sexta-feira, 12 de novembro de 2021

Samhain, Magusto, Finados...?

 

Qual seria a palavra correcta para designar esta celebração em língua portuguesa?


"Não existe palavra portuguesa própria para Samhain, mas esta deve ter influenciado a passagem do barbarismo fonético do Lat. septimana para «semana». A palavra Samhain significa fim do verão e deriva de duas palavras "samh", verão, e "fuin", «fim». Samhain < Samh-w-uin <Samh + | fuin < «fim» Lat. fine. Por aqui a palavra deve ter ficado em topónimos como Cinfães (etimologia desconhecida) e Sanfins (> S. Fins), quase todos na região celta duriense e em nomes próprios como Samaiana. A tradição portuguesa tem a festa dos «finados» (> S. Fins), e a quarta-feira de cinzas pode ter sido o nome inicial da festa por deturpação clerical de Cinfães com cinzas como *Sanfuin passou a Sanfins e depois a S. Fins. Como não existe nenhum S. Fins, no séc. XVII passou a S. Pedro Fins. «Cinzas» < *cinisia < Lat. cinis => "fuin", 'fim'."
(Artur Felisberto, blogue Numância)

Pessoalmente, uso a primeira designação da lista, Samhain (pronunciada à portuguesa, claro, evitando o uso duma pronúncia estrangeira, que será sempre uma fraca imitação da original) porque o termo é praticamente comum à religiosidade pagã do Hemisfério Norte, e ao usarmos a mesma designação reforçamos o impacto global destas celebrações e assim a esperança de, com o passar do tempo, nos tornarmos uma denominação religiosa tão impactante como a cristã, budista ou muçulmana, o que é muito auspicioso por se tratar duma espiritualidade centrada na terra.

Mas Magusto, entretanto, parece muito familiar para muitas e muitos de nós, e usar o termo para designar este festival é uma ideia tentadora. Vamos lá então ver mais de perto as possibilidades do vocábulo. Dizem algumas pessoas que vem do latim com significado de "grande fogueira". Já o dicionário Priberam, entretanto, não está tão seguro e indica para Magusto uma “origem duvidosa, talvez do latim ustus, -a, -um, particípio passado de uro, urere, queimar” e acrescenta os vários sentidos que recolheu, devidamente numerados:
"1. Fogueira de assar castanhas; 2. Porção de castanhas assadas nessa fogueira; 3. Merenda de castanhas assadas; 4. Festa, geralmente associada ao dia de S. Martinho ou ao dia de Todos os Santos, em que tradicionalmente se assam e comem castanhas."
Verifico que todos estes sentidos confirmam a minha ideia inicial sobre o significado desta palavra, o facto de se tratar duma celebração, à volta duma fogueira ou dum braseiro, onde se assam castanhas e se prova o vinho novo e a água-pé. Em honra, ou incluindo na festa, as e os antepassados, claro. O mais possível.
Dirão algumas pessoas, entretanto, que isto é agora o sentido actual, mas que o mais arcaico será o da grande fogueira das encruzilhadas, como ainda se faz em alguns lugares do território. Pessoalmente conheço essas grandes fogueiras que passaram das encruzilhadas para os adros das igrejas e capelas (espaços igualmente liminares), como a grande fogueira do Natal (o famoso tronco de Natal), a do Ano Novo, a de Santa Luzia (13 de Dezembro), as dos Santos Populares...


Na verdade, as grandes fogueiras fazem bem mais sentido pelas noites frias, invernosas, mas se pararmos um bocadinho para pensar, é o fogo que preside à celebração de cada um dos oito festivais da Roda do Ano celta. E sabemos bem a razão: a Roda do Ano celta celebra o ciclo da Terra à volta do Sol, e em cada ponto dessa Roda, formada pelos eixos dos Equinócios e dos Solstícios e respectivos pontos intermédios, é a nossa estrela, o Sol, que invocamos, ao alimentarmos o fogo dessas fogueira, o seu grande símbolo ou representante. Na verdade, não há celebração da Roda do Ano sem fogueira, embora os rigores do nosso clima tenham basicamente criminalizado a grande fogueira de Lammas, quando honramos o fogo mantenedor da vida da Deusa no Seu aspecto Mãe. Resta-nos, entretanto, a segurança do fogo do forno onde por esta altura é de rigor cozermos o pão de Lammas, festival das primeiras colheitas, que são basicamente os cereais.

