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segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

SABES POR QUE O IMBOLC EM ÓBIDOS É TÃO SENTIDO E ESPECIAL?

No Imbolc nós celebramos o regresso da luz após o seu recolhimento no Inverno, pois a duração dos dias aumenta a partir de agora progressivamente. Celebramos assim agora a Deusa no Seu aspecto Donzela. Ela é a Deusa Menina, que na tradição celta que partilhamos com a Britânia, é a Pastorinha, the Little Shepherdess. Ela é Brígida, a Grande Deusa Celta, que tem Brigântia como o Seu aspecto Terra.

A Pastorinha é a Menina Deusa do Neolítico, Deusa do Sol e da Lua, do Fogo e da Água, que na nossa cultura também é invocada como Iria, Senhora da Cova da Iria. Ainda hoje encontramos nesse lugar as Suas mui santas águas de cura e a Sua chama eterna, lado a lado, e foi aí que se deu o famoso Milagre do Sol.

Como a relação entre ambas me parece tão estreita, invoco a Senhora do Imbolc na nossa roda como Iria-Brígida. São ideias que desenvolvo no meu livro A Deusa Celta de Portugal: A Anciã do Inverno e a Rainha do Verão, da editora Zéfiro.

Tenho, entretanto, o prazer de morar na bela vila de Óbidos, onde a Deusa me concedeu a graça de viver perto da Biquinha, uma das Suas fontes sagradas de águas de cura. Na verdade, esta vila, que segundo rezam as crónicas, foi fundada em 308 AEC pelo povo Celta, está repleta de vestígios do antigo culto desta grande Deusa. Na Porta da Graça ali em cima, lembrando que Brígida é Deusa do Limiar, realiza-se pelas noites do Imbolc, 1 de Fevereiro, uma cerimónia religiosa que consiste na distribuição e bênção de velas que se levam acesas em procissão até à Igreja de Santa Maria. Aí decorre uma missa e é por essa altura que se abençoam os bebés recém-nascidos, evocando o poder de Deusa Parteira atribuído na cultura Celta à Deusa Brígida. Santa Maria é, no meu entender, o Seu grande avatar cristão.

Mas a primeira celebração deste festival acontece por aqui a 17 de Janeiro, no cimo dum Monte agora consagrado a Santo Antão, onde se encontra um dos famosos tronos de pedra que no mundo antigo eram considerados ora pertencendo a Brígida ora à Deusa Cailleach (o aspecto Anciã da jovem Brígida em muitas mitos e lendas). Aí “A noroeste da Vila, coroando formoso outeiro que frondosas matas envolvem, foi mandada construir, em cumprimento de um voto, por D. Antão Vaz Moniz, fidalgo obidense e um dos combatentes da ala dos namorados em Aljubarrota"*, uma bela ermida dedicada ao santo homónimo. Entre os vários santos homenageados no interior da capela, destaco São Brás, por se tratar de mais um avatar de Brígida, ao qual são atribuídos muitos dos Seus antigos poderes, e é em muitos lugares também celebrado no início de Fevereiro.

Neste convívio animado, lembrando que a Deusa Pastora também é a protectora dos animais da quinta, compram-se e acendem-se velas e fitinhas, que se levam para casa: “Outra das características desta romaria está relacionada com a distribuição pelos devotos de fitas cor-de-rosa e de velas que, depois de benzidas, são colocadas ao pescoço dos animais (as fitas) e guardadas para serem acesas nos estábulos (velas), no caso de a doença visitar os moradores”.* Mais óbvio que se trata de reminiscências da antiga devoção à Grande Deusa Celta é difícil encontrar.

Entretanto, a vila de Óbidos foi outrora abastecida de água por um aqueduto, mandado construir por Catarina de Áustria, mulher de João III, em 1573, que vinha desde a Usseira, a cerca de 3 quilómetros de distância. Aí, no início do aqueduto, foi edificada uma capelinha dedicada a Santa Iria, protectora das águas que transportava.

Ainda evocando esta entidade divina, também a 20 de Outubro, o dia de Iria, realiza-se uma feira de Outono, semelhante àquela de Tomar, mais uma evidência deste culto antigo à Grande Deusa Celta, tão forte e presente ainda nesta região.

O Imbolc aqui é então do mais sentido e especial e por isso te convidamos a juntar-te à nossa celebração de 1 de Fevereiro. Sê bem-vinda ou bem-vindo!

 

*https://www.jfsmariapedrosobral.pt/freguesia/locais-a-visitar/10-ermida_de_santo_antao

 

segunda-feira, 21 de outubro de 2024

Despedida da Senhora do Verão e Acolhimento da Senhora do Inverno

 Tomar 20 de Outubro 2024

A celebração do dia 20 de Outubro, em Tomar, é sempre um momento alto na forma como vivo o meu ciclo anual. Este evento é o contraponto da celebração de 13 de Maio na Cova da Iria. Em ambos os momentos, IRIA, a Deusa do território, é invocada e celebrada - na sua forma de Rainha do Verão.

Ela também é Beira, a parte do nome composto Cale-Beira, ou Calaica-Beira, ou ainda Cailícia-Beira, Deusa Dupla, que por Beltane assume a forma jovem e é a nossa de Rainha do Verão, e no final de Outubro, quando o Samhain, o fim/princípio do ano se aproxima, assume a sua forma de Anciã Rainha do Inverno. Uma tradição celta muito muito antiga mas que se manteve viva na nossa tradição, quando foi assimilada pela igreja de Roma.

Participar nesta celebração, reinterpretando-a, ou ressignificando-a, e vivendo-a segundo a nossa visão, é uma experiência que amo e adoro desde há já alguns anos, primeiro sozinha, depois com a minha irmã Sacerdotisa Cristina Grumete, depois com outras irmãs e Sacerdotisas da Deusa do Jardim das Hespérides e outras pessoas que simplesmente se juntam ao grupo.

Conto a história desta Deusa Dupla celta e desta tradição num livro que teci com todo o material que investiguei da tradição portuguesa e que foi traduzido para Inglês e Francês.

Este ano, porque era domingo, havia um grande multidão e no meio dela, um casal que encontrámos já sobre a ponte chamou a minha atenção. Ton van der Kroon, um investigador holandês que vive em Tomar, com a sua mulher, Anne Wislez, podia ser confundido com o autor luso-americano Freddy Silva... Não era, mas... também ele é produtor de conteúdos em áreas afins... Foi delicioso o encontro que tivemos com este casal com quem descemos até ao sagrado Pego de Santa Iria, ex-libris da cidade de Tomar, tristemente engolido por um hotel que apagou a memória do antigo mosteiro construído por certo sobre um antigo templo da Deusa e por isso uma memória viva da ancestral Senhora da terra...

Os nossos caminhos de celebração, entretanto, divergiram para outras zonas mais íntimas e
significativas que, à nossa maneira, nos permitiram progredir desde a despedida de Uma ao acolhimento da Outra.

Realizámos a parte mais significativa da nossa celebração em contacto com a terra, não longe das águas do Nabão, agora um rio de morte e dissolução, depois de termos oferecido às suas águas pétalas de rosas vermelhas, como o sangue da vida, repleto de promessas de renovação, ouvindo o canto dos pássaros, sentindo no meio da verdura eterna, sobre uma camada de folhas e galhos em decomposição, a humidade trazida pelas chuvadas de Outono, aceitando a proposta de ir dentro, de ir fundo, honrando o túmulo/útero da Grande Mãe,  Senhora da Criação, da Manutenção e da Renovação da Vida. E fizemo-lo em sororidade e fraternidade,  sentindo o nosso coração bem mais aconchegado pelo sentido e significado e  profundidade que assim acrescentámos e com que enriquecemos a nossa experiência humana.

E mutuamente prometemos apoio e carinho na longa travessia do Inverno, seja ele atmosférico ou psíquico. Abençoada!

©Luiza Frazão


Obs. Versões inglesa e portuguesa deste livro à venda na Amazon.

domingo, 18 de outubro de 2020

OUTUBRO: ACOLHENDO A ANCIÃ DO INVERNO ( a Deusa do Centro da nossa Roda do Ano é uma entidade dupla)

 

A Deusa na Sua Face de Rainha do Verão despede-se de nós a 13 de Outubro, na Cova da Iria, e uma semana depois Ela é “morta” em Tomar, de onde o Seu corpo, levado pelas águas daquele que é agora também um Rio da Morte e Esquecimento, o Nabão, vai dar ao Zêzere e depois ao Tejo. O Rio do Verão é o Rio da Vida, da fertilidade dos campos, da alegria de chapinhar nas águas que refrescam do calor excessivo do Verão. No Inverno, porém, ele transforma-se no Rio da Morte, que leva o que já pereceu, que destrói, dissolvendo, os destroços da vida. Ele pode também ser o Rio da Morte pelos excessos da sua corrente, pelo transbordar do seu caudal. Mas vendo bem, tal como no Yin temos a marca do Yang e vice-versa, mesmo transbordando, alagando, destruindo a velha forma, ele sempre traz consigo mais e mais fertilidade aos campos. 

