbidos, onde a Deusa me concedeu a graça de viver perto da Biquinha, uma das Suas fontes sagradas de águas de cura. Na verdade, esta vila, que segundo rezam as crónicas, foi fundada em 308 AEC pelo povo Celta, está repleta de vestígios do antigo culto desta grande Deusa. Na Porta da Graça ali em cima, lembrando que Brígida é Deusa do Limiar, realiza-se pelas noites do Imbolc, 1 de Fevereiro, uma cerimónia religiosa que consiste na distribuição e bênção de velas que se levam acesas em procissão até à Igreja de Santa Maria. Aí decorre uma missa e é por essa altura que se abençoam os bebés recém-nascidos, evocando o poder de Deusa Parteira atribuído na cultura Celta à Deusa Brígida. Santa Maria é, no meu entender, o Seu grande avatar cristão.

Mas a primeira celebração deste festival acontece por aqui a 17 de Janeiro, no cimo dum Monte agora consagrado a Santo Antão, onde se encontra um dos famosos tronos de pedra que no mundo antigo eram considerados ora pertencendo a Brígida ora à Deusa Cailleach (o aspecto Anciã da jovem Brígida em muitas mitos e lendas). Aí “A noroeste da Vila, coroando formoso outeiro que frondosas matas envolvem, foi mandada construir, em cumprimento de um voto, por D. Antão Vaz Moniz, fidalgo obidense e um dos combatentes da ala dos namorados em Aljubarrota"*, uma bela ermida dedicada ao santo homónimo. Entre os vários santos homenageados no interior da capela, destaco São Brás, por se tratar de mais um avatar de Brígida, ao qual são atribuídos muitos dos Seus antigos poderes, e é em muitos lugares também celebrado no início de Fevereiro.

Neste convívio animado, lembrando que a Deusa Pastora também é a protectora dos animais da quinta, compram-se e acendem-se velas e fitinhas, que se levam para casa: “Outra das características desta romaria está relacionada com a distribuição pelos devotos de fitas cor-de-rosa e de velas que, depois de benzidas, são colocadas ao pescoço dos animais (as fitas) e guardadas para serem acesas nos estábulos (velas), no caso de a doença visitar os moradores”.* Mais óbvio que se trata de reminiscências da antiga devoção à Grande Deusa Celta é difícil encontrar.

Entretanto, a vila de Óbidos foi outrora abastecida de água por um aqueduto, mandado construir por Catarina de Áustria, mulher de João III, em 1573, que vinha desde a Usseira, a cerca de 3 quilómetros de distância. Aí, no início do aqueduto, foi edificada uma capelinha dedicada a Santa Iria, protectora das águas que transportava.

Ainda evocando esta entidade divina, também a 20 de Outubro, o dia de Iria, realiza-se uma feira de Outono, semelhante àquela de Tomar, mais uma evidência deste culto antigo à Grande Deusa Celta, tão forte e presente ainda nesta região.

O Imbolc aqui é então do mais sentido e especial e por isso te convidamos a juntar-te à nossa celebração de 1 de Fevereiro. Sê bem-vinda ou bem-vindo!

 

*https://www.jfsmariapedrosobral.pt/freguesia/locais-a-visitar/10-ermida_de_santo_antao

 

segunda-feira, 21 de outubro de 2024

Despedida da Senhora do Verão e Acolhimento da Senhora do Inverno

 Tomar 20 de Outubro 2024

A celebração do dia 20 de Outubro, em Tomar, é sempre um momento alto na forma como vivo o meu ciclo anual. Este evento é o contraponto da celebração de 13 de Maio na Cova da Iria. Em ambos os momentos, IRIA, a Deusa do território, é invocada e celebrada - na sua forma de Rainha do Verão.

Ela também é Beira, a parte do nome composto Cale-Beira, ou Calaica-Beira, ou ainda Cailícia-Beira, Deusa Dupla, que por Beltane assume a forma jovem e é a nossa de Rainha do Verão, e no final de Outubro, quando o Samhain, o fim/princípio do ano se aproxima, assume a sua forma de Anciã Rainha do Inverno. Uma tradição celta muito muito antiga mas que se manteve viva na nossa tradição, quando foi assimilada pela igreja de Roma.

Participar nesta celebração, reinterpretando-a, ou ressignificando-a, e vivendo-a segundo a nossa visão, é uma experiência que amo e adoro desde há já alguns anos, primeiro sozinha, depois com a minha irmã Sacerdotisa Cristina Grumete, depois com outras irmãs e Sacerdotisas da Deusa do Jardim das Hespérides e outras pessoas que simplesmente se juntam ao grupo.