Mas voltando ao Magusto, o termo tem na essência o sentido de festa, de confraternização, com as castanhas, a água-pé, o vinho novo, os bolos das santas e dos santos, e outros petiscos regionais, como iguarias principais desse banquete, no qual as e os Finados são tratadas e tratados com especial deferência.

Para melhor percebermos o sentido desta celebração, sugiro que vejamos o que ainda acontece actualmente no México e que, segundo consta, ao contrário do que poderíamos supor, vem de tempos pré-colombianos. Para cotejarmos com o que acontece, ou acontecia, na nossa realidade cultural, sugiro que espreitemos o que se diz na Wikipédia, com as fontes devidamente assinaladas, na entrada "Pão-por-deus":

“O peditório do pão-por-deus está associado ao antigo costume que se tinha de oferecer pão, bolos vinho e outros alimentos aos defuntos. Era costume "durante o ano, nos domingos e dias festivos se offerecem por devoção picheis, ou frascos de vinho, e certos pães, que põe em uma toalha estendida sobre a sepultura do defunto, e uma vela acesa." Também se colocava pão, vinho e dinheiro no caixão do defunto para a viagem. No canon LXIX do II Concilio de Braga do ano 572 proibia-se que se levassem alimentos à tumba.” https://pt.wikipedia.org/wiki/P%C3%A3o-por-Deus


Ora, tudo isto continua a fazer-se no México, penso que sobretudo na região de Oaxaca, de cultura ainda nítida e orgulhosamente matriarcal, ou matrifocal. Existem belos documentários online que mostram a exuberância destas festividades designadas na língua local por Dia de los Muertos.

Mas não podemos esquecer que a celebração do Samhain é na essência a celebração da Morte, do fim do bom tempo, do final das colheitas, do início da rigorosa e temível estação do Inverno, e por isso, a meu ver, o significado do vocábulo Magusto não abrange a totalidade do sentido deste festival. Ele refere apenas o seu aspecto mais festivo, mais lúdico, que também faz sentido, sem dúvida, porque ao mesmo tempo celebramos também a vida que assim se renova.

Ora, se usássemos o termo Magusto para substituir Samhain, poderíamos estar a tentar escapar à parte mais pesada, mais dolorosa, deste festival. Se se trata do festival da Morte, é indispensável que nós, pagãs e pagãos, a honremos e respeitemos e mais à carga de sofrimento que implica, já que a tendência geral é para evitar o tema, para negar a morte, para esconder essa realidade inevitável e necessária para a renovação da vida, bem como o aspecto iniciático do sofrimento. Na verdade parece até existir a ideia de que a morte seria quase que uma vergonhosa derrota face às promessas implícitas no moderno progresso científico e tecnológico, que em última análise quase a deveria impedir…


Falta ver ainda, da proposta inicial do título, o termo Finados, usado pela igreja Católica. O Dia de Finados, ou o Dia dos Mortos. Estes seriam os da minha preferência, não fosse a questão do género. Actualmente não me parece aceitável defender o uso de nenhum termo genérico que anule, que trague, que devore o feminino na língua e a verdade é que fica pesado desdobrar a palavra na versão feminina e masculina…

Agora uma sugestão um tanto ou quanto transgressora: vamos dizer “finades”, recorrendo à pronúncia de eminentes figuras nacionais? Quem se lembra dos discursos de Ramalho Eanes? Talvez este pudesse ser afinal o seu grande contributo para o avanço da cultura portuguesa, quem sabe?...

Enquanto não levamos a ideia por diante, porém, e até para ser fiel à intenção já referida no início, fico-me com Samhain (com "h" por respeito à língua de origem...).

