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segunda-feira, 18 de dezembro de 2023

Solstício de Inverno - A Luz e a Escuridão

Os festivais da Roda do Ano são chamados Festivais Solares porque sempre celebram o movimento da Terra à volta da nossa estrela, à volta do Sol. Mas a ênfase excessiva no Sol acaba por fazer esquecer a Terra, o facto de estarmos aqui, sendo nós parte dela. Na verdade ela é um ser sagrado, Gaia, e Natureza é um dos Seus muitos nomes. Os Seus processos de criação, entretanto, precisam da escuridão, foi na escuridão do útero da nossa mãe que fomos geradas e gerados. Diz-nos Carol P. Christ, no seu ensaio Podemos Celebrar a Escuridão, Podemos Dormir?, que esta ênfase na luz tem na verdade uma origem patriarcal. Na Religião da Velha Europa, investigada pela arqueóloga, ou arqueomitóloga, Marija Gimbutas, celebrava-se a Deusa como o poder da morte e da regeneração da vida. Essa espiritualidade era praticada por povos agrícolas, que compreendiam a importância da escuridão para que as sementes pudessem germinar. A escuridão e o frio eram condições indispensáveis para que na Primavera pudéssemos ter novas plantas. Esse tempo de pousio, de falta de luz, de noites maiores que ou tão grandes como os dias, são também alturas em que podemos repousar mais e melhor. Essa época, em que seres humanos e animais permanecem mais tempo no interior das suas casas ou tocas, hibernando, é o chamado Tempo do Sonho, propício à concepção de novas ideias e projectos, que depois ganharão forma no novo ciclo da criação. Reuniões familiares e convívio à volta da fogueira, partilhando cantigas e histórias também davam um encanto especial a estas longas noites de Inverno. Esse era um período muito importante para os povos agrícolas do passado.

Carol P. Christ lembra-nos, entretanto, que os indo-europeus invasores não eram um povo agrícola, eram pastores nómadas e cavaleiros, que celebravam os reluzentes Deuses do céu. Por conseguinte, estas duas formas de estar na vida e de ver o mundo, dos agricultores da Velha Europa e dos povos que os invadiram, nómadas e pastores, provocou um grande choque de culturas. O poder desses Deuses brilhantes do céu reflectia-se no brilho das suas armaduras e armas de bronze.

E então aconteceu que esses patriarcas "casaram" os seus Deuses celestes com as Deusas-Mães terrestres que conquistaram. Tratava-se de uniões desiguais, uma vez que o sol era visto como superior à terra. Um exemplo disso é o casamento de Zeus com Hera, na mitologia grega da época clássica. De Deusa independente e poderosa que era, esta antiga divindade cretense viu-se assim transformada numa megera atormentada pelo ciúme, desesperada e violenta, que em vão passava o seu tempo tentando remediar o resultado dos instintos de violador em série, de ninfas e de Deusas, que tinha por marido. As Deusas mais velhas, que recusaram essa violação e casamento, foram relegadas para as fendas escuras da terra, vistas como a entrada para o submundo. E estas entidades divinas ctónicas emergiam das profundezas da terra em fúria, causando morte e destruição.

