sábado, 17 de fevereiro de 2018

LIVRO A DEUSA DO JARDIM DAS HESPÉRIDES - 3.ª EDIÇÃO, EDITORA ZÉFIRO

Cale é a Deusa tutelar do nosso território, cujo nome, Portugal, deriva do Seu próprio nome. Ela é igualmente Calaica, Cailícia ou Beira, Anciã e Donzela, Senhora do Tempo, Guardiã dos Mistérios da Vida e da Morte. Nos nossos mitos e narrativas populares, Cale é lembrada como a Velha, muito velha, que se transforma numa cabaça, cuja forma evoca as antigas representações da Deusa; mas também como Dona Marinha, a Mulher-sereia; como a Pastorinha, como Iria-Brígida, Britiande, Senhora das Águas de Cura, da Poesia, do Fogo da Forja, como a Senhora da Oliveira, como Dona Chama; como a Senhora do Ó, a Senhora do Leite, a Senhora da Boa Hora, a Senhora do Monte, do Fetal, da Fonte, a Ninfa das Águas e dos Bosques. 
Ela é a Moura Encantada, Ofiusa, a Cobra-moura, e é Hespéria, Ibéria, a Senhora do Almurtão. A Sua dimensão é o Jardim das Hespérides, um paraíso de sororidade, onde o círculo das Nove Irmãs do Poente guarda as maçãs de ouro da sabedoria e nos dispensa os dons da imortalidade.
A Deusa está viva no Jardim das Hespérides, viva na nossa paisagem, nos Seus lugares de poder. A Sua cabeça talhada na pedra, como em S. Romão, na Serra da Estrela, em Sortelha ou em Idanha-a-Nova, inunda a terra da Sua presença, cada vez mais e mais notada e sentida neste momento em que por todo o lado se celebra o ressurgimento da Deusa na consciência da humanidade. O Seu corpo é suave e curvilíneo, como os montes, o Seu ventre, com as suas caves uterinas, ou os Seus seios quando se erguem aos pares. Águas uterinas escorrem das límpidas fontes e nascentes, lugares de Ninfas, onde a Senhora se manifesta por vezes em breves epifanias.
Ela está viva, cada vez mais viva, no coração das mulheres e dos homens, que por todo o lado e afinal desde sempre a vêm celebrando, o coração agradecido e reverente, aberto a receber mais e mais da graça da Sua beleza, do Seu amor e inspiração.
 Neste livro apresento o resultado da ,minha investigação de vários anos na tradição da Deusa no nosso território, trabalho esse de que resultou a criação duma Roda do Ano de Cale. Aqui a ficamos a conhecer com a energia própria de cada momento e as correspondentes faces de Cale; com as Hespérides, os animais totémicos, as árvores sagradas, lugares de poder e as tradições com que celebramos cada uma das oito festividades que marcam o ano da Deusa.

Testemunhos:


"Voltei a pegar no livro da Luiza Frazão que me chegou ontem, A Deusa do Jardim das Hespérides...e estou a dar-me conta comovida de um trabalho muito sério e aplicado de uma mulher estudiosa e dedicada à causa da Deusa que nele faz uma abordagem muito conscienciosa e alargada da nossa história (não contada) e de toda esta ânsia que temos de nos reencontrarmos com a nossa Memória ancestral e sentir esta imperiosa necessidade da volta da Deusa Mãe. Como é reconfortante reencontrar e saber dos lugares de origem do Culto e da tradição da Mãe na nossa terra em que a Mulher era soberana e senhora de si. Em que a mulher era Sacerdotisa, e sobretudo Mulher inteira!
Ah como é sensível acordar para as nossas memórias mais recônditas...e como eu me lembro delas...como tenho saudades de um tempo assim... e como sonhei revivê-lo na pele... Obrigada Luiza Frazão por me ajudar a reviver esse sonho que tanto desejamos que se torne realidade para todas nós! Este livro é do interesse de todas e sinto que a Luiza não só colocou nele muito de si como tem a marca de uma grande honestidade e empenho! Estou muito contente por si...por os nossos caminhos se terem tocado e haver uma mulher séria como a Luiza que levou tanto a sério a Deusa...”


Rosa Leonor Pedro, autora do blogue Mulheres & Deusas e do livro com o mesmo nome (entre outros sobre o sagrado feminino).