©Luiza Frazão

Imagens: 1. Altar de Samhain; 2. Bolos d@s sant@s; 3. Preparação da lenha para atear a grande fogueira do Ano Novo, Torre da Magueixa; 4. Meu altar mexicano (workshop A Mulher de Branco, Conferência da Deusa de Glastonbury 2014); 5. Tradições mexicanas do Dia de los Muertos; 4. Celebrações da Morte, Beira Litoral, actualidade.

quinta-feira, 7 de outubro de 2021

De coração aberto Sacerdotisa da Deusa

 

Meu despertar para a Mãe Divina foi na minha primeira viagem a Avalon – Glastonbury em 2018.

Em 2019, na primeira Conferência da Deusa em Portugal, em Sintra, senti encontrar-me em família, senti-me entre irmãs, senti que ali era a minha casa. Senti um enorme amor que pulsava em meu coração. E foi aí que senti que minha missão, meu propósito de vida, era seguir o caminho da Deusa. Era servir a Deusa.
E agora, após dois anos de estudo dos mistérios da Deusa e Suas celebrações da vida, da morte e renascimento, da Natureza e toda a Sua Grandeza e sabedoria, como servir a Deusa, aqui estou com toda a entrega e amor, de coração aberto como Sacerdotisa do Jardim das Hespérides.
Sacerdotisa Carla C.P.

segunda-feira, 4 de outubro de 2021

Testemunho duma nova Sacerdotisa

 

Dia 22 de Setembro finalizei parte da viagem como aluna do Jardim das Hespérides,

Uma viagem de despertar, trabalho interior, aprendizagem de práticas de cura e oraculares, conhecimentos ancestrais, sagrado feminino e aprendizagem de tradições ligadas ao culto da Deusa e da roda do ano pagã celta. Hoje sinto-me, vejo-me e ouço-me em coração, alma e verdade, uma Sacerdotisa da Deusa. Sou cada vez mais inteira e completa. Sou África natal por isso sou; Xamã, tribo, ritual, tambor, livre, selvagem e natureza. Sou vivências da velha Europa de tradições de dominação patriarcal e cristã. Sou cultura, costumes, tradições e estrutura Beirã albicastrense de filiação. Sou grata e orgulhosa das minhas origens. Sou Sacerdotisa dos Jardim das Hespérides por chamamento da Deusa. Trago ADN Celta e sinto o pulsar de um conhecimento antigo onde a mulher foi; Livre Jovem Amante Mãe Matriarca Feiticeira Sábia Anciã Sacerdotisa, Druidesa, Yin e Yang Inteira e sagrada Ser Sacerdotisa da Deusa; É estar ao serviço de um bem maior, ajudando no despertar de consciência divina, cura e desenvolvimento do todo. É trazer ao mundo outra perspectiva na forma de exercer sacerdócio Feminino, uma área ainda de dominação patriarcal. É sentir o chamado para um trabalho espiritual na comunidade sem dominação, controlo, manipulação e poder. É ser cura Despertar Consciência Divina Oráculo Vida Alegria Amor Fé Força Coragem É ser una com os ciclos da vida, natureza, Lua, Sol… É ser completa, inteira, A parte, do todo. Alma divina É ser ativista dos direitos de todas as formas de ser visíveis e invisíveis no planeta. É ser sábia, Partilhando o meu conhecimento e experiência pessoal ao serviço do crescimento e cura de mim e do outro. Hoje início uma viagem sem destino e paragens conhecidas, para cumprir a minha missão de vida. O que vou encontrar, quais as provações e desafios que vou passar são desígnios da Deusa, a quem fiz votos de compromisso e dedicação plena em amor, fé e coragem. Assim é Assim seja Está feito
Mariette Capinha Sacerdotisa Celta da Deusa 

terça-feira, 22 de junho de 2021

Cadeiras de Pedra - Tronos da Deusa

 

Trono de pedra encontrado há tempos num lugar que visitei várias vezes antes de ter olhado com outros olhos e visto o cadeirão de pedra de Calaica. Na verdade, só me foi possível ver aquela formação rochosa com outros olhos depois de ter encontrado um artigo sobre a sacralidade dessas formações rochosas da Irlanda celta.