Conto a história desta Deusa Dupla celta e desta tradição num livro que teci com todo o material que investiguei da tradição portuguesa e que foi traduzido para Inglês e Francês.

Este ano, porque era domingo, havia um grande multidão e no meio dela, um casal que encontrámos já sobre a ponte chamou a minha atenção. Ton van der Kroon, um investigador holandês que vive em Tomar, com a sua mulher, Anne Wislez, podia ser confundido com o autor luso-americano Freddy Silva... Não era, mas... também ele é produtor de conteúdos em áreas afins... Foi delicioso o encontro que tivemos com este casal com quem descemos até ao sagrado Pego de Santa Iria, ex-libris da cidade de Tomar, tristemente engolido por um hotel que apagou a memória do antigo mosteiro construído por certo sobre um antigo templo da Deusa e por isso uma memória viva da ancestral Senhora da terra...

Os nossos caminhos de celebração, entretanto, divergiram para outras zonas mais íntimas e
significativas que, à nossa maneira, nos permitiram progredir desde a despedida de Uma ao acolhimento da Outra.

Realizámos a parte mais significativa da nossa celebração em contacto com a terra, não longe das águas do Nabão, agora um rio de morte e dissolução, depois de termos oferecido às suas águas pétalas de rosas vermelhas, como o sangue da vida, repleto de promessas de renovação, ouvindo o canto dos pássaros, sentindo no meio da verdura eterna, sobre uma camada de folhas e galhos em decomposição, a humidade trazida pelas chuvadas de Outono, aceitando a proposta de ir dentro, de ir fundo, honrando o túmulo/útero da Grande Mãe,  Senhora da Criação, da Manutenção e da Renovação da Vida. E fizemo-lo em sororidade e fraternidade,  sentindo o nosso coração bem mais aconchegado pelo sentido e significado e  profundidade que assim acrescentámos e com que enriquecemos a nossa experiência humana.

E mutuamente prometemos apoio e carinho na longa travessia do Inverno, seja ele atmosférico ou psíquico. Abençoada!

©Luiza Frazão


Obs. Versões inglesa e portuguesa deste livro à venda na Amazon.

terça-feira, 16 de abril de 2024

Helena dos Caminhos / Senhora dos Verdes

 

Yuri Leitch

HELENA DOS CAMINHOS

 

“Se Helena apartar

do campo seus olhos

nascerão abrolhos”

Luís de Camões

 

“O azar da Península Ibérica foi a Inquisição e a caça às bruxas que destruíram todos os rastos da mitologia arcaica…”

“Sabemos que as estradas romanas seguiam caminhos antigos e sabemos que estes eram caminhos de transumância pastoril e que antes do pastoreio dirigido existiu o mero acto de seguir os trilhos das manadas.”                          

Blogue Numância

Helena dos Caminhos, conhecida entre nós como a Senhora dos Caminhos, é uma das Deusas de Beltane mais antigas e mais fascinantes e cuja história é mais rica e complexa e difícil de deslindar. Na verdade a história de Helena dos Caminhos parte em várias direcções, fazendo jus ao Seu atributo de Deusa dos caminhos, de Guardião dos caminhos. Por Helena, e honrando o seu espírito indomado de Deusa Hasteada, de Deusa Rena, ouso entrar por caminhos que não sei ainda aonde me conduzirão, nem isso me importa, porque precisamente o que a Deusa me é inspira é a abrir ou a mostrar caminhos…

Entre as divindades relacionadas com Beltane que fiquei a conhecer no meu primeiro ano do treino de sacerdotisa de Avalon, surgiu uma que imediatamente captou a minha atenção duma forma muito premente: Elen of the Trackways. Fiquei sob o Seu encanto e andei uma eternidade às voltas com esta energia poderosa até ter percebido que Elen, ou Helena, queria ser encontrada e resgatada no nosso território. Ao ler a investigadora britânica Caroline Wise, compreendi melhor aquilo que eu mesma senti no meu primeiro contacto com esta Deusa: “Quando comecei a leitura dessa pequena brochura (onde se falava de várias Helenas mitológicas e da possibilidade da sua origem comum) senti as correntes da kundalini atravessarem o meu corpo”.