Para os antigos europeus, as serpentes que saíam das fendas nas pedras na Primavera eram prenúncio de renovação e de regeneração. Tal como as sementes, estas dormiam num local escuro durante o Inverno, despertando na Primavera, quando despiam a velha pele e punham os seus ovos. O submundo era entendido como um lugar de transformação, e não, como se tornaria mais tarde, um lugar de morte e destruição. A serpente era esse símbolo de regeneração da vida e não um símbolo do mal. Segundo ainda Marija Gimbutas, o branco era a cor da morte na Velha Europa, já o preto era a cor da transformação e da renovação da vida. Enquanto estes povos viam a morte como uma etapa necessária do ciclo da vida, os indo-europeus invasores ensinaram-lhes que a morte é um fim a temer e que a luz deve ser reverenciada e a escuridão evitada a todo o custo. Foram eles que desenvolveram o binómio claro escuro em que este segundo é negativo. Os indo-europeus entraram na Índia e na Europa. A noção de iluminação encontrada no Hinduísmo e no Budismo é ainda, segundo Carol Christ, um legado do binómio claro-escuro. Este povo, entretanto, também era de pele mais clara do que a das gentes que conquistaram, e assim a dicotomia claro/escuro pôde ser usada para justificar o domínio dos guerreiros de pele mais clara. Esta valorização também está presente no enfoque na ideia da luz e do amor da Nova Era. As pessoas que seguem caminhos espirituais baseados na terra afirmam frequentemente que celebram a escuridão da mesma forma que a luz, mas aí, e concordo plenamente com a autora, não é bem assim, pois na verdade elas ainda estão presas à glorificação indo-europeia do branco e da luz. A prova disso é que, no meio do Inverno, regozijamo-nos com o regresso da luz, mas não nos regozijamos da mesma forma com o regresso das trevas no Solstício de Verão. Tanto num momento como no outro o que festejamos é a luz.

Mas como poderíamos nós celebrar a escuridão? Dormindo mais, reaprendendo que o ciclo da vida se divide em três partes, nascimento, morte e regeneração, não em dois, a vida e a morte, o preto e o branco, a escuridão e a luz. Poderíamos começar por ter uma boa noite de sono nestes longos períodos de trevas invernosas, como pede o nosso corpo, que nos ensina que a escuridão é realmente tão importante quanto a luz.

Então esta celebração de Santa Luzia, a 13 de Dezembro, antiga data do Solstício de Inverno, com as fogueiras em Sua honra que se ateiam e depois também na longa noite da actual data, deveria ter como contrapartida uma celebração da escuridão no Solstício de Verão, pois é então que começa o Inverno, com os dias começando lentamente a ficarem mais curtos. Mas a verdade é que parece que nós continuamos a cultivar entusiasticamente esta nossa herança patriarcal de desequilíbrio na valorização da luz em relação à escuridão.

Fonte de inspiração: Carol P. Christ

https://feminismandreligion.com/2022/11/21/legacy-of-carol-p-christ-can-we-celebrate-the-dark-can-we-sleep/

 

sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

LUZIA, antiga Deusa do Solstício de Inverno ainda cultuada em Portugal

 

O Solstício de Inverno é o tempo abençoado da Deusa Anciã, da Senhora dos Ossos, da Pedra, da Montanha e do Inverno. Senhora daquilo que sobrevem à morte, do que resta, do que é eterno e sem forma, do puro Espírito - respiração espiritual da terra, sopro vital, que no vazio do Inverno, quando a terra adormecida repousa e recobra forças para o novo ciclo, zela pela chama do Fogo da criação, sonhando com a nova vida.

É assim que a Deusa Anciã, como é celebrada neste festival, toma a Sua forma de Donzela para levar o Fogo para o interior, para que se mantenha em segurança e as brasas da lareira do coração da casa, da comunidade e de cada um e cada uma de nós não se apaguem durante a longa travessia do Inverno. Na verdade, em várias partes do Hemisfério Norte, Ela é celebrada como Luzia, ou Lúcia, que a igreja cristã reduziu à condição de santa, na noite de 12 para 13 de Dezembro, a antiga data do Solstício de Inverno, segundo o calendário Juliano, que perdurou desde 46 da nossa era até 1582, ano em que foi substituído por outro, o gregoriano, imposto pelo papa Gregório XIII.

Em Portugal, Luzia também é celebrada em muitos lugares nessa noite, com fogueiras e convívio animado, que implica partilha de alimentos, música e dança. Devo dizer que tive no ano de 2021 o privilégio de ir pela primeira vez a essa celebração deliciosa, em Usseira de Óbidos, que tão profundamente aqueceu o meu coração e avivou o meu espírito e o meu sentimento de integração na comunidade, quando precisamente ainda estávamos a viver a quarentena.