O artigo em questão falava sobre "cadeiras sagradas" da Irlanda, relacionadas nomeadamente com a Deusa Cailleach Bhéarra, a nossa Cale, ou Calaica-Beira, Deusa dupla, com Brígida como a sua face jovem.
O lugar onde encontrei o trono da Deusa é um monte sagrado. A comprová-lo, está a capela cristão bem antiga e a festa que aí se realiza, em meados de Janeiro de cada ano. Ela tem tudo de uma celebração precoce do Imbolc celta, com as e os devotos comprando e acendendo no interior da capela velas protectoras para os seus animais, enfeitadas com fitinhas de algodão cor-de-rosa. Esta devoção e pedido de protecção é além disso pretexto para um animado convívio, com pequenas fogueiras acesas dispersas pelo espaço, entre pedras e vegetação, onde se grelha a carne e os enchidos de que as e os visitantes se abastecem também ali. Para além disso degusta-se outras iguarias festivas e bebe-se o vinho comprado diretamente ao produtor. O acesso não é fácil mas tive ocasião de ir até lá uma vez e achei o ambiente delicioso de simplicidade e genuíno espirito de confraternização.

Conheço outras cadeiras famosas em Portugal, como a da serra de Sintra, a cadeira da Deusa, onde as mulheres vão pedir ajuda à Deusa antes do parto, e quem sabe se não era mesmo aí que no passado eles aconteciam, nesse regaço da Deusa Mãe? Existe uma outra muito famosa, em Lisboa, que foi integrada na capela de Nossa Senhora do Monte, na Graça, conhecida como a cadeira de S. Gens, onde as mulheres que sofrem de infertilidade vão sentar-se para obterem a graça de engravidar.

A informação do blogue acima referido fala-nos, entretanto, de três cadeiras famosas na Irlanda:

“A cadeira e poço de S. Patrick (também conhecida como Cadeira e poço das e dos Druídas ou de Santa Brígida) fica em Altadeven Wood, não muito longe do trilho Ulster Way. A cadeira é um enorme bloco de pedra de 2 m de altura, em forma de trono. O Poço, que dizem que nunca seca, é outra pedra, com uma depressão de 25cm, que é preenchida com água natural. De acordo com o folclore, a água dentro dessas depressões, ou bullauns, tem poderes curativos, em particular das verrugas.


Nos marcos do topo da colina, Cailleach Bhéarra desempenha um papel proeminente no que diz respeito às cadeiras de pedra. No Norte, onde se encontram monumentos funerários, os seus assentos costumavam ficar nas proximidades dessas estruturas neolíticas. Uma esplêndida cadeira de pedra de Cailleach é o marco de pedra em Loughcrew, County Meath. Num lugar chamado ‘The Spellick’, não muito longe da sua casa em Slieve Gullion, no Condado de Armagh, ela tem outro assento de pedra. Até às primeiras décadas do século vinte, as reuniões comunais da colheita aconteciam no Spellick on Bilberry Sunday, e as pessoas sentavam-se na cadeira como parte das festividades.

Áine's Rock Chairs, também conhecida como The Mad Chair of Dunany, é uma grande pedra chamada "a cadeira de Aine, ou a cadeira dos lunáticos", foi localizada, e possivelmente ainda lá está, perto de Dunany, e as pessoas geralmente acreditavam que os lunáticos, movidos por algum impulso insuperável, quando em liberdade, geralmente faziam o seu caminho até essa pedra e sobre ela se sentavam três vezes. Ora, segundo reza a lenda, quando isso acontecia tornavam-se simplesmente incuráveis. Também era considerado um ato muito perigoso para pessoas de mente sã sentarem-se sobre essa pedra, para que não se tornassem sujeitas ao poder de Aine, isto é, afetadas pela loucura. A raça humana não foi a única supostamente afetada pela travessa Aine. Contava-se que cães raivosos vinham de muitas partes do país, aglomerando-se em volta desta pedra, com grande perigo para a vizinhança e para o gado: depois de permanecerem em volta da cadeira dos lunáticos por algum tempo, os animais retiravam-se para o mar, como se compelidos por algum poderoso poder invisível, e o povo supunha que eram forçados a visitar os domínios submarinos de Aine, já que estavam inteiramente sob o seu domínio e sujeição.