Sempre me questionava sobre a falta de informações dos cultos da Deusa em Portugal, muitas bênçãos pelo seu trabalho de garimpo e divulgação, seu livro é fantástico, amei!

Mirella Faur, iniciadora do movimento da espiritualidade feminina em Brasília, com os rituais públicos dos plenilúnios, as celebrações da Roda do Ano, os grupos de estudos e a realização de ritos de passagem. É autora dos livros “O Anuário da Grande Mãe, Rituais práticos para celebrar a Deusa”, “O legado da Deusa. Ritos de passagem para mulheres” e “Mistérios nórdicos. Mitos. Runas. Magias. Rituais”, bem como de diversos artigos em publicações nacionais e estrangeiras.



O livro "A Deusa do Jardim das Hespérides, de Luiza Frazão, é um esforço imenso e bem sucedido, porque também de investimento pessoal e auto-descoberta, da aplicação de uma "metodologia" - desenvolvida por Kathy Jones no Templo da Deusa de Avalon, em Glastonbury - ao território português, lugar da Deusa Cale, Gaia, a Anciã...

Entre a torrente de informação fascinante que a autora vai desvelando em pistas, que depois poderão por nós ser aprofundadas consoante o sentido - emocional, geográfico, de saber, de memórias - que elas nos façam. Destaco aqui algumas.
O sentido que me fez saber que a Praia das Maçãs, com vista para o Monte da Lua (de Cynthia), lugar da minha infância e juventude e que muito me atrai, é lugar da Cale da Água, Senhora do Mar, festa de Litha, Solistício de Verão...  Também pude enquadrar o meu fascínio pelos cultos paleo-hispânicos, que havia estudado outrora na faculdade numa cadeira, algo obscura, leccionada pelo professor Cardim Ribeiro, e que, não por acaso, está à frente do Museu de Odrinhas, um museu maravilhoso, entre Sintra e a Ericeira, com muita informação a explorar a quem se quiser dedicar a estes temas, e que publicou alguns artigos sobre os cultos paleo-hispânicos, nomeadamente sobre o Templo à Lua, Sol e Mar, justamente no promontório que liga a Praia das Maçãs à Praia Grande.
Depois outras informações me assolaparam, como o culto a Sra. do Monte, que remete para um lugar onde vivi durante três anos (no bairro da Graça, em Lisboa). É um lugar antiquíssimo, num dos pontos mais altos da cidade (há quem diga que é a melhor vista de Lisboa com o Tejo - Tétis ! - lá ao fundo) e onde já existiria algum tipo de culto que D. Afonso Henriques logo aquando da conquista da cidade fez questão de suplantar, mandando erguer uma capelinha e consagrando-a como lugar de
culto cristão. Nessa capela consagrada à Sra. do Monte existe a famosa cadeira de S. Gens, na qual as grávidas se vão sentar para obter a promessa de um bom parto.

Também a referência à Sra. do Leite me soou muito. As imagens não abundam em território nacional tal como as da Sra. do Ó. Motivo entre nós reprimido pela Inquisição, a representação da Sra. do Leite encontra-se em alguma pintura italiana do final da Idade Média e do Renascimento, em cujo território sobreviveu melhor, apesar da Contra-Reforma. No entanto, há um quadro muito delicado do século XVI do Mestre da Lourinhã que representa a Sra. do Leite, mas cuja proveniência, provavelmente uma igreja ou convento, se perdeu no tempo (é possível vê-la agora na Fundação Medeiros e Almeida, em Lisboa).

Igualmente a informação de o Caminho de Santiago, que já fiz algumas vezes enquanto peregrina, ser afinal uma reminiscência do Caminho da Deusa... E pensar que ele, o caminho iniciático, só está verdadeiramente completo se a peregrina, depois de chegar a Santiago, fizer mais 80km até ao cabo Finisterra, onde se deve desfazer do "velho", daquilo que já se não necessita, qual Ophiusa trocando de pele!...