O nome desta divindade, Luzia, ou Lúcia, deriva de lux, que é luz em Latim, e os Seus poderes compreendem o de proteger a visão. Consta do Seu lendário que parte do martírio a que foi sujeita consistiu em lhe serem arrancados os olhos. Se interpretarmos esta história à luz dos Seus divinos poderes pagãos arcaicos, percebemos que a mensagem coincide com a proposta deste tempo de interiorização, de hibernação, quando a visão mais importante é a interna e não a externa.

Em outra lenda, Luzia usa uma coroa de velas acesas sobre a cabeça, o que lhe permite ter as mãos mais livres para transportar alimentos, quando penetra nas catacumbas romanas para dar assistência a quem aí terá sido obrigada/o a refugiar-se. A memória dessa coroa de velas torna-se patente nas belas procissões de Santa Luzia, que todos os anos se realizam nesta data nos países nórdicos.

Ela é assim a Deusa Anciã, no Seu avatar de Donzela, que leva a luz para o inframundo do Inverno profundo, guiando-nos nestes tempos sombrios, abrindo a nossa visão interna, iluminando o que é realmente importante, alimentando com a Sua sabedoria essa chama, trazendo-nos insights e inspirando-nos neste tempo de sonharmos a nossa vida como a queremos. Aí, o Seu poder ilumina as sombras da melancolia, do pessimismo, do isolamento, da depressão. Para que essas sombras não se apoderem da nossa alma, nem da alma da comunidade. Saímos de casa nessa noite para o largo da nossa “aldeia”, e acendemos-Lhe fogueiras, em gratidão, a essa Deusa que sabemos que vela pelo nosso fogo interno, pela nossa esperança nela, que incuba a preciosa chama da vida e a vai manter protegida até retornar como a Sua própria Donzela pelo Imbolc.

 Nas brasas desse fogo nos aquecermos, bem como na chama do calor humano que todas e todos geramos nessas ocasiões abençoadas, em profunda alegria e confiança por estamos juntas e juntos e podermos contar uns e umas com as outras na longa e penosa travessia da estação fria e nocturna, sabendo que se alguma chama se extinguir, em outras se poderá reacender.

 A celebração do Natal é herdeira destas tradições do Solstício e em muitos lugares também se acende nessa noite e pela do Ano Novo, no centro da aldeia, o tronco natalício, ou o madeiro do Natal.

 Peçamos então à Deusa Anciã do Inverno, Mãe do Ar, que com o Seu sopro mantém acesas as brasas do fogo da nossa alma, que nos traga a Sua sabedoria para podermos de novo regressar ao alinhamento com o significado mais genuíno destas celebrações do Inverno, libertando-as das garras do consumismo. 

 Conectadas antes de mais com a nossa alma, com o profundo amor e sabedoria da Deusa em nós, é possível reencontrarmos o mais puro sentido destas festividades na essência pagãs, e sentirmos o prazer e a alegria de simplesmente estarmos juntas e juntos, no aconchego do calor do nosso fogo partilhado. Quer estejamos em família, quer não, o segredo é sentirmo-nos conectadas e conectados ao nível da alma com a Grande Família Humana e com a intensa corrente de amor que todos e todas juntas conseguimos gerar.

 Acredito que estes são tesouros da Anciã do Inverno, escondidos no nosso interior, na secreta natureza do Inverno, com essa magia a que apenas se acede no silêncio e na quietude, onde recebermos o sopro da Vida que chega até nós no Seu Ar em movimento, trazendo-nos sussurros e insights de outras dimensões, conexão com o Espírito eterno, que no vazio e na escuridão, sonha, desenha e prepara o surgimento da nova Vida, quando, pelo Imbolc, a Luz regressar do inframundo. Abençoada.