Vimos então que estas formações eram consideradas lugares de grande poder e imagino que aquela que referi no início possa ter em larga medida contribuído para a sacralidade do monte onde se encontra. Que revelações obteremos dum contacto mais estreito com o trono de Calaica-Beira no cimo daquele monte sagrado?

Em:
Entretanto, o tema do trono da Deusa, que era visto igualmente como o seu próprio regaço, tem muito mais que se lhe diga...

Imagens:
1 - Zona de Óbidos
3 - Serra de Sintra
4 - Capela da Senhora do Monte, à Graça, Lisboa
5 - Senhora do Círculo, Serra do Sicó

segunda-feira, 15 de março de 2021

Altar de Imbolc

 

Em Imbolc, escolhi para o Altar da Deusa o branco como cor predominante, significando a pureza e a inocência, a frescura da Deusa Donzela, e, enfim, a “folha em branco” onde se começam a inscrever os nossos próximos projetos e sonhos a concretizar.

No centro, está a imagem da Deusa Brígida com A qual me identifiquei muitíssimo e estabeleci uma ligação profunda desde a nossa Celebração conjunta de Imbolc a 31 de janeiro. Dirijo a Ela, todas as noites, a Oração Celta de Proteção e Benção, e acendo em ritual a vela a Ela dedicada, em sincronia com as/os irmãs/ãos que se conectaram através do Grupo “Chama de Brígida”. Essa conexão diária, à mesma hora, das nossas energias em torno de Brígida, transmitiu-me uma grande sensação de união e comunhão, deu-me muita força, e trouxe-me o sentimento de que não estou sozinha nesta caminhada espiritual. Foi uma iniciativa encantadora.
A Deusa Brígida, Senhora da Luz, do Fogo, da Chama Eterna, Senhora da Oliveira, das Águas medicinais, Senhora da Cura, e de tantos outros atributos, cativou-me muito, e por isso escolhi uma imagem Dela que representa sobretudo a força do Seu Fogo e da Sua Chama Eterna, que associo à força interna que nos move e impele a todas/os.
De facto, é agora que Ela (e nós com Ela) inaugura um tempo de Luz, em que as sementes germinam no ventre da Terra, bem como os nossos sonhos e projetos, para depois dar lugar à fertilidade, saindo da terra para o calor do Sol, que os vai fazer crescer. A própria Deusa Brígida tem também a sua vertente de fertilidade, pelo que a Sua imagem é um forte simbolismo do começo de um novo ciclo vivificante.


Dispus, com alegria e orgulho, o primeiro Olho de Brígida que elaborei (também para a Celebração de Imbolc), e que é especial para mim, pois consagrei-o na nossa Cerimónia, e desde então é um dos meus talismãs de proteção e bênçãos da Deusa Brígida. Para ele, utilizei lã de cor branca, significando, uma vez mais, a pureza da Deusa Menina e de um novo início, e lã verde, que representa a oliveira, a luz, a lenha e o alimento que nos dá, sendo também o verde uma cor com propriedades terapêuticas, bem a propósito de um dos dons de Iria-Brígida, a cura. Pessoalmente, dediquei-a à cura da minha Criança Interior.
Integrei igualmente ramos e folhas de oliveira, dedicadas à Senhora da Luz e da Oliveira (árvore tão presente e importante na nossa cultura e território, para dar alimento e iluminação), e árvore sagrada de Eufémia, a mais jovem das nove Hespérides. Daí, também, a presença de um pouco de azeite no Altar. A oliveira – as suas folhas – têm propriedades curativas, mais uma vez atributo da Deusa Brígida, que assim honro.
As gipsofilas que decoram são brancas e pequeninas, em homenagem à Deusa Menina.

