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sexta-feira, 3 de abril de 2026

Páscoa - uma celebração antiga da ressurreição da vida

 

A Páscoa era uma celebração de que gostava muito na minha infância na aldeia. Era Primavera e havia férias, e como o padre e todo o seu séquito ia de casa em casa, havia que lavar e caiar tudo na véspera. Era ainda preciso ir ao campo apanhar as flores amarelas, chamadas Maias, que apesar do nome, são das primeiras a abrir no início da primavera. Espalhavam-se pelo chão à entrada da casa e assim o padre sabia que aí seria devidamente recebido. Nas minhas recordações mais antigas, ele vinha de carroça, com as gaiolas para as galinhas e coelhos que receberia, bem como sacos para os cereais. Era assim que se pagava anualmente pelo seu serviço espiritual à comunidade. Depois, o pagamento passou a ser feito em notas deixadas dentro dum envelope em cima da mesa da sala. Esta era coberta com a toalha mais bonita, enfeitada com uma jarra de flores e tacinhas de vidro ou porcelana para as amêndoas e os confeitos, que evocavam os ovos de Eostre e eram no fundo o que dava o sabor à festa.

Mas a Páscoa, como sabemos, tem uma origem muito arcaica, relacionada com a alternância das estações. O que se celebra é o renascimento da natureza após a morte do Inverno.

Partilho este texto que alguém partilhou comigo e cuja autoria desconheço:

"A Páscoa que Existia Antes da Cruz: O Despertar da Deusa Viva

Muito antes de se tornar a festa da crucificação e ressurreição de um Cristo, a Páscoa era, em diversas culturas antigas, uma celebração Solar-Lunar profundamente ligada à fertilidade, ao Equinócio da Primavera e ao triunfo da Vida sobre o Inverno.

Era o instante em que a Terra Mãe despertava novamente, cobrindo-se de flores, fazendo os animais renascerem, os rios correrem mais vivos e o corpo da mulher celebrar a sua própria fertilidade.

Nesse tempo sagrado, várias divindades femininas personificavam a essência da Páscoa:


 OSTARA / ĒOSTRE 

Deusa germânica da Aurora e da Primavera. 

Símbolos: ovos coloridos, coelhos, flores e a primeira luz da manhã. 

→ O nome “Easter”, em inglês, deriva diretamente do seu nome. 

→ Simboliza o regresso da luz, o equilíbrio perfeito e o início de um novo ciclo.

🌟 ISHTAR / INANNA 

Deusa suméria-babilónica do amor, da fertilidade, da paixão e da transformação. 

→ Era celebrada o seu regresso do submundo após três dias de morte — uma história que ecoa fortemente a ideia de ressurreição. 

→ Os seus rituais de primavera eram plenos de energia criadora e fertilidade.

🌹 ISIS 

A Grande Mãe egípcia, senhora da magia, da cura e da ressurreição. 

→ Reconstrói e devolve a vida a Osíris, dando à luz Hórus, o Sol renascido. 

→ Representa a morte e o renascimento como um acto supremo de amor e de poder mágico.

 AINE 

Deusa celta irlandesa do Sol, da fertilidade e da abundância. 

→ Honrada no limiar da primavera e do verão. 

→ Ligada à terra fértil, à sexualidade sagrada e ao rejuvenescimento dos campos.

 DEMÉTER / PERSEFONE 

Na mitologia grega, Deméter, deusa da colheita, vê a filha Perséfone ser levada para o submundo. 

→ O seu regresso traz de volta a primavera e a vida à Terra. 

→ Esta narrativa é uma bela alegoria ao ciclo do inverno (morte) e da primavera (ressurreição).

 FRIGGA / FREYJA 

Deusas nórdicas do amor, do nascimento e da renovação cíclica. 

→ Freyja percorria os céus numa carruagem puxada por gatos, simbolizando a energia lunar e feminina. 

→ Eram veneradas nas festas da primavera e da vitalidade da natureza.

 E A PRÓPRIA MARIA MADALENA... 

Na tradição esotérica e gnóstica, Madalena incorpora o sagrado feminino do Cristo Solar. 

→ É ela a primeira testemunha da Ressurreição. 

→ Em muitas correntes ocultas, representa a Deusa eterna que permanece, a Consciência que sempre renasce, a Rosa Mística que nunca se extingue. 

→ Funciona como ponte viva entre o feminino ancestral e a era de luz que se anuncia.


Ishtar, Isis e Ostara estão intimamente ligadas à verdadeira raiz da Páscoa, mas não são as únicas. 

Elas fazem parte de uma vasta teia de manifestações da Deusa da Ressurreição e do Equilíbrio, presente em quase todas as culturas antigas — até que o patriarcado institucional transformasse o rito sagrado de vida e renovação num símbolo de sofrimento e dor."