Durante o meu treino, com o meu inglês tão insipiente, lia e escrevia em frente do computador e do tradutor do Google. Na verdade estudar, fazer investigação, hoje em dia é absolutamente fascinante, porque podemos satisfazer a nossa sede de informação e a nossa curiosidade da forma mais simples, pressionando apenas algumas teclas do computador. Ora, como muito cedo me apercebi das ligações que existem entre o material britânico e o ibérico, a certa altura resolvi escrever no motor de busca: “Senhora dos Caminhos”. Será que tal epíteto fora alguma vez aqui atribuído à Deusa? Para meu espanto absoluto a resposta foi positiva. Sim, são inúmeras as capelas, santuários, nichos, por todo o país, mais para o Norte, mas na verdade um pouco por todo o país. Existem até duas capelas bem perto da aldeia onde nasci, no distrito de Leiria, uma na Batalha e outra em Porto de Mós. Incrível, capelas da Senhora dos Caminhos mesmo ao pé de casa e eu nunca tinha ouvido falar desta Deusa! Uma investigação sumária desses locais de culto, trouxe-me uma informação preciosa: em Rãs, freguesia de Sátão, Aguiar da Beira, uma nova capela da Senhora dos Caminhos foi construída sobre outra mais antiga dedicada à… Senhora dos Verdes.

Senhora dos Verdes? Não podia acreditar no que estava a ler… Senhora dos Verdes é nem mais nem menos que a tradução literal de Lady of the Green, uma das primeiras designações por que Elen of the Trackways é conhecida, como uma espécie de versão feminina do Green Man, o Homem Verde, ou seja, uma personificação do espírito da natureza, relacionada com a Fertilidade e a Soberania da terra. Ou com a própria Terra, como postula Caroline Wise no seu brilhante trabalho de investigação sobre esta divindade, segundo ela uma das mais primitivas e importantes do panteão britânico. O nome da capital inglesa, Londres, poderá estar relacionado com ela, acredita.

Pedra oferta de Helena
Pela etimologia, “Elen” é um termo relacionado com cervídeos como a Rena, o Alce, o Veado, a Corça, mas também com o Cisne. Em francês, por exemplo, existe o termo Élentier significando Alce. Entre a figura referida no Mabinogion, Elen of the Trackways, Helena de Troia e Santa Helena, mãe do Imperador Constantino, entretanto, existem ligações que levam a investigadora a suspeitar tratar-se da mesma entidade. Helena de Troia nasceu, segundo a lenda, dum ovo de Cisne, forma tomada por Zeus para seduzir sua mãe, Leda. Quanto a Santa Helena, foi ela quem, supostamente, descobriu na Terra Santa a verdadeira cruz de Cristo. Ora, Cruz do Norte é precisamente um outro nome dado à constelação de Cygnus. Elen surge assim como uma energia por demais poderosa e fundadora para não irmos no seu encalce.  

Voltando aos poderes de Helena, Ela é a Senhora da Soberania da Terra, Senhora dos Verdes, a Vénus Britânica, Deusa dos Jardins, a Noiva das Flores, Guardiã dos cursos de água subterrâneos, Guardiã dos antigos trilhos das migrações da Rena e do Alce, Guardiã das Linhas Ley, Ativadora e Mediadora da Kundalini da Terra. A Sua ligação à Rena parece ser a mais primordial, e Renas existiram também na Ibéria. Nos períodos glaciais, os animais característicos foram o mamute, o rinoceronte peludo e a rena, espécies vindas do centro e do norte da Europa, que buscavam o clima relativamente ameno da Península. Portanto, em épocas glaciares havia renas e a última dessas épocas acabou há 9 mil anos, ou seja, no início do Neolítico. Esta mudança climática terá originado a substituição da rena pelo cavalo

 “Esta Deusa, com ligação a animais como os cervídeos, cujos caminhos guarda e guia, tornou-se a Deusa das linhas de energia, implicada na soberania da terra, nas suas medições, mapeamento e na geomancia. Por intermédio dos animais e dos seus antigos trilhos, ela está relacionada com o equilíbrio das energias da terra, com a fertilidade e com os ciclos da natureza”, resume Caroline Wise. E também por cá temos, entre outros, o Monte de Santa Helena, em Lage, freguesia de Vila Verde, onde são visíveis os vestígios duma via romana, que a atravessava e que era parte do caminho de Santiago.

O CISNE DE HELENA

“Como Deusa Hasteada, Ela guia-nos pelos primeiros trilhos da migração das renas. Ela apontou para a antiga cidade de Londres e para as estrelas e revelou-me mistérios do conceito abstrato de soberania, que liga a fertilidade da terra a quem a governa.” Caroline Wise 

(http://mirrorofisis.freeyellow.com/id152.html)

Andrew Collins, entretanto, em The Cygnus Mistery, defende que a veneração do Cisne, como ave associada à vida cósmica, remonta a 17 000 anos atrás quando a constelação de Cygnus ocupava posição de destaque nos céus noturnos do Hemisfério Norte, sendo então Deneb, a estrela mais brilhante desta constelação, a Estrela Polar. Segundo crê, a constelação de Cygnus estaria na origem de todas as religiões do mundo, bem como da Astronomia, da Literatura, das cosmologias antigas e das viagens transoceânicas. Raios cósmicos duma estrela binar desta constelação, a Cygnus X-3, defende o autor, terão contribuído para a evolução humana durante a última Idade do Gelo, sendo vários os indícios, diz-nos, que provam que as/os nossas/os antepassadas/os tinham consciência de que a vida na Terra tinha uma origem estelar.