No Altar estão igualmente fios de lã branca, com que nos abrigamos nestes dias ainda frios, e que é mais um elemento vindo da própria Deusa, no Seu atributo de Aquela que ensinou a pastorícia aos nossos ancestrais, como fonte de alimento e de agasalho.
Neste seguimento, figura também uma taça de leite, não só pelo aspeto referido no parágrafo anterior, mas porque Imbolc significa literalmente “no leite”, nomeadamente, remetendo para o “leite de ovelha”, “(…) na altura das suas primeiras crias, sinónimos de vida nova” (in “A Deusa do Jardim das Hespérides”).
Também presente está um pequeno poema que dediquei a Brígida, como prova de devoção a Ela – Deusa protetora da criatividade e inspiração –, e com pedidos para a Sua bênção e proteção.


Os elementos foram dispostos de acordo com os pontos cardeais:
- a vela branca representando o Fogo de Brígida, a Leste (vela já usada mas com uma energia especial, porque é a mesma que, desde 1 de Fevereiro, tenho acendido, e com ela orado à Deusa);
- a Sul, o cálice com Água, uma água com propriedades especiais, em honra de Brígida (magnetizada em Sandelgas, um local perto de Coimbra, com uma conhecida e forte corrente energética e espiritual);
- os cristais e a pirâmide de quartzo branco, e a selenite branca, representando a Terra, a Oeste;
- a Norte, simbolizando o elemento Ar, incenso, penas de aves, e imagens de animais totémicos associados ao Imbolc (a Cegonha, a primeira ave migratória a chegar ao nosso território anunciando a nova fase do ano; o Cisne, criatura sagrada da Donzela, meio pato/meio serpente (meio água/meio fogo); a Fénix, obviamente relacionada com o renascimento que tem lugar no Imbolc. Incluí também corujas: uma Coruja branca, símbolo de sabedoria profunda e a sua cor de pureza, e a Coruja Maori (que descobri, com entusiasmo, não podia ser mais apropriada, pois é um símbolo ancestral da sabedoria e da alma femininas, na ancestral cultura Maori, na Nova Zelândia).
Estão também sempre no altar a salva e o alecrim, ervas da minha predileção, para defumar, com propósito de limpeza energética do espaço e da aura.

AMendes

domingo, 31 de janeiro de 2021

IMBOLC - A VIVIFICAÇÃO


A palavra “Imbolc” significa “no leite”, ou “leite de ovelha”, leite das ovelhas na altura do nascimento das suas primeiras crias, sinónimos de vida nova, de renascimento e renovação. Trata-se, pois, desse momento do ano em que sentimos que a vida volta à superfície depois da quietude da hibernação da estação anterior. Quando sentimos que o nosso mergulho na interioridade já durou o suficiente; quando já temos saudades da luz e do calor e os dias começam a ficar progressivamente maiores e nos apetece criar, celebrar a vida, sair de casa, sair para o mundo, concretizar projectos; quando surgem ainda que vagas as primeiras promessas do vigor primaveril, a Deusa Menina voltou, ocupando o lugar da Anciã que reinou nos árduos meses do Inverno. Foi a Anciã, que mantendo ciosa o seu tempo de quietude, de vida inclusa, em que à superfície nada cresceu, que ajudou a morte a cumprir o seu papel de limpar e de preparar o terreno para o recomeço. Por isso o abutre, que limpa a carne putrefacta dos cadáveres dos animais que não resistiram aos rigores do inverno, é uma das aves sagradas de Ana, ou Dana, Deusa honrada entre nós no Yule, Senhora do Inverno. Sem o poder da Deusa Anciã, a guardiã das sementes, não há lugar para a nova vida.

