A morte de Santa Iria no Rio Nabão está carregada de simbolismo espiritual e pode ser interpretada como um rito de passagem, purificação e sacralização do rio. O Seu martírio reforça a ideia do Nabão como um rio iniciático, um local onde o sagrado e o profano se encontram, semelhante a outros rios mitológicos ligados à transformação e à travessia entre mundos.Série especialmente dedicada às nossas Deusas das Águas, tema da Conferência da Deusa Portugal 2026
O Mito de Santa Iria: Sacrifício e Pureza
Santa Iria (ou Irene) era uma jovem monja de Tomar que,
segundo a tradição, viveu no século VII. A Sua beleza e virtude atraíram a
atenção indesejada de um poderoso homem, Britaldo, que, ao ser rejeitado,
acabou envolvido em uma trama de difamação. Espalhou-se o rumor de que ela
estaria grávida, o que levou à sua condenação. Como castigo, foi morta e lançada
ao Rio Nabão, cujas águas A levaram até ao Tejo, onde o Seu corpo teria sido
encontrado intacto em Scalabis (atual Santarém).
Esta narrativa apresenta diversos elementos de
transcendência e sagração, já que a morte na água se liga a rituais de
purificação e transmutação espiritual. O rio como condutor da alma, carregando o
Seu corpo até outro destino ou dimensão, liga-se ao elemento água como meio de
transição entre mundos.
A incorruptibilidade do corpo de Iria reforça a ideia do Seu
estatuto divino, evocando o conceito de imortalidade espiritual.
A Água como Elemento de Iniciação e Renascimento
Por outro lado, nos mitos e tradições esotéricas, a imersão
na água representa um rito de iniciação e renovação. O facto de Iria ser
lançada ao Nabão pode ser interpretado como um acto de morte e renascimento
espiritual, similar ao batismo cristão e a outros ritos de passagem de outras
tradições.
O facto do corpo seguir o fluxo do Nabão até ao Zêzere e
depois até ao Tejo, chegando depois à Ribeira de Santarém (cidade que, segundo
algumas tradições, tem um nome derivado do nome Iria) sugere um trajeto sagrado, como se a
própria correnteza fosse um instrumento da vontade divina.
Paralelos com outras narrativas de rios e transcendência,
evocam Ofélia, na peça Hamlet de Shakespeare; tal como ela, Iria encontra a
morte na água, elemento que simboliza tanto o esquecimento quanto a passagem
para outra realidade ou dimensão.
O Aqueronte e o Estige, na Grécia antiga, serviam como
limiares entre o mundo dos vivos e o além ou paraíso. O Nabão, nesse contexto,
desempenha um papel semelhante, sendo o veículo da passagem de Iria do mundo
terrestre para o espiritual.
O Rio Jordão, onde Cristo foi batizado, também representa um
limiar entre o mundo físico e o espiritual. A morte de Santa Iria no Nabão ecoa
esse simbolismo.
Com o martírio de Iria, o Rio Nabão adquire assim um
estatuto especial, com as suas águas sacralizadas; de simples curso de água,
ele eleva-se à categoria de rio santificado, como o Aqueronte na Grécia, tornando-se
um símbolo de transcendência e um caminho espiritual. Sem dúvida que a história
de Iria ajudou a enraizar a sacralidade do Nabão na tradição popular.



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