 É, então, um livro realmente importante, sobretudo também por uma certa dimensão política, como o seu engajamento numa corrente feminista ecologista, a mais progressista actualmente e de maior alcance, que advoga o regresso à Grande Mãe, respeitando todos os seres. Frazão faz referência à importância dessas "pequenas grandes coisas" que são as sementes, mencionando o activismo de Vandana Shiva (Declaração da Liberdade das Sementes) ou referindo a Teoria da Resposta da Terra ou Teoria de Gaia, de James Lovelock.
Mas o mais fundamental do gesto de Luiza Frazão, na senda do gesto inicial de Rosa Leonor Pedro, é efectivamente o resgate da Deusa em contexto nacional, desvendando mitos, história(s) e lendas, recorrendo também à etimologia dos lugares, às Canções de Amigo e até à obra seminal de Luís de Camões. É que se são importantes as cosmologias e tradições indígenas das Américas que nos têm visitado, é fundamental resgatar e respeitar as cosmologias e tradições do nosso território e que (quase) se perderam no tempo, bem como a (intrínseca) ligação da mulher à Deusa, que não é ninguém senão ela própria, e à Mãe Terra. Isso mesmo - a procura das tradições da Deusa em território nacional - já havia aconselhado a Xamã e Mulher Medicina, de origem chilena e equatoriana, Mamma Andrea Atekokolli.

Por isso, "A Deusa do Jardim das Hespérides" de Luiza Frazão é de leitura obrigatória a todas as mulheres que estão na senda da Deusa e de si próprias, em Tendas Vermelhas (e Azuis) por esse Portugal a fora, segura que estou que é uma "semente" que muito em breve dará os seus frutos.

Inês Beleza Barreiros (investigadora)


No momento em que comecei a ler esta obra, fui invadida por uma ressonância íntima que bem conheço. E, à medida que fui avançando na leitura, confirmou-se o sentimento e a emoção de estar perante o resultado de uma investigação a camadas profundas, não  desveladas, da história da humanidade terrestre na qual o paradigma central do patriarcado, vigente há milénios, infligiu feridas profundas, nomeadamente pela masculinização, sob o ponto de vista cultural, social e religioso, dos traços e indícios que o Sagrado Feminino imprimiu à sua passagem.

A obra de Luiza Frazão é um muito importante livro de referências sob este ponto de vista e restitui-nos um sentido de integralidade e de equilíbrio tão necessários no contexto histórico em que vivemos. Na verdade, por todos os lados afloram à superfície da vida ecos de uma outra ordem de valores, uma espécie de re-acordar de memórias ocultas no fundo de psiques mutiladas que, ante a decadência profunda a  que a vida na Terra chegou, buscam com determinação alternativas mais saudáveis para o futuro. E a autora buscou na “memorabilia” natural, nos poucos registos na pedra, nas tradições muitas vezes distorcidas e na mitologia,  a recuperação de um sentido novo para a vida, assente no amor pelo natural e descodificação dos seus códigos secretos, na solidariedade, dádiva e compaixão, na paz e na abundância, na celebração da vida e da morte como processo transformacional. As Hespérides do Jardim Dourado que ela localiza no nosso território, representam, cada uma, aspectos fundamentais do legado feminino, englobados na Deusa Cale (palavra que habita, segundo a autora, o étimo de Portugal) a qual a esta parte do mundo preside.

“A Deusa no Jardim das Hespérides” é um acto imbuído de sinceridade e de busca determinada e paciente de uma verdade maior, até hoje oculta da nossa consciência e, sobretudo, da formatação que nos tem sido abusivamente imposta desde o dia em que nascemos. Um acto criativo e estimulante, restaurador do feminino ancestral e do ritual na vida humana, um acto que merece toda a nossa gratidão!





Livro lindíssimo. Muito bem escrito e a pesquisa realizada é fantástica. Amei.

Carmen Eloah Boff (Académica, Brasil)


"(...) pois foi aqui que na procura do significado da Lady of the Lake, numa sequência de sincronicidades, me demonstraram o seu livro.
Adorei e estou de verdade surpreendida pela riqueza que alberga!
Recomendo vivamente, pois para mim foi uma grande surpresa conhecer esta riqueza que albergamos, mesmo aqui, em casa. Parabéns, Luiza Frazão, por este magnifico trabalho de investigação."


Ana Maciel 

"Um dia num ritual trance dance, apareceu-me a palavra Cale. O som entoava com tanta força na minha cabeça que no fim perguntei ao facilitador que sentido é que tinha aquela palavra pois para mim não tinha qualquer significado. Ele aconselhou-me a procurar na net… tinha muito a descobrir… Descobri a Deusa Kali. Mas era Cale… por acaso, como tudo na vida, descobri o livro “A Deusa do Jardim das Hespérides” de Luiza Frazão.

Quando o comecei a ler, não consegui parar mais… foi surpreendente descobrir tanta coisa sobre as Deusas da nossa terra, tudo aqui tão perto, tudo tão presente e eu ainda não tinha reparado...
Agradeço de alma a oportunidade de adquirir este conhecimento através deste livro. Sem dúvida que mudou a minha visão sobre as Mulheres, a Mãe-Natureza, as Deusas… " 

Celeste Fernandes



"Já acabei o teu precioso livro. Gostei mesmo muito. É para mim um "abc" da Deusa. Um "abc" da Deusa (s) do nosso território. Excelente documento apela a mais conhecimento e à viagem para veneração dos locais de culto da Deusa Mãe.

 Sinto vontade de ir novamente a terras de Idanha, Penha Garcia, Monsanto, Sra do Almurtão , Zona que me chama e onde já estive várias vezes de férias; Alandroal, Redinha , zona de Foz Côa e, tantas outras regiões, que se não fosses tu e o teu modo exaustivo de pesquisar, e a tua inspirada  escrita , eu não teria acesso à informação preciosa que divulgas."

Elizabete Santos

 

"…já recebi o seu livro... Ontem só consegui ler umas páginas dispersas mas fiquei logo com muito interesse... Hoje já tive oportunidade de o iniciar e quero partilhar consigo que estou a amar descobrir o tanto que há da Deusa manifesto em nós. Sempre senti este apelo, desde pequena que nenhuma outra figura do catolicismo me interessava a não ser a mãe "Fátima", li, vi filmes e sempre me fascinaram as histórias sobre Avalon... A certa altura da minha vida deixei toda essa magia de parte para ser a Dra. que a sociedade impunha, hoje sinto que a cada passo regresso à origem... E sei tão pouco... Fico-lhe muito grata pelo trabalho que fez, pela capacidade de por em papel tanto da nossa história perdida... Nem sei bem que palavras usar... Porque ainda não percebi bem o que a minha alma insiste em levar-me a encontrar... Apenas consigo perceber que o livro que escreveu e a informação que transmite parece que preenche espaços do meu Ser... E sentir isso lindo. E só posso manifestar uma enorme gratidão para contigo. Grata 🌿 Que a sua vida seja também próspera em bênçãos."


Raquel Queiroz



"Gostava de partilhar algo consigo: conforme vou lendo o seu livro, vou acordando memórias de miúda, do tempo em que, sentada à lareira nas noites de Inverno, ouvia as mulheres da família a contarem histórias antigas.

Ora estou a dar-me conta de uma enorme lista de lendas e ou lugares de "Mouras Encantadas". A avó Aurora e mais tarde a minha mãe, contavam inúmeras histórias, não como "história ou lenda", mas sim crentes de que aquilo tinha mesmo acontecido. Estes relatos sobre as Mouras terminavam invariavelmente a demonizá-las...apareciam sempre uns tais "bois ou touros pretos, que infalivelmente representavam os demónios para quem elas, as Mouras, trabalhavam.

o mais interessante é que, aqui perto de Aveiro, no lugar onde nasci (Verdemilho), que me lembre, existiam uns 3 a 4 lugares marcados como sendo de Mouras, isto numa aldeia minúscula!

interessante também o facto da Deusa Aurora estar relacionada com os partos.... a minha Avó Aurora era a parteira do lugar, e Aurora não era o nome dela. Rejeitou o nome de batismo e assumiu o de Aurora, que a madrinha insistia em lhe chamar."

 Orquídea Branco



“já vou a meio e a adorar, que maravilha de livro !”

Simone Sousa
 

 
      Pode ser encomendado através do site da própria editora, Zéfiro, na Wook ou em qualquer livraria do país

sexta-feira, 14 de julho de 2017

CONHECER E INVOCAR AS NOVE HESPÉRIDES DO JARDIM DOURADO

É hora de invocarmos as energias sagradas da nossa terra, especialmente nos Seus mais conhecidos lugares de poder, como o Monte da Santa Eufémia, em Sintra; o Monte de Santa Quitéria, em Felgueiras, Viseu; a Serra da Ossa, o Gerês, a Praia das Maçãs ou qualquer lugar onde se cultuem ou haja ermidas a Santa Quitéria, Santa Marinha, Santa Eufémia ou Santa Vitória, que são as mais conhecidas... Em cima numa bela representação de 1997, de António Mendanha, na igreja matriz de Forjães, com Marinha ao centro porque a igreja Lhe é dedicada.


A energia do nosso Jardim das Hespérides, uma dimensão equivalente à de Avalon, é sustida, tal como acontece nessa Ilha Encantada, por Nove Irmãs, por nove princípios femininos, profundamente relacionados com a paisagem, as árvores, os animais, o tempo atmosférico. Elas mudam de forma, têm a capacidade de se metamorfosearem, e a sua zoofania mais corrente é a Gralha de bico vermelho. As nossas antepassadas e os nossos antepassados  conheciam-nas bem e cultuaram-nas especialmente em montes, como o de Santa Eufémia em Sintra, o de Santa Quitéria em Felgueiras e vários outros. Águas sagradas de cura brotaram nos lugares onde, de acordo com a lenda, as suas cabeças cortadas no martírio de que invariavelmente padeceram, na Sua forma humana, vieram a cair. Em vários lugares são lembradas como pertencendo a um grupo de Nove.


GRUPOS DE NOVE MUSAS

Dos mitos e tradições herdados da cultura celta faz parte a crença na existência de grupos significativos de nove mulheres míticas. Morgana, na Ilha de Avalon, com as suas oito irmãs, forma um desses grupos, que na verdade, para investigadores como Stuart McHardy, podemos encontrar em variadíssimas culturas do mundo inteiro, com a certeza de se tratar duma instituição que terá tido um papel fundamental no desenvolvimento da própria civilização humana. Montes e outros lugares sagrados com nove Musas foram famosos na Grécia antiga, como é o caso do Monte Pierão, com as Piérides; da Fonte Hélicon, com as Heliconíades; do Monte Parnaso, de onde eram originárias as Parnásides; do Monte Aónia, das Aónidas; duma Fonte descoberta por Pégaso, junto da qual viviam as Pegásides; do Monte Citéron, das Citérides; do Monte Pimpla, onde viviam as Pimpleídes; do Rio Ilissos, com as suas Ilisíades; da Fonte Castália, das Castálides; da Téspia onde habitavam as Tespíades e, obviamente da Hespéria, nome pelo qual foi designada no passado a Península Ibérica, no centro da qual existe um maciço ainda hoje designado por Hespérico, e onde viviam e prosperavam as Hespérides!

Vários lugares sagrados com nove Musas existem entre nós, como o Monte de Santa Eufémia, em Sintra, uma das portas de entrada nessa serra sagrada, antigo lugar de celebração do Imbolc, onde existe uma fonte de cura, hoje em dia seca e sem préstimo. Numa inscrição no azulejo da parede lateral da ermida cristã, aí edificada sobre as ruínas dum templo romano, somos informadas/os de que Eufémia era uma de nove irmãs. E de repente faz-se luz: trata-se dum monte sagrado com Nove Musas! O mesmo ocorre no Monte de Santa Quitéria, designado no passado por Monte Pombeiro, em Felgueiras, Braga, onde segundo nos diz a lenda, esta entidade sofreu martírio e onde também nos é lembrado que Ela era uma de Nove. 

Em Meca, concelho de Alenquer, sucede a mesma coisa, tal como no Gerês, ou na Serra da Ossa, no Alentejo. Na verdade, sempre que temos uma capela dedicada a uma das Nove Irmãs, sabemos que estamos num lugar sagrado semelhante àqueles onde na Grécia antiga, por exemplo, se ia receber a inspiração e a sabedoria dispensadas pelas Musas, cujo número era de nove.

AS NOVE HESPÉRIDES

Foi na mesma altura em que estava completamente absorvida e fascinada pela leitura de The Quest for the Nine Maidens (A Busca das Nove Donzelas), cujo autor já referi, que chegou até mim um texto de Victor Adrião onde é focado o grupo constituído por Santa Eufémia e as Suas oito irmãs: Liberata, Germana, Eufémia, Marciana, Genivera (ou Genebra), Marinha, Bazília, Vitória e Quitéria. Nos Seus nomes notam-se influências greco-romanas, ou até fenícias (caso de Quitéria), resultado do contacto desses povos com a nossa cultura, de origem Celta. A marca dessa celticidade ainda prevalece no nome Genivera, que ecoa o da Rainha na lenda arturiana.

Afirma Kathy Jones, em Priestess of Avalon, Priestess of the Goddess (Sacerdotisa de Avalon, Sacerdotisa da Deusa), que “[Essas Mulheres divinas] são o princípio da sabedoria, que se manifesta na forma feminina para benefício de toda a humanidade. Elas são assim as protetoras da sabedoria, que nos acenam através da vibração e do som, ajudando-nos a vencer resistências no nosso caminho espiritual e trazendo-nos experiências da realidade inefável ou da graça divina. Elas ajudam ainda quem está a morrer a atravessar as portas da morte. São conhecidas no Budismo como emanações da mente iluminada, que mantém o propósito de procurar a iluminação não apenas para si própria mas para benefício do todo”. 

À semelhança das Nove Morgens de Avalon, e de muitas outras, as Nove Hespérides abarcam todas as qualidades da Deusa, em todos os Seus aspetos, de Donzela e Anciã, de Criadora e Destruidora, de Senhora da Vida e de Senhora da Morte. Símbolos máximos da liberdade feminina, como as Dakinis orientais, inspiradoras guardiãs do conhecimento, como as Nove Musas gregas, elas dominam as sete artes liberais (Lógica, Gramática, Retórica, Aritmética, Música, Geometria, Astronomia/Astrologia). Na história da Deusa, Elas são famosas pela Sua força e talento, pela Sua beleza e sensualidade, pelos Seus dotes para a música, o canto e a dança, pelas Suas capacidades de profecia, pelo domínio das artes da cura e pela possibilidade de se metamorfosearem, de mudarem de forma, e de influírem nas condições do tempo atmosférico, proezas de que podemos encontrar eco nas nossas histórias antigas.
Esta instituição de nove mulheres, de nove sacerdotisas principais, poderá ter sido a antecessora dos conventos e dos mosteiros de religiosas e de religiosos. Viviam de preferência em lugares altaneiros, em montes sagrados, como as várias capelas dedicadas a cada uma delas, existentes ainda hoje em dia, nos dão testemunho, tal como várias lendas envolvendo certos montes e serranias. À volta destas mulheres de saber, fundaram-se vilas e cidades. Elas foram criadoras de civilização, dispensadoras do conhecimento disponível, da ciência, das artes e dos ofícios, de cura e profecia, servindo a Deusa no Seu Templo, vistas e sentidas muitas delas como a própria incorporação da Deusa na sua forma humana, tal como algumas famosas Dakinis, as Bailarinas do Céu do Tantra tibetano, ficaram conhecidas, por terem vivido como mulheres com existência historicamente comprovada.

Em meditação, elas dançavam à beira do mar. Quando quis saber o nome desse lugar,disseram-ne “Praia das Maçãs”… demorei uns segundos a entender que o clássico tema céltico das “maçãs” estava no topónimo.

LIBERATA é a Hespéride do Samhain, relacionada com a Morte, a Transformação e o Renascimento. Ela é a Grande Parteira, que ajuda a nascer para esta e para a dimensão pós-morte. Na antiga Roma, havia uma Deusa com um nome muito semelhante. Ela ajuda-nos a libertar da antiga forma, a deixar ir o que está velho e sem préstimo, Ela ensina-nos tudo sobre o desapego e, tal como a romana Liberia, Ela sabe tudo sobre como cuidar de quem está às portas da Morte. Ela é a Senhora do Teixo e a Moura Anciã. As Suas criaturas são o Sapo, o Corvo e a Coruja. Como tempo atmosférico, Ela é o raio e o trovão que por vezes nos apavoram e que acompanham as tempestades que trazem águas da dissolução, que ajudam a desfazer a antiga forma. A fase da lua a que Liberata está associada é a Lua Balsâmica, que acontece três dias depois da Lua Minguante. Ela convida à transformação, ao desapego daquilo que não é bom para nós.

GERMANA é a Hespéride do Solstício do Inverno (Yule). É Ela a mais velha das nove Irmãs. Muito secreta e reservada porque está além da forma. Embora a tradição nos diga que Ela era uma Santa como as Suas oito irmãs, é difícil encontrarmos um lugar de culto a Ela dedicado. Ela conhece os segredos das estrelas e do cosmos, É a Senhora do Pinheiro, a Moura Tecedeira, a Senhora da Roca – Aquela que tece os fios do destino. As Suas criaturas são a Águia e o Abutre. Como tempo atmosférico, Ela é o gelo e a geada que tudo cobre no inverno limpando as terras de parasitas. Ela é Sabedoria, Visão e Clarividência. Ela é também a Lua Negra, que acontece três dias antes do primeiro dia da Lua Nova, como um tempo de pousio, de recolhimento e de sonho, de transição entre a morte do que completou os seus dias e o crescimento do novo.
EUFÉMIA, A Hespéride do Imbolc, é a mais nova das Irmãs. Senhora da eloquência, protectora da garganta, da voz e da comunicação (ver “eufemismo”). Senhora da Oliveira e Senhora da Luz. É cultuada em montes sagrados, como na Serra de Sintra, no Monte de Santa Eufémia, guardiã da entrada na sacralidade da Serra da Lua. Senhora das Águas de cura, como as da fonte que aí se encontra. Ela é a Moura Menina. Os Seus animais totémicos são a Cegonha, o Cisne e o Lobo. Ela é a Lua Nova dos novos começos, sua é a pureza, a inocência, a alegria, a confiança e a excitação de estar viva/o neste mundo. Como tempo atmosférico, ela é a neve que em fevereiro cai nos lugares mais altos.

MARCIANA é a Irmã de Ostara, o Equinócio da Primavera. Ela mantém o Fogo da Primavera, da Fertilidade, da Kundalini, da Coragem e do Entusiasmo e é a Senhora da Aveleira e a Cobra Moura. Marciana relaciona-se com a energia do Urso, do Lince, do Gineto, da Lebre e do Coelho, do pica-pau verde, das Salamandras e dos Dragões do Fogo. Como fase da lua, Ela é a Lua Crescente, que simboliza os novos rebentos, aquela que precisamente traz atividade e crescimento. Como tempo atmosférico, Ela é a luz do sol, que em março começa a ser cada dia mais intensa.

GENIVERA ou GENEBRA é a Hespéride de Beltane que nos ensina todas as artes do Amor e do Prazer e é conhecida precisamente entre nós como a Senhora dos Prazeres. A Sua graça e beleza são enfatizadas quando é chamada Senhora das Flores, e enquanto Deusa da Fertilidade, também é invocada entre nós como a Senhora dos Campos e como Maia, a Rainha de Maio. Ela é a Moura Amante (vulgo “Sedutora”), a que aparece a pentear os cabelos com pente e espelho de ouro. É também a Senhora da Soberania da terra, ensinando-nos tudo sobre limites e fronteiras nos nossos relacionamentos. Genivera está conectada com os Cavalos e as Éguas, as Andorinhas e os bandos de pequenos pássaros que se movem no céu como se fossem um só corpo. Como tempo atmosférico, Ela é a nuvem e Seus são os nevoeiros que especialmente na zona Oeste, favorecem o crescimento das maçãs, o seu tom avermelhado e a sua especial doçura. Como fase da Lua, Ela é a Lua Convexa, que acontece três dias após a Lua Crescente e que convida à expressão através dos sentimentos.
MARINHA é a Hespéride de Litha, o Solstício de Verão, a Hespéride da Água, a Mulher Marinha, a Sereia das nossas origens, e a Moura das Fontes e a Senhora do Lago ou da Lagoa da nossa tradição. Como tempo atmosférico, Ela é a chuva e a sua árvore é o Sabugueiro. Como fase da Lua, é a Lua Cheia, que nos fala de plenitude e de realização, quando as nossas emoções estão no auge e estamos mais ligadas ao inconsciente e todas as potencialidades da nossa natureza humana estão mais ativadas. Marinha é a Senhora do Sabugueiro, as suas criaturas são as Baleias, os Peixes, as Ondinas, as Lontras, as Ninfas, as Sereias, os Dragões das Águas, bem como a Garça.

BAZÍLIA é a Hespéride de Lammas, que nos ajuda a sentir criativas e criadoras e a cuidarmos com autoridade e responsabilidade das nossas criações. Ela é a Moura Mãe e Parteira. Como fase da lua, Bazília é a Lua Disseminante, que acontece três dias após a Lua Cheia. Ela simboliza o fruto maduro, pronto a ser colhido, e convida-nos à autoavaliação, tendo em conta a nossa colheita. Como tempo atmosférico, Ela é o calor intenso do verão. A Sua árvore é o Freixo, uma das mais importantes da nossa tradição e em algumas culturas considerada como a própria Árvore do Mundo. As suas criaturas são os animais que nos ajudam a ter riqueza, como as ovelhas, as vacas e as cabras domésticas, mas também a Corça Branca, e a Poupa é sua ave. 

VITÓRIA é a Hespéride de Mabon, o Equinócio de Outono, é a Moura guardiã dos tesouros do interior da Terra, as pedras e os metais preciosos que já foram tão abundantes no nosso território, e o Seu culto permaneceu entre nós como Senhora da Vitória ou Santa Vitória. Ela é a Senhora da Azinheira (Quercus Ilex), com relação com todas as árvores da família Quercus, como o Sobreiro e o Carvalho. Como fase da Lua, Vitória é a Lua Minguante, que simboliza a última colheita, antes que a morte sobrevenha, criando espaço para a nova vida. Ela convida-nos ao recolhimento, que nos ajuda a prepararmo-nos para aceitar a mudança. Como tempo atmosférico, Vitória é o Vento, sempre tão abundante entre nós, que faz cair as folhas no outono, que contribui para a polinização, que modela o relevo e nos dá energia. Vitória é a Rainha protectora do território e é a própria terra. Como Protectora, ela lembra-nos que numa guerra não existem vencedores nem vencedoras, e que a paz se constrói quando nos asseguramos de que toda a gente tem o suficiente para viver, e não apenas nós, que os interesses de todas as partes estão assegurados. Ela traz-nos coragem, generosidade, desapego, altruísmo, enfoque no bem maior, na criação de sustentabilidade. Ela ajuda-nos a compreender que a verdadeira segurança resulta de confiarmos no processo da vida e de acreditarmos que existem recursos suficientes para todas/os e que querer apoderar-se de mais do que aquilo de que necessitamos é apenas um sintoma de imaturidade.
As Suas criaturas são o Javali, o Furão e o Texugo, os Elfos e os Gnomos e os Dragões da Terra, bem como o Gaio.
QUITÉRIA, cujo nome A relaciona com um dos títulos da Deusa fenícia Astarte (Kythere, Kyteria ou Kuteria, a Vermelha) ou com a Deusa grega Afrodite, nascida na ilha de Cytherea, é a Hespéride do Centro, Senhora da Beleza, da doçura e das delícias do nosso Jardim Dourado. Na sua festa no Monte de Santa Quitéria, que já se designou por Pombeiro, lembrando-nos que a Pomba é precisamente uma das Suas criaturas, as mulheres oferecem-lhe cestos cheios de flores e usam a cor vermelha em grande profusão. Ela é a guardiã dos mistérios das Mouras Encantadas do nosso território.  Sem dúvida que a energia da Hespéride Quitéria reforça no nosso território a dimensão amorosa, erótica, prazenteira, calorosa e sensual, que é central num paraíso, num Jardim como o das Hespérides, um lugar de delícias. Os Seus dons de cura são igualmente imensos como nos atesta uma instituição que subsistiu em Meca, perto de Alenquer, até há relativamente poucos anos, talvez até meados do século XX, conhecida como Irmandade de Santa Quitéria. Os membros dessa instituição iam anualmente de terra em terra, distribuindo, a troco de donativos, pequenos pães sagrados, que se guardava religiosamente em casa, por terem o poder de proteger os cães contra a raiva.
Quitéria é a Senhora da Macieira e suas criaturas são a Pomba e o Cão.

Fonte: A Deusa do Jardim das Hespérides, Luiza Frazão






Conferência da Deusa Portugal 2026 Honrando Cale das Águas – Útero Sagrado da Criação

  A quarta edição da Conferência da Deusa Portugal realizou-se entre 8 e 10 de Maio, desta vez dedicada à Mãe das Águas. Por essa razão esco...