Os animais totémicos de Helena são a Rena e o Veado (os cervídeos) e o Cisne, cuja simbologia é riquíssima e sobre o qual se pode ler na Infopedia: O cisne é em muitas tradições o símbolo da mulher e da virgem dos céus que em contacto com a terra e com a água dá origem aos seres humanos”.  Helena relaciona-se assim com a constelação do Cisne, também conhecida como Cruz do Norte, e estou convencida de que um fóssil da antiga veneração dessa constelação no nosso território se encontra precisamente no culto prestado à Santa Cruz, na religião católica, curiosamente um dos antigos oragos da freguesia onde nasci. Na versão oficial, trata-se da cruz onde Cristo terá sido crucificado, descoberta na Terra Santa, por Helena (santa Helena), mãe do imperador Constantino, aquele que impôs o Cristianismo como religião oficial do Império Romano.

Podemos avistar Helena dos Caminhos nos trilhos dos bosques, entre as árvores, se A invocarmos e estivermos atentas/os à Sua epifania. Aí, é possível vislumbrarmos a Sua silhueta ou recebermos da Deusa um qualquer sinal da Sua presença. Como Deusa de Beltane, se nos rendermos à Sua presença em nós, Helena guia-nos pelas correntes da Kundalini do corpo, pelas indomadas correntes do desejo, quando vibrando em uníssono com o divino masculino, atingimos o portal estelar que conduz o ato de fazer amor à sua cósmica dimensão e apoteose.

©Luiza Frazão, Maio 2015

quinta-feira, 21 de dezembro de 2023

Modraniht - a Noite das Mães

 

Noite das Mães: As Antigas Origens Pagãs do Pai Natal?

Esta pesquisa ajuda-nos a perceber por que razão o Dia da Mãe em Portugal foi celebrado até há relativamente poucos anos em Dezembro. É verdade que no princípio, dia 8, mas mesmo assim tinha conseguido permanecer neste mês do Solstício de Inverno quando se honravam as Matronas do clã… Esta Mãe colectiva, tripla, as Três Matres, também foi cultuada entre nós, eram as Matrubos. Desconfio de aldeias que, sendo relativamente pequenas, conservam três templos cristãos dedicados cada um a uma Senhora diferente... Que vos parece?...

Modraniht, a Noite das Mães

Os povos germânicos primitivos celebravam a noite anterior ao Solstício de inverno como a Noite das Mães. O Venerável Bede, um monge cristão do século VIII, escreveu sobre este facto na sua descrição do calendário pagão. Em inglês antigo, chamavam-lhe Modraniht. Mais de 1100 pedras votivas e altares foram encontrados ao longo dos séculos, dedicados às mães, ou matronas, e metade destas pedras de altar foram inscritas e dedicadas com nomes germânicos.

As principais áreas de culto foram descobertas na antiga Germânia, no norte de Itália e no leste da Gália. Existem alguns centros de culto maiores com templos encontrados ao longo do Reno. Muitos destes altares foram encontrados perto de rios, poços ou nascentes. Os altares dedicados e as pedras votivas chegavam até à atual Escócia, ao sul de Espanha, à Frísia e a Roma.

Há uma referência aos cultos maternos germânicos nos escritos de Bede, em 725 d.C.: "E à noite que é sagrada para nós, estas pessoas chamam modranect, ou seja, a noite das mães, um nome que lhes foi dado, suspeito, devido às cerimónias que realizavam enquanto observavam esta noite."

Os altares e as pedras votivas, bem como os templos, eram frequentemente esculpidos com imagens que mostravam três mulheres de idade e aparência maternais, muitas vezes segurando cestos de fruta e um bebé. Com base nas inscrições encontradas, pensa-se que estes altares eram dedicados como oferendas de agradecimento pela abundância, dádivas e bênçãos que os soldados e marinheiros já tinham recebido. Acreditavam que as Mães tinham respondido às suas preces e esta era a sua forma de as reconhecer, queimando incenso e deixando oferendas de alimentos.

