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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Deusas das Águas - Tétis, Senhora do Mar

 Série especialmente dedicada às nossas Deusas das Águas, tema da Conferência da Deusa Portugal 2026

Tétis é a nossa Deusa do Mar, como nos lembra Dalila Pereira da Costa: “Tétis, a deusa que anteriormente tinha reinado nesse mundo marinho, embora com outro nome, antes do deus pai e dos deuses olímpicos. Desse mundo marinho primitivo, cenas haverá na epopeia camoniana que nos trarão das suas mais maravilhosas e potentes visões em toda a poesia ocidental moderna…”

In Raízes Arcaicas da Epopeia Portuguesa e Camoniana, Dalila Pereira da Costa,

Tétis encarna um mundo marinho arcaico, anterior à ordem estritamente olímpica, patriarcal, ligado ao caos fecundo, à origem da vida e ao fluxo do cosmos. Ela é a Deusa Mãe primordial do mar de onde viemos, a antiga Deusa Grega Tiamat: “Tétis é uma Deusa muito arcaica, de nome primitivo e simples, que parece ter sido de facto a equivalente de Ti-ama-at. Se retirarmos o “ama”, que não é senão Mãe, ficamos com: Te-at > Te-te(is), Deusa dos Deuses, a transliteração grega de Tiamat, que é uma Deusa das mitologias babilónica, suméria e hebraica” (Artur Felisberto, Blogue Numância)

Tétis está ligada a essa memória primordial, oceânica, iniciática. O mar de Tétis é anterior à ordem, como matriz de tudo o que nasce. Ela é o útero do mundo, o mar enquanto princípio gerador.

Tétis pode aparecer na Sua zoofania de serpente ou dragão do mar; o carácter ondulante, transformador e submerso da Sua presença evoca a Sua essência dracónica ou serpentina, fluida, invisível e poderosa, como o fluxo da água e da energia vital, como a força primordial geradora do mundo, dispensadora de proteção e sabedoria.



Imagens:

1.     Restos de mosaico de Antioquia, Wikipedia

2.     Mosaico do século IV encontrado em Philipopolis (atual Chahba, Síria)

 ©Luiza Frazão

 

 

 


segunda-feira, 18 de dezembro de 2023

Solstício de Inverno - A Luz e a Escuridão

Os festivais da Roda do Ano são chamados Festivais Solares porque sempre celebram o movimento da Terra à volta da nossa estrela, à volta do Sol. Mas a ênfase excessiva no Sol acaba por fazer esquecer a Terra, o facto de estarmos aqui, sendo nós parte dela. Na verdade ela é um ser sagrado, Gaia, e Natureza é um dos Seus muitos nomes. Os Seus processos de criação, entretanto, precisam da escuridão, foi na escuridão do útero da nossa mãe que fomos geradas e gerados. Diz-nos Carol P. Christ, no seu ensaio Podemos Celebrar a Escuridão, Podemos Dormir?, que esta ênfase na luz tem na verdade uma origem patriarcal. Na Religião da Velha Europa, investigada pela arqueóloga, ou arqueomitóloga, Marija Gimbutas, celebrava-se a Deusa como o poder da morte e da regeneração da vida. Essa espiritualidade era praticada por povos agrícolas, que compreendiam a importância da escuridão para que as sementes pudessem germinar. A escuridão e o frio eram condições indispensáveis para que na Primavera pudéssemos ter novas plantas. Esse tempo de pousio, de falta de luz, de noites maiores que ou tão grandes como os dias, são também alturas em que podemos repousar mais e melhor. Essa época, em que seres humanos e animais permanecem mais tempo no interior das suas casas ou tocas, hibernando, é o chamado Tempo do Sonho, propício à concepção de novas ideias e projectos, que depois ganharão forma no novo ciclo da criação. Reuniões familiares e convívio à volta da fogueira, partilhando cantigas e histórias também davam um encanto especial a estas longas noites de Inverno. Esse era um período muito importante para os povos agrícolas do passado.

Carol P. Christ lembra-nos, entretanto, que os indo-europeus invasores não eram um povo agrícola, eram pastores nómadas e cavaleiros, que celebravam os reluzentes Deuses do céu. Por conseguinte, estas duas formas de estar na vida e de ver o mundo, dos agricultores da Velha Europa e dos povos que os invadiram, nómadas e pastores, provocou um grande choque de culturas. O poder desses Deuses brilhantes do céu reflectia-se no brilho das suas armaduras e armas de bronze.

E então aconteceu que esses patriarcas "casaram" os seus Deuses celestes com as Deusas-Mães terrestres que conquistaram. Tratava-se de uniões desiguais, uma vez que o sol era visto como superior à terra. Um exemplo disso é o casamento de Zeus com Hera, na mitologia grega da época clássica. De Deusa independente e poderosa que era, esta antiga divindade cretense viu-se assim transformada numa megera atormentada pelo ciúme, desesperada e violenta, que em vão passava o seu tempo tentando remediar o resultado dos instintos de violador em série, de ninfas e de Deusas, que tinha por marido. As Deusas mais velhas, que recusaram essa violação e casamento, foram relegadas para as fendas escuras da terra, vistas como a entrada para o submundo. E estas entidades divinas ctónicas emergiam das profundezas da terra em fúria, causando morte e destruição.

Para os antigos europeus, as serpentes que saíam das fendas nas pedras na Primavera eram prenúncio de renovação e de regeneração. Tal como as sementes, estas dormiam num local escuro durante o Inverno, despertando na Primavera, quando despiam a velha pele e punham os seus ovos. O submundo era entendido como um lugar de transformação, e não, como se tornaria mais tarde, um lugar de morte e destruição. A serpente era esse símbolo de regeneração da vida e não um símbolo do mal. Segundo ainda Marija Gimbutas, o branco era a cor da morte na Velha Europa, já o preto era a cor da transformação e da renovação da vida. Enquanto estes povos viam a morte como uma etapa necessária do ciclo da vida, os indo-europeus invasores ensinaram-lhes que a morte é um fim a temer e que a luz deve ser reverenciada e a escuridão evitada a todo o custo. Foram eles que desenvolveram o binómio claro escuro em que este segundo é negativo. Os indo-europeus entraram na Índia e na Europa. A noção de iluminação encontrada no Hinduísmo e no Budismo é ainda, segundo Carol Christ, um legado do binómio claro-escuro. Este povo, entretanto, também era de pele mais clara do que a das gentes que conquistaram, e assim a dicotomia claro/escuro pôde ser usada para justificar o domínio dos guerreiros de pele mais clara. Esta valorização também está presente no enfoque na ideia da luz e do amor da Nova Era. As pessoas que seguem caminhos espirituais baseados na terra afirmam frequentemente que celebram a escuridão da mesma forma que a luz, mas aí, e concordo plenamente com a autora, não é bem assim, pois na verdade elas ainda estão presas à glorificação indo-europeia do branco e da luz. A prova disso é que, no meio do Inverno, regozijamo-nos com o regresso da luz, mas não nos regozijamos da mesma forma com o regresso das trevas no Solstício de Verão. Tanto num momento como no outro o que festejamos é a luz.

Mas como poderíamos nós celebrar a escuridão? Dormindo mais, reaprendendo que o ciclo da vida se divide em três partes, nascimento, morte e regeneração, não em dois, a vida e a morte, o preto e o branco, a escuridão e a luz. Poderíamos começar por ter uma boa noite de sono nestes longos períodos de trevas invernosas, como pede o nosso corpo, que nos ensina que a escuridão é realmente tão importante quanto a luz.

Então esta celebração de Santa Luzia, a 13 de Dezembro, antiga data do Solstício de Inverno, com as fogueiras em Sua honra que se ateiam e depois também na longa noite da actual data, deveria ter como contrapartida uma celebração da escuridão no Solstício de Verão, pois é então que começa o Inverno, com os dias começando lentamente a ficarem mais curtos. Mas a verdade é que parece que nós continuamos a cultivar entusiasticamente esta nossa herança patriarcal de desequilíbrio na valorização da luz em relação à escuridão.

Fonte de inspiração: Carol P. Christ

https://feminismandreligion.com/2022/11/21/legacy-of-carol-p-christ-can-we-celebrate-the-dark-can-we-sleep/

 

quinta-feira, 2 de novembro de 2023

HONRANDO A DEUSA NEGRA - Kathy Jones

 

Wendy Andrew
Samhain é o tempo de honrar a Deusa Negra. Não é necessariamente o tempo de A encontrarmos face a face, mas é um momento em que tomamos consciência da Sua poderosa existência. Podemos ter a certeza de que na nossa jornada para nos tornarmos sacerdotisas vamos enfrentá-la e possivelmente mais de uma vez. Ela vai desafiar-nos com eventos e circunstâncias que nos poderão parecer demasiado difíceis de suportar. Ela vai levar-nos até ao fundo da Sua gruta no interior da terra. Ela vai mostrar-nos a Sua face terrível. O Seu amor poderoso vai revelar as coisas que escondemos, que encobrimos no nosso passado por serem demasiado chocantes e doerem demais. Ela vai deixar-nos sozinhas na sua cave, e vamo-nos sentir abandonadas por Ela e por todas as pessoas à nossa volta. Podemos permanecer aí por algum tempo, algumas semanas, meses ou anos. Até que subitamente um dia Ela vai regressar com todo o Seu amor, revelando toda a beleza que jaz escondida na escuridão do inframundo. Compreenderemos então o que nos aconteceu e como isso nos transformou no melhor sentido e o nosso coração enche-se de gratidão pelo seu aparecimento nas nossas vidas.

A espiritualidade da Deusa é uma experiência de completude, de altos e baixos. A Deusa abrange tanto a criação como a destruição, positivo e negativo, tal como está expresso no símbolo chinês do yin e do yang que descreve o contínuo equilíbrio entre os opostos. Ela é a vida e o tempo da abundância estival, mas também a morte e a decadência do outono. Ao morrerem, as plantas caem à terra formando o escuro composto no qual a vida germinará uma vez mais na primavera. Ao contrário das religiões patriarcais que focam a sua adoração na Luz, sublimando a Escuridão, demonizando tudo o que não é Luz, associando-o ao mal. A espiritualidade da Deusa tanto abrange a Luz como a Escuridão, considerando cada uma destas qualidades como essencial para a existência da outra.


No mundo natural, que é um espelho no qual a natureza da Deusa se torna visível, toda a vida nasce da escuridão, a escuridão da terra, do útero, da noite. Não existe regeneração sem escuridão, renascimento sem morte. Todos os belos cristais do mundo são criados na escuridão do interior da terra. Toda a vida animal e humana é gerada na escuridão do útero da mãe. Sentimos regeneradas a cada manhã após as horas de escuridão em que fechámos os olhos à luz e dormimos. O nosso mundo move-se para a escuridão ao cair da noite e renova-se a cada manhã pela ação dos raios solares. A escuridão traz repouso e renovação. Esquecemo-nos destas verdades tentando anular a escuridão com as nossa iluminação elétrica continuando a luz pela noite dentro, focando-nos na luz nos nossos esforços para ignorarmos a nossa própria escuridão.

A Deusa Negra é uma iniciadora e uma “embusteira”. Ela inicia o novo muitas vezes com algum truque, embuste ou algo que se apresenta como uma má ação. Ela é a Velha e habitualmente hedionda bruxa que aparece nos contos de fadas, oferecendo uma maçã muito bela e vermelha  mas envenenada, que inicia as raparigas que se transformam em mulheres. Ela é a Madrasta Malvada, que trama a nossa desgraça e nos ensina a lidar com as emoções alheias assim como com as nossas para que possamos crescer e entrar na idade adulta. Ela é a Velha Bruxa medonha que pode lançar sobre nós os Seus feitiços por cem anos ou mais.


[…]

 O encontro com a Face Negra da Deusa é uma parte vital da nossa jornada para nos tornarmos Sacerdotisas. Ela vai levar-nos até às Suas profundidades, ao encontro dos nossos medos mais obscuros e das nossas dores mais recônditas. Temos de aprender a estacionar nesses lugares onde a verdadeira transformação ocorre, nas profundidades da nossa parte sombra. Pessoalmente, tive alguma resistência em aceitar que as mais completas transformações resultam da ação do sofrimento. Protestei contra Ela. Por que não pode tudo isto ser mais fácil? Por que é que a transformação não pode acontecer na alegria? Bem, também pode acontecer, há muitas transformações que ocorrem pela ação da Luz, mas muitas e muitos de nós nestes tempos temos grandes dilemas internos para resolver. Vivemos em duras e desoladas paisagens urbanas, experienciamos o deserto emocional nas nossas vidas, falhamos terrivelmente segundo os nossos próprios critérios, que importam os das outras pessoas, antes de sermos forçadas das profundidades da nossa dor a mudar de direção, a renascer, a encontrar a verdadeira vida.

A nossa resistência à mudança, o nosso teimoso apego, quando deveríamos deixar ir aquilo que achamos que somos, é um sinal da nossa força interior trabalhando contra nós em vez de a nosso favor. A nossa desesperada necessidade de sobreviver a todo o custo é instintiva e autoprotetora, mas está lá para ser adoçada pela Sua amorosa e constante presença, forçando-nos a enfrentar o âmago da nossa própria sombra. A Deusa Negra pede-nos rendição aos Seus poderes de transformação.

Como Sacerdotisas da Deusa temos de conhecer todas estas experiências desde o nosso íntimo, desde o âmago do nosso próprio corpo, emoções e alma, para entendermos quão espantosas são as Suas transformações, quanto é grande o Seu amor por nós, quão sábia Ela é. Também é importante termos passado por tudo isto para podermos entrar em empatia com quem faz a sua jornada com a Deusa Negra, para que nos possamos sentar com essas pessoas, com elas inspirando e expirando na obscuridade, com elas gemendo os seus lamentos, entrando em empatia com o seu sofrimento.

A presença da Deusa Negra estimula os nossos medos e dores, mortes e perdas, estimulando a nossa jornada rumo à mudança. Ela traz-nos tragédia, traição e perda da confiança. Ela ensina discriminação, discernimento e a natureza da criatividade. Ela ajuda-nos a fortalecer a nossa resolução interna de seguir o caminho da alma. Acima de tudo, Ela ensina-nos a sentir compaixão por nós mesmas e por todas as pessoas em sofrimento.

ENCARANDO A SOMBRA

Na nossa formação de sacerdotisas a Senhora Negra irá colocar-nos face a face com aspetos da nossa sombra que estão fora do alcance da nossa mente consciente por serem demasiado penosos e duros de recordar. Isso inclui memórias acidentes traumáticos, de abuso, maus-tratos, raiva, tanto sentida por nós por alguém como sentida por alguém em relação a nós, vergonha, dor, culpa, mágoa. Estas memórias podem estar escondidas, mas isso não significa que não mais nos afetam. O nosso comportamento é determinado tanto pelas nossas intenções conscientes como pela necessidade de protegermos estes nossos aspetos Sombra. A nossa jornada de sacerdotisas vai acabar por trazer à superfície estas memórias dolorosas do nosso inconsciente para serem curadas e melhor podermos aceder ao nosso verdadeiro eu.

À medida que estas memórias esquecidas podem começar a surgir, por vezes pela primeira vez desde há muitos anos, as emoções dolorosas a elas associadas são muitas vezes projetadas sobre outras pessoas, tutoras, tutores, colegas, familiares e pessoas amigas, quem quer que na altura estiver por perto. Recriamos os cenários dolorosos do nosso passado, dando-lhe novas formas, e projetamos os nossos sentimentos inaceitáveis sobre outras pessoas. A vida torna-se desafiadora quando exprimimos as nossas emoções recalcadas de forma não apropriada, projetando-as em pessoas que não as causaram mas que estão agora a pressionar esse botão. Na nossa jornada sacerdotal aprendemos a autorreflexão, bem como a tomar consciência daquilo que está a acontecer connosco quando nos encontramos em conflito com pessoas à nossa volta, quando criticamos, culpamos e atacamos outras pessoas projetando nelas a nossa Sombra.

Em si mesmo, o treino duma sacerdotisa é principalmente uma jornada cerimonial, que desperta e desenvolve a aspiração espiritual, criatividade e conexão com a Deusa. Não se trata de psicoterapia, embora seja um catalisador de mudança em todos os aspetos da personalidade à medida que nos abrimos à Deusa e nos sentimos mais autoconscientes e empoderadas. Podemos tomar consciência de feridas que precisam de cura e precisamos de contar com isso.

In Priestess of Avalon, Priestess of the Goddess, Kathy Jones


sexta-feira, 13 de outubro de 2023

Senhora das Flores - uma das Faces da Deusa de Beltane

Sabias que uma das invocações da face da Deusa de Beltane é Senhora das Flores?

As flores são, como sabes, os órgãos sexuais das plantas, puras manifestações da beleza e sabedoria divinas e têm um grande poder, magia e capacidade de cura para nos oferecerem. Como nos diz a autora do livro A Magia das Flores, Tess Whitehurst, elas situam-se na fronteira entre o visível e o invisível, mais perto do reino etérico da energia pura e por isso permitem-nos ver o coração da verdade. Se nos sintonizarmos com as suas vibrações únicas, podemos melhorar muito a nossa saúde e vitalidade, poder e sucesso pessoal. Temos a aromaterapia e os florais de Bach, por exemplo, para o atestarem.

Na verdade elas tanto podem servir como terapeutas como como perfeitas e maravilhosas emissárias do poder da Deusa, por isso a Senhora das Flores é tão importante e será honrada na nossa Conferência da Deusa, entre 10 e 12 de Maio de 2024.

Sem dúvida que quanto mais reconhecemos este poder inefável das flores mais paz e harmonia e alma trazemos ao mundo.

Na nossa cultura existe uma rainha que realizou o célebre Milagre das Rosas. Foi Isabel de Aragão, mais conhecida como a Rainha Santa Isabel (1270-1336), mas parece que outras santas e rainhas realizaram o mesmo, inclusive uma sua tia na Hungria.

Seja como for, desta história existe uma parte que não parece ser vista nem interessar: a proibição do Rei, em relação à Rainha, de esta exercer a caridade. Esta foi a real causa do milagre: esconder do Rei, no caso Dinis, as suas acções em prol das pessoas pobres e esfomeadas, já que o que ela transformou em rosas foi o próprio pão que lhes mataria a fome naquele dia… Esta é a parte do milagre que não se conta, mas que deveria causar-nos indignação, é que, mesmo sendo Isabel de Aragão rainha, e por isso mesmo possuidora de riqueza própria, ela não podia fazer o que queria com o seu dinheiro…

As flores têm destas coisas, um lado sombra… Muitas vezes também são conectadas com futilidade, superficialidade, vaidade, ou desempoderamento… Invocando aspectos sombra do feminino que podem levar-nos até à própria história da Deusa celta Blodeuwedd, a Deusa feita de flores… um pouco como Eva foi feita para Adão… Só que Blodeuwedd se libertou ao apaixonar-se pelo eleito do seu coração… Foi entretanto amaldiçoada até as mulheres da Deusa se terem identificado com o seu destino e reconhecido o seu antigo poder quando se transformou numa coruja, ou mocho, qualquer uma delas muito sagrada da Deusa…

Em Portugal, existem templos cristãos à Senhora das Flores em, pelo menos, Travanca e em Oliveira de Azeméis.

 

 Imagens: Milagre das Rosas, pintor André Gonçalves, 1735

Deusa Blodeuwedd

 

domingo, 6 de agosto de 2023

CONFERÊNCIA DA DEUSA PORTUGAL - o que é, quem promove e coordena, visão e propósito...

 

O QUE É?

Evento de carácter cultural, espiritual e devocional, com abrangência nacional e internacional, bilingue – língua portuguesa e inglesa –, cujas actividades decorrem essencialmente em espaço fechado, podendo estender-se ao exterior.

ORGANIZAÇÃO E COORDENAÇÃO

A organização está a cargo da Associação Cultural Jardim das Hespérides, sediada em Óbidos, cuja direcção é presidida por Maria Luiza Oliveira Frazão, coordenadora geral das actividades da Conferência.

VISÃO E PROPÓSITO?

Este projecto visa essencialmente o resgate do culto pré-cristão do sagrado feminino no  território português, como um factor de paz, honrando as nossas raízes arcaicas, nomeadamente célticas, resgatando uma herança cultural, que é a dimensão mítica do Jardim das Hespérides. Embora o tema tenha chegado até nós por via da cultura grega clássica, ele é em tudo semelhante ao da Ilha mítica de Avalon, um Outro Mundo céltico. Tal como Avalon, trata-se de um lugar de Maçãs, e como afirmaram já vários autores nacionais, de António Quadros a Dalila Lello Pereira da Costa, esta faixa do território ibérico foi considerada como a contraparte física desse lugar paradisíaco, onde as famigeradas Irmãs do Poente guardavam as Maçãs de Ouro da Imortalidade, um tema indubitavelmente ligado à cultura celta. Consideramos que esta importante e legítima herança cultural possui grande potencial para nos inspirar no presente na criação de sociedades mais pacíficas, harmoniosas, sustentáveis, prósperas e inclusivas.

O propósito deste evento é pois congregar, de Portugal, bem como da Europa e de outras partes do mundo, pesquisadoras/es e praticantes do culto do sagrado feminino pré-cristão, endógeno e exógeno, alargando o conhecimento das nossas raízes culturais, incentivando o gosto pela preservação do património cultural e espiritual, material e imaterial, de Portugal e da humanidade em geral. 

O propósito desta conferência é ainda desenvolver as artes e os ofícios, reconhecendo tanto as suas origens na tradição como o seu potencial de inovação e de criação de bem-estar e riqueza para os indivíduos e as comunidades.


TEMAS DESENVOLVIDOS

Nesta Conferência, os temas relacionam-se com a arqueologia, antropologia, etnografia, teosofia, com foco no culto do sagrado feminino, em Portugal e no estrangeiro, eco feminismo, desenvolvimento humano, saúde e bem-estar. Artes, performativas e plásticas, bem como artifícios tradicionais e modernos são igualmente acolhidos e incentivados.

TIPO DE ACTIVIDADES

As actividades desenvolvidas constam de palestras, oficinas, performances, cerimónias, música e dança. Uma caminhada processional das e dos participantes, até um ponto específico, nas imediações do local onde decorre o evento, culminando com cerimónia de adoração da Senhora do lugar, faz igualmente parte dos trabalhos. O espaço da Conferência alberga ainda um mercado, onde são transaccionados produtos de fabrico artesanal, sendo que uma percentagem do valor, estipulada pela Associação Cultural Jardim das Hespérides, reverte a favor da mesma.

RECURSOS HUMANOS

Na realização do evento, participam nove Cerimonialistas, Sacerdotisas ou Sacerdotes da Deusa do Jardim das Hespérides (formadas/os pelo Templo da Deusa do Jardim das Hespérides, Óbidos, Portugal), ou da tradição de Avalon (Glastonbury/Inglaterra) ou ainda da tradição ibérica.

Estas Sacerdotisas são coadjuvadas por um outro grupo de nove Sacerdotisas ou Sacerdotes, designadas por Sacerdotisas do Círculo, maioritariamente constituído por Sacerdotisas ou Sacerdotes igualmente formadas pelo Templo da Deusa do Jardim das Hespérides, Óbidos, Portugal.

Um grupo de colaboradoras/es, designadas por Melissas, com tarefas relacionadas com a organização e funcionamento do espaço físico, tradução ou actividades multimédia, em número variável, integra igualmente a equipa dos recursos humanos necessários para a realização deste evento. A coordenação geral deste grupo está a carga de uma Sacerdotisa do Jardim das Hespérides designada para o caso pelo título de Melissa-Mãe.


RECURSOS MATERIAIS

Salão amplo, cozinha e refeitório, jardins exteriores, artefactos relativos ao culto do sagrado feminino, videoprojector, tendas para o mercado.

DURAÇÃO E PERIODICIDADE

A duração actual da Conferência é de três dias e a sua realização é bienal. A primeira edição ocorreu em 2019, em Sintra, e a segunda em 2022, na Várzea de Sintra, estando a terceira projectada para acontecer em Maio de 2024, igualmente na Várzea de Sintra.

PÚBLICO ALVO

Mulheres e homens, nacionais e estrangeiros. Crianças e adolescentes são igualmente integradas em actividades específicas.

RECURSOS MONETÁRIOS

A participação neste evento implica por parte do público o pagamento de um bilhete, cujo valor visa cobrir os custos relativos ao aluguer do espaço, deslocações, alojamento e alimentação de toda a equipa e outros, bem como gerar receitas para diferentes actividades a desenvolver pela Associação Cultural Jardim das Hespérides.

PATROCÍNIOS

São aceites patrocínios de entidades que desenvolvam actividades com afinidade com os temas apresentados.

 Imagens de Sara Miguens (excepto a primeira)

 

 

 

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

LENÇO DE NAMORADAS - Artefactos das Mulheres, