A Páscoa era uma celebração de que gostava muito na minha infância na aldeia. Era Primavera e havia férias, e como o padre e todo o seu séquito ia de casa em casa, havia que lavar e caiar tudo na véspera. Era ainda preciso ir ao campo apanhar as flores amarelas, chamadas Maias, que apesar do nome, são das primeiras a abrir no início da primavera. Espalhavam-se pelo chão à entrada da casa e assim o padre sabia que aí seria devidamente recebido. Nas minhas recordações mais antigas, ele vinha de carroça, com as gaiolas para as galinhas e coelhos que receberia, bem como sacos para os cereais. Era assim que se pagava anualmente pelo seu serviço espiritual à comunidade. Depois, o pagamento passou a ser feito em notas deixadas dentro dum envelope em cima da mesa da sala. Esta era coberta com a toalha mais bonita, enfeitada com uma jarra de flores e tacinhas de vidro ou porcelana para as amêndoas e os confeitos, que evocavam os ovos de Eostre e eram no fundo o que dava o sabor à festa.
Mas a Páscoa, como sabemos, tem uma origem muito arcaica,
relacionada com a alternância das estações. O que se celebra é o renascimento
da natureza após a morte do Inverno.
Partilho este texto que alguém partilhou comigo e cuja
autoria desconheço:
"A Páscoa que Existia Antes da Cruz: O Despertar da
Deusa Viva
Muito antes de se tornar a festa da crucificação e
ressurreição de um Cristo, a Páscoa era, em diversas culturas antigas, uma
celebração Solar-Lunar profundamente ligada à fertilidade, ao Equinócio da
Primavera e ao triunfo da Vida sobre o Inverno.
Era o instante em que a Terra Mãe despertava novamente,
cobrindo-se de flores, fazendo os animais renascerem, os rios correrem mais
vivos e o corpo da mulher celebrar a sua própria fertilidade.
Nesse tempo sagrado, várias divindades femininas
personificavam a essência da Páscoa:
OSTARA / ĒOSTRE
Deusa germânica da Aurora e da Primavera.
Símbolos: ovos coloridos, coelhos, flores e a primeira luz
da manhã.
→ O nome “Easter”, em inglês, deriva diretamente do seu
nome.
→ Simboliza o regresso da luz, o equilíbrio perfeito e o
início de um novo ciclo.
🌟 ISHTAR / INANNA
Deusa suméria-babilónica do amor, da fertilidade, da paixão
e da transformação.
→ Era celebrada o seu regresso do submundo após três dias de
morte — uma história que ecoa fortemente a ideia de ressurreição.
→ Os seus rituais de primavera eram plenos de energia
criadora e fertilidade.
🌹 ISIS
A Grande Mãe egípcia, senhora da magia, da cura e da
ressurreição.
→ Reconstrói e devolve a vida a Osíris, dando à luz Hórus, o
Sol renascido.
→ Representa a morte e o renascimento como um acto supremo
de amor e de poder mágico.
AINE
Deusa celta irlandesa do Sol, da fertilidade e da
abundância.
→ Honrada no limiar da primavera e do verão.
→ Ligada à terra fértil, à sexualidade sagrada e ao
rejuvenescimento dos campos.
Na mitologia grega, Deméter, deusa da colheita, vê a filha
Perséfone ser levada para o submundo.
→ O seu regresso traz de volta a primavera e a vida à
Terra.
→ Esta narrativa é uma bela alegoria ao ciclo do inverno
(morte) e da primavera (ressurreição).
Deusas nórdicas do amor, do nascimento e da renovação
cíclica.
→ Freyja percorria os céus numa carruagem puxada por gatos,
simbolizando a energia lunar e feminina.
→ Eram veneradas nas festas da primavera e da vitalidade da
natureza.
Na tradição esotérica e gnóstica, Madalena incorpora o
sagrado feminino do Cristo Solar.
→ É ela a primeira testemunha da Ressurreição.
→ Em muitas correntes ocultas, representa a Deusa eterna que
permanece, a Consciência que sempre renasce, a Rosa Mística que nunca se
extingue.
→ Funciona como ponte viva entre o feminino ancestral e a
era de luz que se anuncia.
Ishtar, Isis e Ostara estão intimamente ligadas à verdadeira raiz da Páscoa, mas não são as únicas.
Elas fazem parte de uma vasta teia de manifestações da Deusa
da Ressurreição e do Equilíbrio, presente em quase todas as culturas antigas —
até que o patriarcado institucional transformasse o rito sagrado de vida e
renovação num símbolo de sofrimento e dor."
Então, celebremos a Páscoa
antes da cruz, o Equinócio da Primavera! Honremos a Deusa que floresce, que
ressuscita, que dança e que ama sem limites, a Terra que se levanta, o útero
vibrante da Grande Criadora e a memória ancestral que regressa, primavera após
primavera.