Muitas destas deusas ou espíritos tinham o nome da família que as invocava, bem como o nome do rio ou da nascente que tutelava a cidade ou aldeia local, como as matronas Albiahenae da cidade de Elvenich ou as Renahenae do Reno. Das 1100 pedras votivas encontradas, mais de 360 designam os mesmos grupos de matronas, as Aufaniae, as Suleviae e as Vacallinehae. Com base na idade das inscrições em pedra, parece que o culto das matronas começou a extinguir-se na Alemanha continental por volta do século V d.C., e Modraniht deixou de ser tão amplamente celebrado à medida que o cristianismo se impôs.

O que é que podemos retirar do que a história nos conta? A Noite das Mães era o momento de honrar as mães de "alma" da família e da tribo que velavam por elas. Destinava-se às mães que tinham feito a travessia, não àquelas que ainda viviam.

Na Noite das Mães, honra-se o sacrifício da vida para que as mães ancestrais se tornem uma fonte de sabedoria e força para aquelas que ainda vivem.

Gosto de começar a minha celebração criando um pequeno monte de pedras num altar temporário. Honro primeiro as minhas mães que fizeram a travessia, inscrevendo os seus nomes na pedra com giz. Acendo uma vela para cada uma delas. Lembro-me delas e conto as suas histórias. Opto também por honrar a força das mães ainda vivas, para que possam fazer parte dessa corrente ancestral quando chegar a sua vez de atravessar o véu.

Bebo uma chávena de chá e convido-as a partilharem dele. Faço croché, algo que a minha bisavó me ensinou no alpendre da frente durante o verão, quando eu era mais nova, oferecendo-me os seus ganchos quando já não os podia usar. Uma forma de homenagear as mães é honrar o seu trabalho e transmitir os conhecimentos que nos foram transmitidos por elas, e pelas mães delas, e que continuam vivos através de nós e do trabalho das nossas mãos. Sento-me e costuro à mão, cerzindo roupas velhas e, enquanto costuro, rezo.

Chamo-me Sarah, sou filha de Margaret, filha de Patricia, filha de Margaret, filha de Eliza, filha de Mary da Irlanda.

Rezo pela saúde dos meus entes queridos.

Rezo pela cura da minha amiga, uma mãe, que luta contra o cancro da mama.

Rezo pela cura de uma amiga cuja mãe morreu faz hoje um ano.

Rezo pela cura de uma amiga que perdeu a sua mãe recentemente, uma mãe cujo aniversário é hoje.

Rezo pela cura de uma amiga cuja mãe descobriu recentemente que o seu cancro voltou.

Peço força para a minha sobrinha, que é mãe pela primeira vez este ano.

Rezo para que o eco da sabedoria das mães que vieram antes seja lembrado.

Rezo pela terra, pela nossa Grande Mãe, cujos ossos, minerais e ADN animal nos deram vida.

~ Por Sarah Lyn

http://walkingwithancestors.blogspot.com/.../modraniht-id...

Imagem 1 - Arte de Ida Mary Walker Larsen

 Imagem 2 - https://thealderscrolls.wordpress.com/

 Imagem 3 - Pinterest

 

 

segunda-feira, 18 de dezembro de 2023

Solstício de Inverno - A Luz e a Escuridão

Os festivais da Roda do Ano são chamados Festivais Solares porque sempre celebram o movimento da Terra à volta da nossa estrela, à volta do Sol. Mas a ênfase excessiva no Sol acaba por fazer esquecer a Terra, o facto de estarmos aqui, sendo nós parte dela. Na verdade ela é um ser sagrado, Gaia, e Natureza é um dos Seus muitos nomes. Os Seus processos de criação, entretanto, precisam da escuridão, foi na escuridão do útero da nossa mãe que fomos geradas e gerados. Diz-nos Carol P. Christ, no seu ensaio Podemos Celebrar a Escuridão, Podemos Dormir?, que esta ênfase na luz tem na verdade uma origem patriarcal. Na Religião da Velha Europa, investigada pela arqueóloga, ou arqueomitóloga, Marija Gimbutas, celebrava-se a Deusa como o poder da morte e da regeneração da vida. Essa espiritualidade era praticada por povos agrícolas, que compreendiam a importância da escuridão para que as sementes pudessem germinar. A escuridão e o frio eram condições indispensáveis para que na Primavera pudéssemos ter novas plantas. Esse tempo de pousio, de falta de luz, de noites maiores que ou tão grandes como os dias, são também alturas em que podemos repousar mais e melhor. Essa época, em que seres humanos e animais permanecem mais tempo no interior das suas casas ou tocas, hibernando, é o chamado Tempo do Sonho, propício à concepção de novas ideias e projectos, que depois ganharão forma no novo ciclo da criação. Reuniões familiares e convívio à volta da fogueira, partilhando cantigas e histórias também davam um encanto especial a estas longas noites de Inverno. Esse era um período muito importante para os povos agrícolas do passado.