Sabemos que na nossa tradição esta festa foi muito importante e ainda o é em alguns locais, embora a Igreja Católica tenha por vezes trocado as voltas e mudado as datas, como aconteceu na freguesia do Reguengo do Fetal, por exemplo, onde uma celebração nitidamente com características do Imbolc se celebra agora no princípio do mês de Outubro. Trata-se duma festa com uma procissão nocturna desfilando por ruas iluminadas por milhares de cascas de caracóis transformadas para a ocasião em candeias alimentadas a azeite. Sem dúvida uma tradição muitíssimo antiga com raízes pagãs porquanto a casca do caracol é um dos símbolos da Deusa do Inverno, da Senhora dos Ossos, sendo estes, à semelhança das cascas, símbolos de permanência, daquilo que é estrutural e essencial e que sobrevive à morte. A casca do caracol transformada agora em candeia, portadora da luz que ressurge, é perfeita para evocar e celebrar a metamorfose da Anciã em Menina.

Esta festividade, como tantas outras, foi cristianizada, transferida para o dia 2 de Fevereiro, tomando a designação de Candelária, ou Festa das Candeias, em inglês Candlemass, quando se benziam as velas. O seu sentido passou a estar associada à “purificação” de Nossa Senhora, presumindo-se que o parto a tornara impura, claro, bem como à apresentação de Jesus no templo. Antigas tradições pagãs persistiram, entretanto, na cultura popular, como os fritos, as filhoses fritas em azeite, e outras. Lembro-me de em minha casa a minha mãe fazer sempre neste dia a sua receita especial de filhoses alentejanas. Numa freguesia perto do local onde nasci, na Zona Centro, entretanto, foi hábito até mais ou menos ao final da primeira metade do século XX, fazer pequenos bolos fritos, as velhoses, expressamente para serem oferecidos às oliveiras, colocando-se um junto de cada uma das que se possuíam, como forma de agradecimento pela luz e pelo alimento recebidos durante o ano.

In A Deusa do Jardim das Hespérides: Desvelando a Dimensão Encoberta do Sagrado Feminino em Portugal, Zéfiro Editores

sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

Testemunho sobre Workshop VESTINDO A PELE DA ALMA - Experienciando o Poder Transformador do Vestuário

Mónica, de A Prateleira, dá aqui o seu testemunho sobre como foi ter participado neste trabalho que dinamizei em Novembro de 2020, na Ericeira, no espaço da Sacerdotisa Isabel Angélica:

"Quando eu li “vestindo a pele da alma – experienciando o poder transformador do vestuário – com realização de capa cerimonial”, sabia que tinha de fazer este workshop da Luiza Frazão.

Vibrei do princípio ao fim ❤ senti-me em casa.

Podem pensar, mas tu não sabias fazer uma capa? Claro, fazer uma capa sim, mas fazer uma capa num círculo feminino conduzido por uma sacerdotisa e à volta de um altar veio mostrar-me uma outra dimensão de ser a fazer, mesmo no momento em que eu estava pronta para a ver.

Abriu o meu olhar para o papel da roupa nas nossas vidas, como as roupas carregam energia, significado, simbologia. Como têm uma história há muito esquecida e como podemos aprofundar e recuperar esse conhecimento ancestral. Despertou a minha vontade para estudar e recuperar as tradições manuais da deusa, de fazer as peças que nos podem ajudar a conectar com ela, a fazer essa ponte entre mundos.


Foi ali que percebi que a costura podia ser sagrada, que juntar a deusa e a costura era possível.

Até ali às vezes perguntava-me se queria seguir um caminho ou o outro, mas esta é a magia da vida, cada um de nós faz o seu caminho juntando todas as coisas que nos apaixonam, todas as coisas que vivemos, aprendemos, experienciámos, e por isso os caminhos são únicos.

O meu atelier é agora um templo sagrado. Aho!"