Então, celebremos a Páscoa antes da cruz, o Equinócio da Primavera! Honremos a Deusa que floresce, que ressuscita, que dança e que ama sem limites, a Terra que se levanta, o útero vibrante da Grande Criadora e a memória ancestral que regressa, primavera após primavera.

 Luiza Frazão

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Deusas das Águas - Maria

 

 Série especialmente dedicada às nossas Deusas das Águas, tema da Conferência da Deusa Portugal 2026

Deusa Maria

Esta encantadora Virgem vestida de azul, de colar de pérolas ao peito, era a antiga Deusa do Mar pagã, Marian, Miriam, Mariamne (“cordeiro do mar”), Myrrhine, Myrtea, Myrrha, Maria ou Marina, matrona de poetas e amantes e mãe orgulhosa do Arqueiro do Amor.Robert Graves, A Deusa Branca

Na Invocação do seu Sermão de Santo António aos Peixes, o famoso pregador português do séc. XVII, o Padre António Vieira, invoca Maria como Domina Maris (Senhora do Mar). Em outras ocasiões, ele usa imagens marítimas para falar de Maria, dando-Lhe também o título de Stella Maris (Estrela do Mar) e desenvolvendo a ideia de que Ela é guia e protecção dos navegantes no meio das tempestades, “Estrela que governa o mar desta vida”; “Senhora das ondas e dos ventos”; “Porto seguro no mar das tribulações”. Com o mar simbolizando o mundo instável, a vida humana em perigo, a salvação como porto seguro. Maria é então Aquela que orienta, a Senhora que domina os elementos, o Porto seguro onde a alma encontra abrigo, ou seja, Aquela que protege a grande travessia, que é a própria Vida.

Para a investigadora e autora espanhola Marta Blanco Fernández, Maria faz parte dum imaginário espiritual mais amplo, ligado ao feminino sagrado que foi silenciado ou marginalizado pelas religiões patriarcais, e a sua presença contínua nas tradições populares e devocionais indica que o sagrado feminino sobrevive e se reconfigura através dela. Ela diz de Maria: “Não é um vaso, mas o oceano primitivo que contém o sol; porque se Maria é a mãe de Deus, quem é Maria?”

Na nossa roda do ano, Maria, tão cultuada entre nós, neste território dominado pelo mar, como Mãe de Misericórdia, protectora, Senhora do Mar de todas as Emoções, está em honra no Solstício de Verão, o festival de Litha, festival das Águas, como Senhora da Compaixão que tudo abarca e protege; do Amor Incondicional; da Cura, das águas de cura, como as das lágrimas, que dissolvem as nossas toxinas emocionais.

 ©Luiza Frazão

sábado, 7 de fevereiro de 2026

Deusas das Águas - Nábia

 Série especialmente dedicada às nossas Deusas das Águas, tema da Conferência da Deusa Portugal 2026

Seus lugares de culto, rios associados, oferendas e devoção

Nábia é uma das mais antigas e amplamente veneradas deusas do mundo galaico-lusitano, profundamente associada às águas vivas, às passagens e ao equilíbrio entre a comunidade humana e a paisagem sagrada. O Seu culto não se centra em mitos narrados, mas em lugares concretos, onde a água brota, corre e liga territórios.

Nábia é, acima de tudo, uma deusa da água em movimento. Preside a fontes, nascentes, rios e confluências, mas também aos espaços liminares que esses lugares representam: margens, pontes, vales e caminhos. Não é uma divindade distante nem celeste; é imanente, presente no território e no quotidiano. A sua acção não é violenta nem abrupta, mas contínua e reguladora, como o curso de um rio.

Espiritualmente, Nábia é uma deusa liminar: acompanha transições, mudanças de ciclo, viagens e decisões importantes. Onde algo se transforma — da nascente ao rio, da margem ao atravessar — aí está Nábia.

Lugares especiais do Seu culto

O culto a Nábia está bem atestado por inscrições votivas encontradas sobretudo no Noroeste da Península Ibérica, abrangendo a Galiza, o Norte de Portugal (Minho, Trás-os-Montes) e zonas do actual Centro de Portugal. Surge frequentemente com epítetos locais (como Nabia Corona, Nabia Elaesurra), o que indica que o seu culto se adaptava a cada lugar específico. A Fonte do Ídolo em Braga parece ter sido dedicada a Nábia.

Essas dedicatórias encontram-se, regra geral, perto de: fontes e nascentes, rios e vales férteis, antigos caminhos e zonas de travessia. Isto mostra que Nábia era venerada no próprio espaço natural, e não num templo isolado da paisagem.


