Seus lugares de culto, rios associados, oferendas e devoção
Nábia é uma das mais antigas e amplamente veneradas deusas do mundo galaico-lusitano, profundamente associada às águas vivas, às passagens e ao equilíbrio entre a comunidade humana e a paisagem sagrada. O Seu culto não se centra em mitos narrados, mas em lugares concretos, onde a água brota, corre e liga territórios.Nábia é, acima de tudo, uma deusa da água em
movimento. Preside a fontes, nascentes, rios e confluências, mas também aos
espaços liminares que esses lugares representam: margens, pontes, vales e
caminhos. Não é uma divindade distante nem celeste; é imanente, presente
no território e no quotidiano. A sua acção não é violenta nem abrupta, mas
contínua e reguladora, como o curso de um rio.
Espiritualmente, Nábia é uma deusa liminar:
acompanha transições, mudanças de ciclo, viagens e decisões importantes. Onde
algo se transforma — da nascente ao rio, da margem ao atravessar — aí está
Nábia.
Lugares especiais do Seu culto
O culto a Nábia está bem atestado por inscrições votivas encontradas sobretudo no Noroeste da Península Ibérica, abrangendo a Galiza, o Norte de Portugal (Minho, Trás-os-Montes) e zonas do actual Centro de Portugal. Surge frequentemente com epítetos locais (como Nabia Corona, Nabia Elaesurra), o que indica que o seu culto se adaptava a cada lugar específico. A Fonte do Ídolo em Braga parece ter sido dedicada a Nábia.
Essas dedicatórias encontram-se, regra geral,
perto de: fontes e nascentes, rios e vales férteis, antigos caminhos e zonas de
travessia. Isto mostra que Nábia era venerada no próprio espaço natural,
e não num templo isolado da paisagem.
Rios associados ao Seu nome
A importância de Nábia é tal que o seu nome ficou
gravado na própria hidrografia da Península. Entre os rios cujo nome é
geralmente associado à sua raiz destacam-se:
- Rio Navia (Galiza), um dos exemplos mais claros e
frequentemente citados
- Rio Nabão (Tomar), cuja etimologia é tradicionalmente
ligada à deusa
- Possivelmente também rios como o Neiva, no Norte de Portugal,
conservam ecos antigos do seu nome
- Rio Nava, Terras de Bouro, Gerês
Estes rios não são apenas acidentes geográficos:
são testemunhos vivos da antiga sacralização da água e da presença
contínua de Nábia no território. O rio Nava que
corre no Gerês por terras de Bouro passa por um importante santuário, o da
Senhora da Abadia, onde, numa pequena gruta repleta de água, se encontra uma
imagem da Senhora. Diz-se que foi a primeira, que esse foi o lugar que deu
origem à construção da imponente abadia que hoje se vê. A água é do rio Nava, e
uma pergunta surge: Será esse um dos primitivos santuários ou altares a Nábia,
que teve tão intenso culto naquela região?
Prova de que o seu culto desceu mais a sul é a Travessa
da Horta Návia, que encontramos em Alcântara (“ponte” em árabe), em Lisboa.
Devoção a Nábia
O que se pedia
e pede a Nábia
Nábia não é invocada para a conquista ou para a
ruptura, mas para que o fluxo da vida se mantenha harmonioso. É uma deusa de
continuidade, ligação e cuidado.
A ela se pedia e pede proteção da comunidade,
fertilidade da terra, dos seres e das águas, saúde e equilíbrio, boa
passagem em momentos de mudança ou viagem, ou travessia, quer seja física
quer seja simbólica, ou ao iniciarmos um novo ciclo, na nossa vida ou
na vida da comunidade.
Nábia é uma das Deusas aquáticas terapêuticas,
conforme atestam as propriedades da água da nascente do Nabão, no Agroal, concelho
de Ourém. Desde tempos imemoriais até ao presente, esta água é considerada sagrada e procurada para
cura, para restabelecimento do fluxo vital.
Actos de devoção, como gestos simbólicos junto da água – tocar a água,
beber dela, lavar mãos ou rosto – eram e são praticados como a mesma intenção
de reconhecimento e de sagrada conexão.
Oferendas a Nábia
As oferendas e votos dirigidos a Nábia são
simples e essenciais, refletindo a natureza do Seu culto. A oferenda era, e
continua a ser, um gesto de alinhamento com o fluxo da água, de reconhecimento
da sua força liminar, e de gratidão pela vida que ela sustenta.
A Nábia se oferecia alimentos, como leite – símbolo de pureza e renovação da vida; pão e cereais – associados à fertilidade da terra e à nutrição da comunidade; frutas ou produtos locais – frutos silvestres, possivelmente mel ou sementes, entregues junto de rios ou nascentes. Também objectos votivos como coroas ou guirlandas de flores ou de ramos. Pequenos utensílios de uso quotidiano ou simbólico – como lâminas de bronze, peças de cerâmica ou contas – eram colocados nas margens ou em fontes sagradas, assim como pedras ou seixos especiais eram depositados nos leitos de rios ou nas nascentes, marcando presença e intenção ritual.
Fontes:
José Leite de Vasconcelos, Etnografia Portuguesa
Ramón Menéndez Pidal e estudos sobre toponímia
galaica
Luís Graça, Religião pré-romana em Portugal
Alberto Gutiérrez, estudos sobre hidronímia
galaico-lusitana
Miranda
Green, Celtic
Goddesses (1995)
John T.
Koch, Celtic
Culture: A Historical Encyclopedia (2006)
Francisco
Calvo, artigos sobre a religiosidade indígena lusitana
2. Altar a Nábia junto do rio Nava? Gerês, Terras de Bouro, Senhora da Abadia
3. Rio Tejo, Ribeira de Santarém
4. Rio Nabáo, Tomar




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