Mónica

A Prateleira:  https://www.facebook.com/aprateleira.pt/

Ver publicação original com vídeo: https://fb.watch/2UaMs_OvsS/

 

 

 

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

YULE - SOLSTÍCIO DE INVERNO

 YULE, SOLSTÍCIO DE INVERNO

Fiquei surpreendida com o primeiro Yule, a celebração do Solstício do Inverno, vivido na energia da Roda do Ano de Avalon. Contrariamente ao que acontece na espiritualidade pagã em geral, aqui a ênfase não é dada exatamente ao nascimento do Sol, ao facto de a partir deste momento de menor duração da luz do Sol, ele começar a ficar cada vez mais tempo no céu, aumentando o tamanho do dia em relação ao da noite. Aqui, pelo contrário, e isso fez logo todo o sentido para mim, este é o momento de entrarmos mais fundo no inverno e no silêncio, na quietude que as desafiadoras condições atmosféricas exteriores impõem à nossa vida, e à vida em geral, levando-nos a hibernar, a procurarmos recursos no interior.

No exterior, na natureza, o despojamento continua com a desintegração de tudo aquilo que envelheceu e já não serve mais. A morte física sobrevém. A ação do vento, da neve e do gelo, da água que cai em abundância destrói o que ainda resta da estação anterior e os abutres precipitam-se agora sobre os cadáveres dos animais que pereceram, limpando-os de toda a carne, deixando apenas os ossos, símbolos daquilo que é essencial e imperecível, daquilo que resiste ao tempo.


Voltarmo-nos para dentro de nós e encontrarmos o caminho para as dimensões espirituais de entre vidas, conectando-nos com as e os ancestrais primordiais, que nas palavras de Kathy Jones, são “os seres de Fogo, Gelo, Água, Ar e Terra que criaram o maravilhoso mundo em que nós vivemos”, é uma forma extraordinária de atravessarmos esta estação. Honrarmos a sabedoria das anciãs e dos anciãos da nossa cultura; irmos mais fundo na compreensão da nossa linhagem, da nossa história enquanto alma individual, da da alma da família e do território onde nascemos; aprofundarmos a nossa espiritualidade, reconstruindo o nosso caminho até às estrelas de onde viemos, é algo de muito mágico, que nos leva a verdadeiramente sentirmos a nossa infinidade, a nossa imortalidade e a nossa profunda ligação com o vasto cosmos. A proposta nesta estação é então sentirmos o mundo do lado de dentro e olharmos para a nossa vida duma perspetiva mais elevada, considerando a nossa infinidade, a nossa imortalidade enquanto espírito, ligando-nos a quantas e a quantos nos precederam e tomando maior consciência da nossa história enquanto alma imortal.


Este é também o Tempo do Sonho, pois enquanto momento de hibernação, esta dimensão torna-se agora mais poderosa, em todas as suas vertentes, tanto do sonhar acordada ou acordado, como a da prática da visualização criativa, sonhando a vida como realmente a queremos, como ainda daquele sonhar que nos permite visitar outras realidades, outras linhas do tempo, ou vislumbrar conteúdos escondidos do nosso subconsciente. Manter um registo de sonhos é algo de muito importante sempre, mas em particular nesta altura do ano em que estamos tão recetivas a mensagens e insights de outras dimensões.


Aprofundar a nossa espiritualidade é também a proposta deste tempo de maior conexão com o cosmos, em que honramos Cale do Ar, a Mãe do Ar, Ana, Dana, a Senhora dos Ossos, a Senhora da Pedra, a Senhora do Inverno, a Senhora da Montanha, a Senhora das Estrelas, a Hespéride Germana, a Senhora do Pinheiro e a Moura Tecedeira, Aquela que tece o destino.

Do livro A Deusa do Jardim das Hespérides: Desvelando a Dimensão Encoberta do Sagrado Feminino em Portugal, Luiza Frazão

Conferência da Deusa Portugal 2026 Honrando Cale das Águas – Útero Sagrado da Criação

  A quarta edição da Conferência da Deusa Portugal realizou-se entre 8 e 10 de Maio, desta vez dedicada à Mãe das Águas. Por essa razão esco...