Rios associados ao Seu nome

A importância de Nábia é tal que o seu nome ficou gravado na própria hidrografia da Península. Entre os rios cujo nome é geralmente associado à sua raiz destacam-se:

  • Rio Navia (Galiza), um dos exemplos mais claros e frequentemente citados
  • Rio Nabão (Tomar), cuja etimologia é tradicionalmente ligada à deusa
  • Possivelmente também rios como o Neiva, no Norte de Portugal, conservam ecos antigos do seu nome
  • Rio Nava, Terras de Bouro, Gerês

Estes rios não são apenas acidentes geográficos: são testemunhos vivos da antiga sacralização da água e da presença contínua de Nábia no território. O rio Nava que corre no Gerês por terras de Bouro passa por um importante santuário, o da Senhora da Abadia, onde, numa pequena gruta repleta de água, se encontra uma imagem da Senhora. Diz-se que foi a primeira, que esse foi o lugar que deu origem à construção da imponente abadia que hoje se vê. A água é do rio Nava, e uma pergunta surge: Será esse um dos primitivos santuários ou altares a Nábia, que teve tão intenso culto naquela região?

Prova de que o seu culto desceu mais a sul é a Travessa da Horta Návia, que encontramos em Alcântara (“ponte” em árabe), em Lisboa. As águas do Nabão conduzem a Sua energia até ao Tejo, com o Zêzere servindo de intermediário.


Devoção a Nábia

O que se pedia e pede a Nábia

Nábia não é invocada para a conquista ou para a ruptura, mas para que o fluxo da vida se mantenha harmonioso. É uma deusa de continuidade, ligação e cuidado.

A ela se pedia e pede proteção da comunidade, fertilidade da terra, dos seres e das águas, saúde e equilíbrio, boa passagem em momentos de mudança ou viagem, ou travessia, quer seja física quer seja simbólica, ou ao iniciarmos um novo ciclo, na nossa vida ou na vida da comunidade.

Nábia é uma das Deusas aquáticas terapêuticas, conforme atestam as propriedades da água da nascente do Nabão, no Agroal, concelho de Ourém. Desde tempos imemoriais até ao presente, esta água é considerada sagrada e procurada para cura, para restabelecimento do fluxo vital. 

Actos de devoção, como gestos simbólicos junto da água – tocar a água, beber dela, lavar mãos ou rosto – eram e são praticados como a mesma intenção de reconhecimento e de sagrada conexão.

Oferendas a Nábia

As oferendas e votos dirigidos a Nábia são simples e essenciais, refletindo a natureza do Seu culto. A oferenda era, e continua a ser, um gesto de alinhamento com o fluxo da água, de reconhecimento da sua força liminar, e de gratidão pela vida que ela sustenta.


A Nábia se oferecia alimentos, como leite – símbolo de pureza e renovação da vida; pão e cereais – associados à fertilidade da terra e à nutrição da comunidade; frutas ou produtos locais – frutos silvestres, possivelmente mel ou sementes, entregues junto de rios ou nascentes. Também objectos votivos como coroas ou guirlandas de flores ou de ramos. Pequenos utensílios de uso quotidiano ou simbólico – como lâminas de bronze, peças de cerâmica ou contas – eram colocados nas margens ou em fontes sagradas, assim como pedras ou seixos especiais eram depositados nos leitos de rios ou nas nascentes, marcando presença e intenção ritual.

©Luiza Frazão
 

Fontes:

José Leite de Vasconcelos, Etnografia Portuguesa

Ramón Menéndez Pidal e estudos sobre toponímia galaicaParte superior do formulário

Luís Graça, Religião pré-romana em Portugal

 

Alberto Gutiérrez, estudos sobre hidronímia galaico-lusitana

Parte inferior do formulário

Miranda Green, Celtic Goddesses (1995)

John T. Koch, Celtic Culture: A Historical Encyclopedia (2006)

Francisco Calvo, artigos sobre a religiosidade indígena lusitana

 Imagens:

1. Estátua de Nábia, de Carlos García, no município de San Sadurniño, na província da Corunha, Galiza (Espanha)

2. Altar a Nábia junto do rio Nava? Gerês, Terras de Bouro, Senhora da Abadia

3. Rio Tejo, Ribeira de Santarém

4. Rio Nabáo, Tomar

 

sexta-feira, 24 de outubro de 2025

Oferendas aos Seres Míticos e o Pacto Ancestral com a Terra

por Jason Hine

(tradução e adaptação em português)

 O pão, o leite e o pacto esquecido

Muitas pessoas ainda hoje oferecem pão e leite aos duendes e fadas.
Mas afinal — qual é o propósito verdadeiro dessa antiga prática?
Quem fez, em primeiro lugar, esse pacto com o povo das colinas?
E como podemos, em tempos de crise ecológica, alimentar o que nos alimenta — com a intenção de compostar o Antropoceno?