E é aí, nesse transbordar das águas do Inverno, que a Deusa vela e protege, conforme testemunha o Seu padrão na Ribeira de Santarém, no santuário erigida a Iria, um lugar onde, sabe-se lá desde quando, o culto desta Deusa se mantém. Aí se Lhe pede protecção e cura, se lhe oferece flores e círios e por vezes se reforça o

pedido com uma imagem do médico santo doutor Sousa Martins, que viveu não longe dali. Iria é agora Rainha do Inframundo, como Perséfone ou Proserpina; Ela jaz e ao mesmo tempo exerce o Seu poder a partir das profundezas do leito do Tejo, desde a Sua “última morada”, o Seu túmulo do mais puro alabastro fabricado pelos próprios anjos, um túmulo nunca visto por olhos humanos a não ser pelos do nosso rei poeta e agricultor, Dinis, e da sua mulher, rainha e santa, Isabel de Aragão, que na nossa cultura têm quase o mítico estatuto do céltico par real Artur e Genivera.

A morte associada ao rio, o Rio da Morte…

A teologia, ou tealogia, da nossa Deusa é rica e complexa e envolve o Sol e a Lua, a Terra e as Águas, para o fundo das quais Ela é levada pela corrente, na estação em que morre a vegetação, os animais hibernam e os campos entram em pousio.

Iria sempre inspirou, além do povo simples, poetas como, aqui, António Nobre:


Santa Iria

(Que floresceu em Nabância no século VII)

 

Num rio virginal de águas claras e mansas,

Pequenino baixel, a Santa vai boiando.

Pouco a pouco, dilui-se o oiro das suas tranças

E, diluído, vê-se as águas aloirando.

 

Circunda-a um esplendor de verdes Esperanças.

Unge-lhe a fronte o luar (os Santos Óleos) brando,

E, com a Graça etérea e meiga das crianças,

Formosa Iria vai boiando, vai boiando…

 

Os cravos e os jasmins abrem-se à luz da Lua,

E, ao verem-na passar, fantástica barquinha,

Murmuram-se entre si: «É um mármore que flutua!»

 

Ela entra, enfim, no Oceano… E escuta-se, ao luar,

A mãe do Pescador, rezando a ladainha

Pelos que andam, Senhor! Sobre as águas do Mar…”

 Leça, 1885, António Nobre

 

À superfície reina agora a Sua contraparte anciã, a Senhora da Pedra, cuja cabeça, a parte mais importante do corpo, onde se aloja a sabedoria e a própria alma, para as nossas antepassadas e os nossos antepassados, vela por nós e pela terra. A Senhora do Inverno, da Pedra, dos Ossos, das Neves, com as Suas Nove Sacerdotisas. Nós te honramos e invocamos o Teu rigor, a tua resiliência, a Tua foice que limpa a terra física, bem como o território da nossa alma, daquilo que já pereceu depois de ter cumprido o seu propósito e tempo de vida. Aí na serra, à Sua cabeça somam-se as outras partes mais significativas do Seu corpo de Grande Criadora. Precisamos da nossa visão desperta e alerta para ver o 

Seu ventre prenhe e os Seus seios fartos, e mais além ainda, anunciada pela marca do seu pezinho de Donzela, a Sua sagrada vulva de onde jorram as águas amnióticas que alimentam e sustêm a Vida.


Lugar tão sagrado no centro do nosso território! Não muito longe dali, está a Sua zoofania do Touro… mas sobre essa pedra que foi entretanto demonizada e transformada nos “chifres do diabo”, falarei apenas depois de a ter pessoalmente visitado. Só sei que em Tomar, lá no lugar de Iria, junto do rio, outro Touro que só pode ser muito sagrado existe também…

 Em Tomar, a 20 de Outubro, quando se realiza a Sua feira dos frutos de Outono, lançamos pétalas de rosas vermelhas no Nabão, oferecidas a Iria, para que o sangue da vida acompanhe a Deusa e A traga de volta no momento certo do Seu regresso em Maio. Abençoada!

 Imagens: 

1. Cabeça da Velha, Serra da Estrela

2. Padrão de Santa Iria, Ribeira de Santarém

3. Pego de Santa Iria, Tomar

4. Cabeça da Velha, Serra da Estrela

5. Rio Nabão em Tomar

Conferência da Deusa Portugal 2026 Honrando Cale das Águas – Útero Sagrado da Criação

  A quarta edição da Conferência da Deusa Portugal realizou-se entre 8 e 10 de Maio, desta vez dedicada à Mãe das Águas. Por essa razão esco...