©Luiza Frazão 

Imagens:

1. Celebração de Santa Luzia, Usseira de Óbidos, 2021

2. Santa Luzia, Santa Maria da Feira

terça-feira, 20 de dezembro de 2022

Celebrando Yule, o Solstício de Inverno

 Esta época em que mergulhamos no Inverno profundo representa um momento de pausa e reflexão, de desaceleração e repouso, para estrarmos em sintonia com a natureza da qual somos parte. É tempo de deixar ir tudo aquilo que está velho em nós, que já deu o seu fruto e que já não tem razão para existir na nossa vida. Deixemos que tudo isso se decomponha, entre em compostagem, para servir de nutriente à nova criação, com a qual somos convidadas e convidados agora a sonhar.

Esta época de dias curtos e noites longas, de escuridão, é propícia a uma avaliação do vivido no ciclo anterior, para entendermos o que deu certo e o que correu menos bem, o que na próxima volta da roda da vida pode ser corrigido, revisto, feito de outra maneira, melhorado.
A proposta é para que aprofundemos também a nossa relação com a natureza, que no Inverno é muito mais mágica. Apesar de tudo o que está apodrecido, envelhecido, húmido, há tanta beleza nesses fungos que transmutam matérias putrefactas, nos galhos secos caídos, nas formas, nas ervas que persistem, viçosas, aromáticas, ancestrais e sagradas, parte da nossa herança, associadas a crenças, a lendas e mitos, que nos dão cura e alimento, que seria uma perda muito grande não usufruirmos dela.

Este é um tempo em que caminhar pelos campos frios, cobertos de brumas e geada, sentindo o vento cortante da época, observando as teias de aranha, essa opulenta tapeçaria belamente entretecida pela Grande Tecedeira, é para mim parte integrante do encanto da estação. Passar pelos meses do Inverno sem ter frequentado o campo e caminhado pela paisagem não faz sentido para mim; porque a beleza do Inverno é tão delicada e subtil, menos óbvia do que a das outras estações, ela exige de nós outra atenção às pequenas coisas, ao rendilhado das teias, do musgo, dos fungos, às formas dos galhos nus retorcidos, das folhas caídas pelo chão já em avançado estado de decomposição, às águas que escorrem pelas terras, pelas encostas, onde se abrem regatos, pelos vales por onde serpenteiam ribeiras a transbordar. É impossível mantermo-nos tristes ou deprimidas quando podemos caminhar pela natureza, ouvir os sons do vento, das criaturas dos ares, das águas, observar as inúmeras plantas e o estado em que estão, umas decompondo-se, outras permanecendo vivazes, outras florescendo até, abrindo para o sol breve dos dias as suas pequeninas flores amarelas, como as Azedas e a Calêndula, ou violeta como a Pervinca das Feiticeiras.

Tempo de interiorização que nos convida também a uma relação diferente com a nossa comunidade, mau grado a estridência gerada pelo comércio, pelo consumismo do Natal. Mas aqui ganha-se em intimidade, em conexão ao nível da alma. Sabemos que a pessoa está lá, que podemos contar com ela e isso basta muitas vezes. Tempo muito propício para conhecermos mais profundamente as histórias da nossa família, da nossa ancestralidade, da nossa linhagem e da do nosso território e cultura. Com a vida mais inclusa, tudo ganha em serenidade e profundidade e sentimos as correntes mais subtis de energia que nos conectam e a teia subtil que liga todos os seres. É também boa altura para termos revelações e para isso o desafio é estarmos mais presentes para o que é, a fim de podermos aceder a outras dimensões do conhecimento.

Nesta estação, é possível, por exemplo, ficarmos a conhecer aquilo que até aí era secreto ou estava velado. Desconhecia por exemplo, que a cidade junto da qual vivo e que amo do fundo do coração, Caldas da Rainha, famosa pela sua cerâmica, teve como pioneira na divulgação e comercialização destas peças uma mulher nascida no final do século XVIII, que ficou conhecida como Maria dos Cacos, a primeira empresária da cerâmica.* Este é um tipo de informação que acrescenta à alma da cidade e faz sentido ter chegado até mim precisamente num mês de Dezembro, e possivelmente neste mais do que em qualquer dos anteriores, uma vez que frequento esta cidade há mais de quarenta anos. A verdade é que foi este ano e em mais nenhum outro que a celebração de Yule do Templo aconteceu aí. Mas trata-se apenas dum exemplo entre os vários que poderia referir ao nível de informações que chegaram até ao meu conhecimento nas húmidas profundezas do Inverno...

Yule também nos convida a uma reflexão sobre os desafios com que nos deparámos por altura dos dois últimos eclipses, no final de Outubro e no princípio de Novembro, e é possível que mais alguns se apresentem agora, ajudando-nos a entender o que está em causa e o que devemos reciclar ou ressignificar, para crescermos como seres humanos.

Reflectir sobre o tipo de alimento por que anseia a nossa alma, sobre aquilo que a nutre, as actividades, as ideias, as crenças, as pessoas que a expandem e como é que as nossas escolhas de vida podem estar mais alinhadas com a essência de quem somos também são propostas deste templo de silêncio e quietude.

Esta é então uma pausa muito sagrada da terra, entre dois ciclos da criação, que devemos respeitar também em nós, como parte que somos da natureza.
CINCO PROPOSTAS DE ACTIVIDADES DE YULE

1.Escolhe um dia para caminhares pela natureza secreta do Inverno, um passeio de preferência solitário para melhor poderes sentir a terra e os elementos, meditando sobre os processos da natureza, sobre a forma como o ciclo da criação termina, como a terra se liberta do velho, como os destroços entram em decomposição, são destruídos, dissolvidos e absorvidos, para servirem de nutrientes à nova criação. Sente como a terra toma o seu tempo para repousar, para conceber a nova criação, e escuta as suas mensagens de sabedoria.

2. Faz uma doação de alimentos a um banco alimentar ou a alguma instituição de solidariedade social, honrando a tradição de solidariedade e de partilha que permitiu às e aos nossos antepassados sobreviverem aos rigores da estação em que a terra descansa e nada produz.

3. Prepara a celebração de Natal em conexão com a tua Criança Interior, preferindo elementos naturais e significativos para ti, recorrendo à tua criatividade para melhor desfrutares dos encantos da simplicidade, evitando o mais possível o consumismo que destrói matérias primas, cria lixo e polui a natureza.

4. Liberta-te de itens da tua casa arrumados há muito tempo por falta de préstimo, deixando que outras pessoas lhes encontrem utilidade.

5. Pesquisa sobre e cria um Mapa do Tesouro para o próximo ano.


quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

YULE - SOLSTÍCIO DE INVERNO

 YULE, SOLSTÍCIO DE INVERNO

Fiquei surpreendida com o primeiro Yule, a celebração do Solstício do Inverno, vivido na energia da Roda do Ano de Avalon. Contrariamente ao que acontece na espiritualidade pagã em geral, aqui a ênfase não é dada exatamente ao nascimento do Sol, ao facto de a partir deste momento de menor duração da luz do Sol, ele começar a ficar cada vez mais tempo no céu, aumentando o tamanho do dia em relação ao da noite. Aqui, pelo contrário, e isso fez logo todo o sentido para mim, este é o momento de entrarmos mais fundo no inverno e no silêncio, na quietude que as desafiadoras condições atmosféricas exteriores impõem à nossa vida, e à vida em geral, levando-nos a hibernar, a procurarmos recursos no interior.

No exterior, na natureza, o despojamento continua com a desintegração de tudo aquilo que envelheceu e já não serve mais. A morte física sobrevém. A ação do vento, da neve e do gelo, da água que cai em abundância destrói o que ainda resta da estação anterior e os abutres precipitam-se agora sobre os cadáveres dos animais que pereceram, limpando-os de toda a carne, deixando apenas os ossos, símbolos daquilo que é essencial e imperecível, daquilo que resiste ao tempo.