Carol P. Christ lembra-nos, entretanto, que os indo-europeus invasores não eram um povo agrícola, eram pastores nómadas e cavaleiros, que celebravam os reluzentes Deuses do céu. Por conseguinte, estas duas formas de estar na vida e de ver o mundo, dos agricultores da Velha Europa e dos povos que os invadiram, nómadas e pastores, provocou um grande choque de culturas. O poder desses Deuses brilhantes do céu reflectia-se no brilho das suas armaduras e armas de bronze.

E então aconteceu que esses patriarcas "casaram" os seus Deuses celestes com as Deusas-Mães terrestres que conquistaram. Tratava-se de uniões desiguais, uma vez que o sol era visto como superior à terra. Um exemplo disso é o casamento de Zeus com Hera, na mitologia grega da época clássica. De Deusa independente e poderosa que era, esta antiga divindade cretense viu-se assim transformada numa megera atormentada pelo ciúme, desesperada e violenta, que em vão passava o seu tempo tentando remediar o resultado dos instintos de violador em série, de ninfas e de Deusas, que tinha por marido. As Deusas mais velhas, que recusaram essa violação e casamento, foram relegadas para as fendas escuras da terra, vistas como a entrada para o submundo. E estas entidades divinas ctónicas emergiam das profundezas da terra em fúria, causando morte e destruição.

Para os antigos europeus, as serpentes que saíam das fendas nas pedras na Primavera eram prenúncio de renovação e de regeneração. Tal como as sementes, estas dormiam num local escuro durante o Inverno, despertando na Primavera, quando despiam a velha pele e punham os seus ovos. O submundo era entendido como um lugar de transformação, e não, como se tornaria mais tarde, um lugar de morte e destruição. A serpente era esse símbolo de regeneração da vida e não um símbolo do mal. Segundo ainda Marija Gimbutas, o branco era a cor da morte na Velha Europa, já o preto era a cor da transformação e da renovação da vida. Enquanto estes povos viam a morte como uma etapa necessária do ciclo da vida, os indo-europeus invasores ensinaram-lhes que a morte é um fim a temer e que a luz deve ser reverenciada e a escuridão evitada a todo o custo. Foram eles que desenvolveram o binómio claro escuro em que este segundo é negativo. Os indo-europeus entraram na Índia e na Europa. A noção de iluminação encontrada no Hinduísmo e no Budismo é ainda, segundo Carol Christ, um legado do binómio claro-escuro. Este povo, entretanto, também era de pele mais clara do que a das gentes que conquistaram, e assim a dicotomia claro/escuro pôde ser usada para justificar o domínio dos guerreiros de pele mais clara. Esta valorização também está presente no enfoque na ideia da luz e do amor da Nova Era. As pessoas que seguem caminhos espirituais baseados na terra afirmam frequentemente que celebram a escuridão da mesma forma que a luz, mas aí, e concordo plenamente com a autora, não é bem assim, pois na verdade elas ainda estão presas à glorificação indo-europeia do branco e da luz. A prova disso é que, no meio do Inverno, regozijamo-nos com o regresso da luz, mas não nos regozijamos da mesma forma com o regresso das trevas no Solstício de Verão. Tanto num momento como no outro o que festejamos é a luz.

Mas como poderíamos nós celebrar a escuridão? Dormindo mais, reaprendendo que o ciclo da vida se divide em três partes, nascimento, morte e regeneração, não em dois, a vida e a morte, o preto e o branco, a escuridão e a luz. Poderíamos começar por ter uma boa noite de sono nestes longos períodos de trevas invernosas, como pede o nosso corpo, que nos ensina que a escuridão é realmente tão importante quanto a luz.

Então esta celebração de Santa Luzia, a 13 de Dezembro, antiga data do Solstício de Inverno, com as fogueiras em Sua honra que se ateiam e depois também na longa noite da actual data, deveria ter como contrapartida uma celebração da escuridão no Solstício de Verão, pois é então que começa o Inverno, com os dias começando lentamente a ficarem mais curtos. Mas a verdade é que parece que nós continuamos a cultivar entusiasticamente esta nossa herança patriarcal de desequilíbrio na valorização da luz em relação à escuridão.