“É fácil deixar um pouco de leite para as fadas,
mas difícil oferecer algo que verdadeiramente regenere o mundo.”

As oferendas como elos de memória

Algumas tradições dizem que certas fadas são ancestrais trans-humanizados — espíritos de antigas linhagens humanas.
Se isso é verdade, por que se interessariam por alimentos que os caçadores-coletores nem podiam digerir?

A resposta pode estar nas memórias.
As oferendas não servem apenas como alimento simbólico, mas como elos de lembrança — fios vivos que reconectam os humanos à vasta rede de inteligências da Terra e ao motor vital das bio-regiões.

“O que realmente se oferece não é a substância,
mas as origens lembradas
a história viva e cantada que refaz a teia do mundo.”

Conhecer as origens é o verdadeiro ritual

O valor da oferenda está em conhecer a sua proveniência:
Quem cultivou o grão?
De onde veio o leite?
Que emoções acompanharam quem colheu, amassou e preparou?
Quando essa história é esquecida, ocorre perda de alma e desligamento do corpo da Terra.

“A história lembrada é a oferenda.”

Ao relembrar os elos físicos com a bio-região, refazemos o mundo.
Voltamos a fazer parte da comunidade mais-que-humana — composta de plantas, rios, ventos, pedras, animais e espíritos do lugar.

Oferenda x Sacrifício

As culturas de sacrifício surgem quando a memória se rompe.
São tentativas desesperadas de reparar o esquecimento.
Sacrifícios aparecem quando as coisas já deram errado.

Durante a Idade do Bronze, povos isolados em terras devastadas por desmatamento e erosão tentaram, através de sacrifícios, restaurar a abundância — mas geralmente tarde demais.
Grande parte do “paganismo” posterior foi, talvez, uma tentativa de corrigir o antigo erro ecológico.

Com o Cristianismo, surgiu o “sacrifício final” — o meta-sacrifício que encerraria todos os outros.
Mas ao substituir o ritual físico e ecológico por um sacrifício simbólico e interno, o Cristianismo rompeu os últimos fios de ligação com as tradições de abundância da Terra.
Essa ruptura abriu caminho tanto para as culturas industriais quanto para o racionalismo cartesiano.

 

De que as divindades realmente se alimentam

Hoje, muitas oferendas são apenas gestos vazios — sacrifícios disfarçados.
Mas os seres míticos não se alimentam da matéria, e sim da história, do amor e da memória contidos no gesto.

Elas e eles alimentam-se:

  • do cordão de conchas feito à mão,
  • do leite de um animal cuidado com ternura,
  • da canção de louvor composta no coração,
  • do pão assado com conhecimento da sua origem.

“Os deuses alimentam-se da proveniência —
o fio vivo da memória ancestral
que se estende antes da última era do gelo.”

Ao oferecer algo feito à mão e de origem conhecida, nossas mãos se unem às mãos de milhares de gerações anteriores.
Deixamos de ser “apenas eu” e nos tornamos uma extensão da vontade maior da Terra, um coro de carvalhos, montanhas, corvos, salmões e flores.

Oferecer é relembrar

Pergunta-te:
De onde veio este pão?
Quem cultivou o centeio?
Como esta abóbora viajou da América do Sul até à tua mesa?
Como o trigo saiu do vale do Eufrates e chegou à tua terra?

Essas são as canções que alimentam as divindades.
Canta as histórias das plantas, das mãos que as plantaram, das tradições que as sustentam.
É disso que as divindades se alimentam.

Regenerar a Terra: a maior oferenda

Hoje, não é possível falar em magia, bruxaria, paganismo ou espiritualidade ecológica sem regeneração real da Terra.
O fio dourado da memória ancestral não pode ser refeito enquanto o solo estiver esquecido.

Por isso, a maior oferenda que podemos fazer é:
🌳 reflorestar,
💧 restaurar rios e nascentes,
🌻 plantar ervas e árvores,
🏡 cuidar de pequenos pedaços de terra,
🌆 criar redes e comunidades regenerativas, mesmo nas cidades.

“A regeneração da Terra é a oferenda mais bela e urgente.”

Quando unida a canções, danças e objetos de origem conhecida, essa prática torna-se um presente sagrado aos seres míticos — e ao planeta que nos sustenta.

🌍 Refazendo o pacto

Há milhares de anos, quando deixamos de caçar e passamos a cultivar, fizemos um pacto com os seres da Terra.
As oferendas às fadas são ecos distantes desse pacto.

Mas quando rompemos essa relação — com a industrialização e o esquecimento da alma — o pacto foi quebrado.
Agora, é hora de negociar um novo acordo.