Voltarmo-nos para dentro de nós e encontrarmos o caminho para as dimensões espirituais de entre vidas, conectando-nos com as e os ancestrais primordiais, que nas palavras de Kathy Jones, são “os seres de Fogo, Gelo, Água, Ar e Terra que criaram o maravilhoso mundo em que nós vivemos”, é uma forma extraordinária de atravessarmos esta estação. Honrarmos a sabedoria das anciãs e dos anciãos da nossa cultura; irmos mais fundo na compreensão da nossa linhagem, da nossa história enquanto alma individual, da da alma da família e do território onde nascemos; aprofundarmos a nossa espiritualidade, reconstruindo o nosso caminho até às estrelas de onde viemos, é algo de muito mágico, que nos leva a verdadeiramente sentirmos a nossa infinidade, a nossa imortalidade e a nossa profunda ligação com o vasto cosmos. A proposta nesta estação é então sentirmos o mundo do lado de dentro e olharmos para a nossa vida duma perspetiva mais elevada, considerando a nossa infinidade, a nossa imortalidade enquanto espírito, ligando-nos a quantas e a quantos nos precederam e tomando maior consciência da nossa história enquanto alma imortal.


Este é também o Tempo do Sonho, pois enquanto momento de hibernação, esta dimensão torna-se agora mais poderosa, em todas as suas vertentes, tanto do sonhar acordada ou acordado, como a da prática da visualização criativa, sonhando a vida como realmente a queremos, como ainda daquele sonhar que nos permite visitar outras realidades, outras linhas do tempo, ou vislumbrar conteúdos escondidos do nosso subconsciente. Manter um registo de sonhos é algo de muito importante sempre, mas em particular nesta altura do ano em que estamos tão recetivas a mensagens e insights de outras dimensões.


Aprofundar a nossa espiritualidade é também a proposta deste tempo de maior conexão com o cosmos, em que honramos Cale do Ar, a Mãe do Ar, Ana, Dana, a Senhora dos Ossos, a Senhora da Pedra, a Senhora do Inverno, a Senhora da Montanha, a Senhora das Estrelas, a Hespéride Germana, a Senhora do Pinheiro e a Moura Tecedeira, Aquela que tece o destino.

Do livro A Deusa do Jardim das Hespérides: Desvelando a Dimensão Encoberta do Sagrado Feminino em Portugal, Luiza Frazão

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

Glorioso e abençoado Solstício de Inverno!


Que Cale do Ar nos traga os dons da quietude, do silêncio e da interiorização neste tempo de pousio em que a terra sonha com a nova vida e a Grande Tecedeira entrelaça mais uma vez os fios da Teia da Vida. Que o Seu vento forte limpe a nossa mente de pensamentos obsessivos que não nos servem mais e nos traga clareza para que novas ideias, novos sonhos e projetos, novas formas de estar na vida possam surgir e motivar-nos no nosso caminho. Que as Suas aves nos inspirem a voar mais alto, a sonhar cada dia com mais e mais liberdade, visão e expansão...

E que a magia deste tempo nos ajude a conectar com a sabedoria antiga, local e planetária, e a receber os seus dons que mais profundamente nos ligam à Vida em todas as suas dimensões, física e não física, terrena e cósmica. 



Acredito que, neste tempo do Espírito, essa sabedoria, se a ela nos abrirmos, sempre fica mais acessível... encontramos sempre algum Ancião ou Anciã sábia e inspiradora que nos conecta mais profundamente com a Alma do Mundo... como este ano as Babushkas de Buranova… Abençoadas! 

Conferência da Deusa Portugal 2026 Honrando Cale das Águas – Útero Sagrado da Criação

  A quarta edição da Conferência da Deusa Portugal realizou-se entre 8 e 10 de Maio, desta vez dedicada à Mãe das Águas. Por essa razão esco...