Mostrar mensagens com a etiqueta Deusas das Águas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Deusas das Águas. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Deusas das Águas - Maria

 

 Série especialmente dedicada às nossas Deusas das Águas, tema da Conferência da Deusa Portugal 2026

Deusa Maria

Esta encantadora Virgem vestida de azul, de colar de pérolas ao peito, era a antiga Deusa do Mar pagã, Marian, Miriam, Mariamne (“cordeiro do mar”), Myrrhine, Myrtea, Myrrha, Maria ou Marina, matrona de poetas e amantes e mãe orgulhosa do Arqueiro do Amor.Robert Graves, A Deusa Branca

Na Invocação do seu Sermão de Santo António aos Peixes, o famoso pregador português do séc. XVII, o Padre António Vieira, invoca Maria como Domina Maris (Senhora do Mar). Em outras ocasiões, ele usa imagens marítimas para falar de Maria, dando-Lhe também o título de Stella Maris (Estrela do Mar) e desenvolvendo a ideia de que Ela é guia e protecção dos navegantes no meio das tempestades, “Estrela que governa o mar desta vida”; “Senhora das ondas e dos ventos”; “Porto seguro no mar das tribulações”. Com o mar simbolizando o mundo instável, a vida humana em perigo, a salvação como porto seguro. Maria é então Aquela que orienta, a Senhora que domina os elementos, o Porto seguro onde a alma encontra abrigo, ou seja, Aquela que protege a grande travessia, que é a própria Vida.

Para a investigadora e autora espanhola Marta Blanco Fernández, Maria faz parte dum imaginário espiritual mais amplo, ligado ao feminino sagrado que foi silenciado ou marginalizado pelas religiões patriarcais, e a sua presença contínua nas tradições populares e devocionais indica que o sagrado feminino sobrevive e se reconfigura através dela. Ela diz de Maria: “Não é um vaso, mas o oceano primitivo que contém o sol; porque se Maria é a mãe de Deus, quem é Maria?”

Na nossa roda do ano, Maria, tão cultuada entre nós, neste território dominado pelo mar, como Mãe de Misericórdia, protectora, Senhora do Mar de todas as Emoções, está em honra no Solstício de Verão, o festival de Litha, festival das Águas, como Senhora da Compaixão que tudo abarca e protege; do Amor Incondicional; da Cura, das águas de cura, como as das lágrimas, que dissolvem as nossas toxinas emocionais.

 ©Luiza Frazão

Iria do Nabão e da Ribeira de Santarém

Série especialmente dedicada às nossas Deusas das Águas, tema da Conferência da Deusa Portugal 2026

A morte de Santa Iria no Rio Nabão está carregada de simbolismo espiritual e pode ser interpretada como um rito de passagem, purificação e sacralização do rio. O Seu martírio reforça a ideia do Nabão como um rio iniciático, um local onde o sagrado e o profano se encontram, semelhante a outros rios mitológicos ligados à transformação e à travessia entre mundos.

O Mito de Santa Iria: Sacrifício e Pureza

Santa Iria (ou Irene) era uma jovem monja de Tomar que, segundo a tradição, viveu no século VII. A Sua beleza e virtude atraíram a atenção indesejada de um poderoso homem, Britaldo, que, ao ser rejeitado, acabou envolvido em uma trama de difamação. Espalhou-se o rumor de que ela estaria grávida, o que levou à sua condenação. Como castigo, foi morta e lançada ao Rio Nabão, cujas águas A levaram até ao Tejo, onde o Seu corpo teria sido encontrado intacto em Scalabis (atual Santarém).

Esta narrativa apresenta diversos elementos de transcendência e sagração, já que a morte na água se liga a rituais de purificação e transmutação espiritual. O rio como condutor da alma, carregando o Seu corpo até outro destino ou dimensão, liga-se ao elemento água como meio de transição entre mundos.

A incorruptibilidade do corpo de Iria reforça a ideia do Seu estatuto divino, evocando o conceito de imortalidade espiritual.

A Água como Elemento de Iniciação e Renascimento

Por outro lado, nos mitos e tradições esotéricas, a imersão na água representa um rito de iniciação e renovação. O facto de Iria ser lançada ao Nabão pode ser interpretado como um acto de morte e renascimento espiritual, similar ao batismo cristão e a outros ritos de passagem de outras tradições.

O facto do corpo seguir o fluxo do Nabão até ao Zêzere e depois até ao Tejo, chegando depois à Ribeira de Santarém (cidade que, segundo algumas tradições, tem um nome derivado do nome  Iria) sugere um trajeto sagrado, como se a própria correnteza fosse um instrumento da vontade divina.

Paralelos com outras narrativas de rios e transcendência, evocam Ofélia, na peça Hamlet de Shakespeare; tal como ela, Iria encontra a morte na água, elemento que simboliza tanto o esquecimento quanto a passagem para outra realidade ou dimensão.

O Aqueronte e o Estige, na Grécia antiga, serviam como limiares entre o mundo dos vivos e o além ou paraíso. O Nabão, nesse contexto, desempenha um papel semelhante, sendo o veículo da passagem de Iria do mundo terrestre para o espiritual.

O Rio Jordão, onde Cristo foi batizado, também representa um limiar entre o mundo físico e o espiritual. A morte de Santa Iria no Nabão ecoa esse simbolismo.

Com o martírio de Iria, o Rio Nabão adquire assim um estatuto especial, com as suas águas sacralizadas; de simples curso de água, ele eleva-se à categoria de rio santificado, como o Aqueronte na Grécia, tornando-se um símbolo de transcendência e um caminho espiritual. Sem dúvida que a história de Iria ajudou a enraizar a sacralidade do Nabão na tradição popular.

O corpo sem vida de Iria foi depois encontrado junto ao Tejo, depois de ter navegado nas águas do Zêzere, seu afluente, na Ribeira de Santarém. Aí nesse lugar, a renascida Deusa renascida é agora a Guardiã das águas do rio, reguladora e protectora contra os seus excessos, as enchentes que põem em perigo as gentes da Ribeira de Santarém, conforme nos indica o padrão que aí podemos ver, como um Templo vivo, à beira do grande Tejo.

©Luiza Frazão

 Imagens: 

1. Tomar, 20 de Outubro

2. Lady of Shalott, Walter Crane (1845-1915)

3. Padrão de Santa Iria, Ribeira de Santarém

 

 

 

 

Conferência da Deusa Portugal 2026 Honrando Cale das Águas – Útero Sagrado da Criação

  A quarta edição da Conferência da Deusa Portugal realizou-se entre 8 e 10 de Maio, desta vez dedicada à Mãe das Águas. Por essa razão esco...