Hoje, não basta oferecer leite, incenso ou whisky.
Precisamos de restaurar a Terra até ao ponto ecológico do último pacto —
antes da devastação e da perda da memória.

Isso requer a criação de ecocívios (cidadãs e cidadãos conscientes), vilas-florestas, economias regenerativas e bio-regiões restauradas.
Mesmo o cuidado com um pequeno jardim urbano já é um começo — uma oferenda viva.

Conclusão: o novo pacto com a Terra

Através da regeneração do solo, da restauração da água e das oferendas de origem conhecida, começamos o “retecimento” da nossa relação com todos os seres
plantas, animais, rios, montanhas e espíritos.

E assim, um novo pacto é feito com os seres mais-que-humanos da Terra.
Um pacto de memória, gratidão e regeneração.

“Ao relembrar, retecemos.
Ao regenerar, reencantamos.
E ao oferecer com consciência,
alimentamos novamente o corpo da Terra.”

Jason Hine

(Escritor, ecologista, contador de histórias e facilitador de rituais; um dos principais nomes ligados ao movimento de ecologia animista e mitopoética no Reino Unido;

Ex-professor e cofundador da Feral College, uma escola alternativa dedicada a estudos de ecologia mítica, rewilding espiritual e práticas de reconexão com a terra;

Autor de vários ensaios que circulam em blogs, redes sociais (como Facebook) e em coletâneas independentes de ecologia e espiritualidade.

O tema central dele é o “reenraizamento ecológico e espiritual” através das “ofertas de origem lembrada” (remembered origins offerings), que liga práticas pagãs antigas à regeneração ecológica contemporânea — um conceito que ele chama de “composting the Anthropocene” (compostar o Antropoceno).

 

 



quinta-feira, 31 de julho de 2025

Lammas, Evocando as Águas Amnióticas da Grande Mãe

Águas de Lammas, Águas da Vida

Lammas, Lughnasadh, é o festival celta das Primeiras Colheitas

Celebra-se a 1 de Agosto e nele se honra a Deusa no Seu aspecto de Mãe, de Grande Criadora, de Senhora do Grão, dos Cereais, da Nutrição e da Abundância, a Senhora do Leite, a Senhora da Hora (do Parto), da terra cultivada, diferente da terra selvagem que celebramos em Mabon. A Grande Mãe que "trabalha na estrutura energética da terra e da comunidade, carregando no Seu  vasto útero os ovos dourados do futuro"*

Nesta altura celebramos a nossa Deusa Mãe Caria, cujo nome se aproxima do da Deusa Mãe romana Ceres, e da Deusa cretense Ker bem como da palavra cereal; celebramos também Broénia, na origem do nome que damos ao pão de milho, a broa - lembrando que o milho painço já existia na Europa antes das viagens de exploração intercontinentais. Neste festival, em honra igualmente está Deméter e todas as Deusas Mães, incluindo Isis e a hindu Lalita, ou Metragirta, da Roda da Ibéria, Asherat e muitas outras. 

Na Roda de Avalon também é celebrada Madron, ou Modron, Deusa Mãe muito arcaica, diz-se que desde antes do grande dilúvio. Ela está particularmente associada às águas da fertilidade e da criação, o líquido amniótico onde nos criámos no ventre das nossas mães. Conhecido em muitas tradições espirituais como “águas sagradas”, “oceano primordial”, ou “mar interior”, Madron ainda tem o Seu poço sagrado na Cornualha.

Essas águas, tão apetecidas e decisivas para a nossa sobrevivência e a de toda a vida, especialmente nos meses abrasadores do verão, esse líquido tão precioso onde a vida se gera e se cria, é também sagrado e especialmente dedicado à fertilidade do útero feminino em fontes como a de São Pedro de Rates Localização, situada nas proximidades da Igreja Românica do mesmo lugar, uma freguesia da Póvoa de Varzim, no distrito de Braga. Esta é uma fonte tradicionalmente associada a rituais populares relacionados com a fertilidade, quer para casais que desejam ter filhos, quer para a fecundidade da terra. Costa que durante séculos, pessoas vinham à fonte pedir bênçãos, beber a água ou realizar rituais, numa mistura de tradições pagãs e cristãs ou pagãs cristianizadas.

Existem em Portugal vários outros exemplos de águas, ou de fonte associadas à fertilidade: incluindo a Fonte Santa de Santa Maria da Feira; a Fonte da Senhora da Piedade (Região Centro); Fontes termais e santuários de águas milagrosas, como Vila Real, Caldas da Rainha, ou Chaves onde as águas quentes e minerais eram usadas para tratamentos, inclusive ligados à fertilidade. Ainda na Cidade da Senhora da Hora (por certo uma referência a um anseio frequente nas mulheres de terem um bom parto), aí a Fonte das Sete Bicas está associada à fertilidade feminina. Mulheres grávidas ou que desejavam engravidar, bem como agricultores preocupados com a reprodução dos animais, recorriam a esses locais. Os rituais incluíam beber a água, lavar-se nela, ou mesmo amarrar fitas coloridas nas árvores próximas como símbolo de pedidos e agradecimentos.

Mas são inúmeros no nosso território os lugares onde águas de nascentes, de tanques e pias, em lugares de milagre e devoção, carregam este poder sagrado de propiciar a criação de nova vida, sendo vistas e sentidas como as águas amnióticas da Grande Mãe. Basta sentir a aura dum lugar, como a Pia da Ovelha, rodeada de símbolos vulvares nas paredes de pedra do maciço calcário estremenho, na companhia duma Sheela na Gig, ou Baubo, exibindo o seu portal interdimensional para percebermos a sua ligação com o parto, a fertilidade e a Grande Mãe. Junto dessa formação natural, a famosa Pia da Ovelha, onde um pingo constante de água assegura o seu perpétuo abastecimento, e não temos dúvidas de que aquele é antes de mais o precioso líquido amniótico do útero da Grande Criadora, ali albergado na lapa-útero da serra. A alguns metros, a capelinha da Memória consagrada à Senhora da Consolação, foi erigida sobre uma “pocinha” de água, que a Senhora do Fetal que ali apareceu, diz-se, no séc. XVII, fez aparecer para matar a sede da Pastorinha a quem antes tinha matado a fome, enchendo de pão a arca da casa da sua família, muito pobre, na aldeia. A “pocinha” de água foi obstruída, mas nem por isso essa Senhora da Consolação deixa de ser procurada para cura, como se pode ver pelas ofertas deixadas no parapeito da janelinha da capela fechada, tal como a porta.


E de súbito, quando estudamos a Mãe nas sociedades celtas, vista muitas vezes como um colectivo de três, as Matres, ou Matronae, ou as Matrubos, como as nossas antepassadas e antepassados as conheciam também por aqui, percebemos ser aquele um poderoso santuário da Grande Mãe, que o povo celta ligava tanto à Criação e Sustentação da Vida, e por isso também à Cura, como à sua regeneração, ou seja, à Morte.  E assim no mesmo lugar onde temos a vulva e a água uterina da Grande Criadora, temos um painel mostrando o milagre do pão que a Generosa Senhora da Abundância providenciou à Pastorinha a quem apareceu, e, logo ao lado, o cemitério da mesma Senhora do Fetal, lembrando que ela acolhe tando no nascimento nesta dimensão quanto no da alma na outra. De resto a aldeia venera três Senhoras - a dos Remédios, a da Consolação e a do Fetal. Sobre a história deste importante santuário, já muito sagrado e importante antes da cristandade, existe abundante literatura para quem quiser aprofundar o tema como de facto merece. Ver por exemplo Memórias do Reguengo do Fetal, Vol. I e II, Joaquim Ribeiro Gomes Calado

Em Lammas celebramos também as águas vermelhas (águas férreas) e brancas do Sangue e do Leite da Vida da Magna Mater. Por isso o ocre vermelho era usado nos rituais funerários para invocar o poder do Seu sangue regenerador, e entre nós Ela é também invocada como a Senhora do Leite, para além de a Senhora do Ó, a Senhora prestes a dar à luz, e a Senhora do Parto – memória de sociedades que valorizavam acima de tudo o milagre da Vida (ver Riane Eisler, O Cálice e a Espada)

 *Kathy Jones, Sacerdotisa de Avalon, Sacerdotisa da Deusa (obra em fase de edição e publicação em Portugal, pela Associação Cultural Jardim das Hespérides)

 Imagem 1 - Senhora da Abadia, Terras de Bouro

Imagem 2 - Serra da Estrela, Seia, zona da Cabeça da Velha

Imagem 3 - Altar de Lammas

Imagem 4 - Matres, Matronae ou Matrubos (representação da autora)

Imagem 5 - Maciço calcário estremenho

©Luiza Frazão


terça-feira, 24 de junho de 2025

Reflexões a poucos meses de uma autodedicação à Deusa como Sua Sacerdotisa

 

Atualmente sinto-me  conectada espiritualmente com o quê?

Com a natureza, com o Sol, com a s estrelas, com o ar, com a terra, com o fogo,

com o espírito, com o éter, com os sonhos  com as plantas, com as ervas com as

águas, com os ancestrais e a minha ancestralidade, com a curandeira, com a mulher

erveira e tamboreira, com os ritmos circadianos, com as estações e as festividades

ao longo da roda do ano,  com a Deusa em todas as suas formas de expressão,

comunicação e manifestação, e por último mas não menos importante com os

arquétipos da Deusa e como ELA  se manifesta em mim neste meu momento atual.

Como imagino a minha prática como sacerdotisa?

Todas as hipóteses que vou elencar são prováveis, no entanto sei que uma ou duas

irão se manifestar mais forte: Celebrar rituais? Curar? Ensinar? Mediar entre

mundos? Acolher outras pessoas? Cuidar da Terra? Ainda estou em observação do

que flui mais autêntica e genuinamente no meu coração

Qual é o meu propósito mais profundo nesse caminho?

São vários, na verdade, servir, crescer, libertar-me das amarras, medos e grilhões

que me bloqueiam, relembrar-me e acima de tudo  Amar. Amar a tudo e ao todo! è

esse o caminho e o aprendizado

Que dons já vivem em mim e que desejo cultivar ainda mais?


Diria que a intuição tem aflorado bastante. A criatividade em diversas formas, a escuta atenta e empática não só das minhas emoções como do outro também. e a

parte do mistério, da magia que envolve todas as questões cerimoniais.

Para mim, tornar-me uma sacerdotisa é lembrar quem eu sou, uma filha da

Terra, do Céu e do Mistério. É um caminho de reconexão com o Sagrado

Feminino, com os ciclos naturais, com a minha intuição e com os dons que me

foram dados. Quero aprender a guiar e a curar, não por ego, mas para servir

algo maior do que eu — a vida, a alma coletiva, a ancestralidade. Sinto que ser

sacerdotisa é viver com propósito, com beleza e com verdade.

A minha intenção em tornar-me uma sacerdotisa é servir com o coração aberto,

conectando-me com o sagrado dentro de mim e ao meu redor. Quero ser ponte

entre o visível e o invisível, curar, ensinar e honrar os ciclos da vida, da Terra e

do Espírito. Comprometo-me a caminhar com verdade, integridade e amor,

escutando a voz do divino em tudo o que é!

Ana Isabel Teixeira Oliveira

quinta-feira, 14 de novembro de 2024

Caminhos das e dos Mortos - estruturas físicas e psíquicas

“Caminhos das e dos Mortos”, ou “Estradas dos Espíritos”, podem ser encontrados por toda a Europa. No Reino Unido, são conhecidos maioritariamente como corpse ways, o que traduzido à letra significa “caminhos dos cadáveres”, mas também são designados por “caminhos da igreja” – caminhos que, na época medieval, levavam quem morria até ao cemitério. Estes trilhos, porém, também possuem uma história secreta, outros atributos dos “espíritos”. Alguns estão supostamente assombrados; outros estão associados a um tipo particular de vidência.

A tradição das fadas da Irlanda fornece uma "geografia espiritual" viva - uma das últimas sobreviventes na Europa Ocidental - mas que possivelmente desaparecerá na próxima ou nas próximas gerações.

Nas antigas Américas, existem misteriosas "estradas" retas e calçadas. Estas não eram rotas para o tráfego normal do dia-a-dia, mas para os espíritos das pessoas mortas, para fantasmas extracorpóreos de xamãs e feiticeiros, e para propósitos mágicos.

No mundo pré-moderno, tanto quanto podemos detectar, havia estradas e trilhas comuns e quotidianas e havia outras rotas especiais que tinham atributos simbólicos, cerimoniais, espirituais ou mágicos - e às vezes todas essas propriedades combinadas.

Até mesmo o encontro e a separação de caminhos, o que descartamos como encruzilhadas ou cruzamentos, eram considerados locais importantes carregados de significado sobrenatural.

Mesmo onde esses caminhos, trilhas e estradas ainda estão em serviço, a sua função mudou e a maioria das pessoas que as usam agora nada sabe sobre o seu significado original.

Existem as trilhas oníricas (dreaming tracks) aborígenes australianas (também conhecidas como songlines, linhas de música), caminhos de fadas e outros caminhos espirituais de vários tipos, estradas de mortas/os, rituais misteriosos e caminhos cerimoniais nas Américas. Trata-se de infraestruturas lineares da Idade da Pedra, que podem muito bem ter sido vistas como estradas espirituais por quem as construiu e usou… Parece que terá existido uma arcaica geografia comum abrangendo os continentes asiático e europeu...

 In Fairy Paths and Spirit Roads: Exploring Otherworldly Routes in the Old and New Worlds, Paul Devereux

Em Portugal são conhecidos ainda por esta designação:

O Trilho do Caminho dos Mortos

Monção

O nome do trilho deve-se ao facto de, antes da construção das novas vias rodoviárias, os funerais, desde os lugares mais montanhosos até à igreja paroquial, se fazerem por este caminho. Os finados eram transportados em carros de bois, demorando horas até chegar à Igreja Paroquial. Além desta particularidade, podem-se encontrar, ao longo do percurso, vestígios das primeiras civilizações que assentaram nesta região, no 4º milénio A.C., mais especificamente a Mamoa do Cotinho, um monumento funerário coletivo e local de culto, onde eram depositados os mortos.

https://concelho.moncao.pt/pt/menu/858/trilho-do-caminho-dos-mortos.aspx

Fonte da imagem 2:

https://pt.wikiloc.com/trilhas-trekking/pr1-mnc-trilho-do-caminho-dos-mortos-21483247


Em Mafra, existe também ainda o Trilho dos Mortos (imagem 1)

Fonte da imagem: https://pt.wikiloc.com/trilhas-trekking/trilho-dos-mortos-e-vale-do-lizandro-31246833

 

segunda-feira, 21 de outubro de 2024

Despedida da Senhora do Verão e Acolhimento da Senhora do Inverno

 Tomar 20 de Outubro 2024

A celebração do dia 20 de Outubro, em Tomar, é sempre um momento alto na forma como vivo o meu ciclo anual. Este evento é o contraponto da celebração de 13 de Maio na Cova da Iria. Em ambos os momentos, IRIA, a Deusa do território, é invocada e celebrada - na sua forma de Rainha do Verão.

Ela também é Beira, a parte do nome composto Cale-Beira, ou Calaica-Beira, ou ainda Cailícia-Beira, Deusa Dupla, que por Beltane assume a forma jovem e é a nossa de Rainha do Verão, e no final de Outubro, quando o Samhain, o fim/princípio do ano se aproxima, assume a sua forma de Anciã Rainha do Inverno. Uma tradição celta muito muito antiga mas que se manteve viva na nossa tradição, quando foi assimilada pela igreja de Roma.

Participar nesta celebração, reinterpretando-a, ou ressignificando-a, e vivendo-a segundo a nossa visão, é uma experiência que amo e adoro desde há já alguns anos, primeiro sozinha, depois com a minha irmã Sacerdotisa Cristina Grumete, depois com outras irmãs e Sacerdotisas da Deusa do Jardim das Hespérides e outras pessoas que simplesmente se juntam ao grupo.

Conto a história desta Deusa Dupla celta e desta tradição num livro que teci com todo o material que investiguei da tradição portuguesa e que foi traduzido para Inglês e Francês.

Este ano, porque era domingo, havia um grande multidão e no meio dela, um casal que encontrámos já sobre a ponte chamou a minha atenção. Ton van der Kroon, um investigador holandês que vive em Tomar, com a sua mulher, Anne Wislez, podia ser confundido com o autor luso-americano Freddy Silva... Não era, mas... também ele é produtor de conteúdos em áreas afins... Foi delicioso o encontro que tivemos com este casal com quem descemos até ao sagrado Pego de Santa Iria, ex-libris da cidade de Tomar, tristemente engolido por um hotel que apagou a memória do antigo mosteiro construído por certo sobre um antigo templo da Deusa e por isso uma memória viva da ancestral Senhora da terra...

Os nossos caminhos de celebração, entretanto, divergiram para outras zonas mais íntimas e
significativas que, à nossa maneira, nos permitiram progredir desde a despedida de Uma ao acolhimento da Outra.

Realizámos a parte mais significativa da nossa celebração em contacto com a terra, não longe das águas do Nabão, agora um rio de morte e dissolução, depois de termos oferecido às suas águas pétalas de rosas vermelhas, como o sangue da vida, repleto de promessas de renovação, ouvindo o canto dos pássaros, sentindo no meio da verdura eterna, sobre uma camada de folhas e galhos em decomposição, a humidade trazida pelas chuvadas de Outono, aceitando a proposta de ir dentro, de ir fundo, honrando o túmulo/útero da Grande Mãe,  Senhora da Criação, da Manutenção e da Renovação da Vida. E fizemo-lo em sororidade e fraternidade,  sentindo o nosso coração bem mais aconchegado pelo sentido e significado e  profundidade que assim acrescentámos e com que enriquecemos a nossa experiência humana.

E mutuamente prometemos apoio e carinho na longa travessia do Inverno, seja ele atmosférico ou psíquico. Abençoada!

©Luiza Frazão


Obs. Versões inglesa e portuguesa deste livro à venda na Amazon.

Conferência da Deusa Portugal 2026 Honrando Cale das Águas – Útero Sagrado da Criação

  A quarta edição da Conferência da Deusa Portugal realizou-se entre 8 e 10 de Maio, desta vez dedicada à Mãe das Águas. Por essa razão esco...