Fonte de inspiração: Carol P. Christ

https://feminismandreligion.com/2022/11/21/legacy-of-carol-p-christ-can-we-celebrate-the-dark-can-we-sleep/

 

sexta-feira, 13 de outubro de 2023

Senhora das Flores - uma das Faces da Deusa de Beltane

Sabias que uma das invocações da face da Deusa de Beltane é Senhora das Flores?

As flores são, como sabes, os órgãos sexuais das plantas, puras manifestações da beleza e sabedoria divinas e têm um grande poder, magia e capacidade de cura para nos oferecerem. Como nos diz a autora do livro A Magia das Flores, Tess Whitehurst, elas situam-se na fronteira entre o visível e o invisível, mais perto do reino etérico da energia pura e por isso permitem-nos ver o coração da verdade. Se nos sintonizarmos com as suas vibrações únicas, podemos melhorar muito a nossa saúde e vitalidade, poder e sucesso pessoal. Temos a aromaterapia e os florais de Bach, por exemplo, para o atestarem.

Na verdade elas tanto podem servir como terapeutas como como perfeitas e maravilhosas emissárias do poder da Deusa, por isso a Senhora das Flores é tão importante e será honrada na nossa Conferência da Deusa, entre 10 e 12 de Maio de 2024.

Sem dúvida que quanto mais reconhecemos este poder inefável das flores mais paz e harmonia e alma trazemos ao mundo.

Na nossa cultura existe uma rainha que realizou o célebre Milagre das Rosas. Foi Isabel de Aragão, mais conhecida como a Rainha Santa Isabel (1270-1336), mas parece que outras santas e rainhas realizaram o mesmo, inclusive uma sua tia na Hungria.

Seja como for, desta história existe uma parte que não parece ser vista nem interessar: a proibição do Rei, em relação à Rainha, de esta exercer a caridade. Esta foi a real causa do milagre: esconder do Rei, no caso Dinis, as suas acções em prol das pessoas pobres e esfomeadas, já que o que ela transformou em rosas foi o próprio pão que lhes mataria a fome naquele dia… Esta é a parte do milagre que não se conta, mas que deveria causar-nos indignação, é que, mesmo sendo Isabel de Aragão rainha, e por isso mesmo possuidora de riqueza própria, ela não podia fazer o que queria com o seu dinheiro…

As flores têm destas coisas, um lado sombra… Muitas vezes também são conectadas com futilidade, superficialidade, vaidade, ou desempoderamento… Invocando aspectos sombra do feminino que podem levar-nos até à própria história da Deusa celta Blodeuwedd, a Deusa feita de flores… um pouco como Eva foi feita para Adão… Só que Blodeuwedd se libertou ao apaixonar-se pelo eleito do seu coração… Foi entretanto amaldiçoada até as mulheres da Deusa se terem identificado com o seu destino e reconhecido o seu antigo poder quando se transformou numa coruja, ou mocho, qualquer uma delas muito sagrada da Deusa…

Em Portugal, existem templos cristãos à Senhora das Flores em, pelo menos, Travanca e em Oliveira de Azeméis.

 

 Imagens: Milagre das Rosas, pintor André Gonçalves, 1735

Deusa Blodeuwedd

 

quinta-feira, 10 de agosto de 2023

A Mulher Verde na nossa tradição

Quando vivemos em culturas cristãs e descobrimos a Deusa, é normal numa primeira fase voltarmo-nos para a iconografia que fez parte do cenário onde nascemos e crescemos para encontrarmos na imagem de Maria vestígios da Deusa antiga que Ela suplantou. A Senhora da Conceição é nessa fase a que mais nos fascina por exibir ainda normalmente os símbolos pagãos da serpente e do crescente lunar. Mas, por norma, rapidamente nos cansamos dessas imagens monótonas da Senhora, basicamente indiferenciáveis, sem atributos físicos femininos, depois que as Senhoras do Leite e do Ó começaram a ofender sensibilidades e a serem relegadas para sacristias e museus. Se procurarmos pela Senhora dos Verdes, por exemplo, e depois pela Senhora de outra qualquer invocação, as imagens são basicamente iguais ou muito semelhantes no seu manto sobre a cabeça encimada por uma coroa de prata, e longo vestido, de tons claros, atado na cintura.

As Senhoras emudeceram e paralisaram ou esconderam a Deusa antiga; a sua postura e indumentária não revelam mais os seus atributos nem qualidades, suas e do seu povo e terra que protegem e abençoam.

Porém, se traduzirmos para o inglês, língua em que gostamos de ler as sagas das antigas deusas da cultura céltica ou nórdica, e observarmos essa iconografia cada vez mais e mais abundante, graças à inspiração que fornecem ao talento de tantas e tantos artistas actuais, aí o caso muda de figura. A Senhora dos verdes transforma-se na Green Lady, ou Green Woman,  e a Senhora dos Caminhos surge-nos nada mais nada menos do que como Elen of the Track Ways, a Deusa hasteada, das renas e cervídeos e das linhas de energia da terra, do bosque selvagem e profundo.  

Ela é uma Deusa de Beltane e a meu ver e sentir, como refiro no meu livro A Deusa do Jardim das Hespérides, é Ela que Camões exalta no seu famoso vilancete:



Se Helena apartar

do campo seus olhos,

nascerão abrolhos.


A verdura amena,

gados que pasceis,

sabei que a deveis

aos olhos d' Helena.

Os ventos serena,

faz flores d' abrolhos

o ar de seus olhos.

Faz serras floridas,

faz claras as fontes...

Se isto faz nos montes,

que fará nas vidas?


Trá-las suspendidas,

como ervas em molhos,

na luz de seus olhos.

Os corações prende

com graça inumana;

de cada pestana

uma alma lhe pende.

Amor se lhe rende

e, posto em giolhos,

pasma nos seus olhos.

O poeta só pode estar a falar duma Deusa, duma Green Lady, duma Senhora dos Verdes, com o poder de comandar ventos e de criar verdura e flores no campo. Essa antiga Deusa pagã, que o povo ainda deveria lembrar e cultuar antes da razia inquisitorial do séc. XVI, teria outros títulos, como o de Senhora dos Campos e das Flores, e despertava amores como é próprio duma Deusa, sobretudo da fertilidade da terra de Beltane.

Sugiro então que observemos a iconografia pagã actual de Elen of the Track Ways, a Green Woman, ou Green Lady, para melhor sentirmos a energia duma Nossa Senhora dos Verdes, que tem ermidas e capelas, que às vezes coexistem com ou substituíram as da Senhora dos Caminhos, e outras vezes estão em lugares de grande antiguidade e importância arqueológica como o Monte Aljão, em Gouveia, ou aquele que será porventura o mais interessante entre nós, na zona de Portimão, com uma capela hoje em dia em ruinas na Herdade do Morgado de Reguengo, à Ribeira da Senhora do Verde. Na Wikipédia fala-se dum antigo culto pagão, depois romanizado, e que na origem, diz-se, poderia ser de origem oriental:


“A zona onde se situa a igreja foi ocupada pelo menos desde a pré-história, estando situada a Norte da localidade de Alcalar, onde se situam vários monumentos megalíticos. Imediatamente a Norte da igreja foram encontradas duas bases de colunas do período romano, num sítio arqueológico que foi depois destruído. Estas colunas foram descobertas pela Sociedade Arqueológica da Figueira numa pesquisa em Dezembro de 1900, tendo encontrado igualmente várias partes de uma lápide com molduras e outros vestígios, que poderiam ter demonstrado a existência de uma grande estrutura romana naquele local. A denominação de Senhora do Verde, pouco usual dentro da religião cristã, parece apontar uma entidade feminina, dedicada à água e à fertilidade agrícola, cujo culto poderia ter tido origem oriental, e que poderia remontar ao período dos monumentos de Alcalar…”

Mas Alcalar não é tão celta pelo menos quanto o monumento funerário semelhante de New Grange, na Irlanda, localizado no Vale do River Boyne (enquanto que a Portimão vai desaguar a Ribeira de Boina)?!. Então teríamos se calhar ainda ali vestígios do culto a uma outra Deusa celta, para além de Boina/Bovinda/Brígida, que os cristãos designaram por Nossa Senhora dos Verdes, mas lá mais para o Norte é a Green Woman, ou Green Lady, ou Elen of the Track Ways, dos caminhos das renas e outros cervídeos, das linhas de energia da terra…


Luiza Frazão


Imagens Google, retiradas de:

1. Site Câmara Municipal de Mangualde

2. https://espinho-net.blogs.sapo.pt

3. https://www.paganmusic.co.uk/the-green-album/

4. Wikipédia, igreja da Herdade do Morgado do Reguengo, Portimão

5. https://fineartamerica.com/featured/elen-of-the-trackways-yuri-leitch.html

6. https://www.thequirkycelts.co.uk/shop/pictures/wall-plaques/green-spirit-green-woman-plaque/


Para ler sobre a Senhora dos Verdes de Portimão:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Igreja_de_Nossa_Senhora_do_Verde

Conferência da Deusa Portugal 2026 Honrando Cale das Águas – Útero Sagrado da Criação

  A quarta edição da Conferência da Deusa Portugal realizou-se entre 8 e 10 de Maio, desta vez dedicada à Mãe das Águas. Por essa razão esco...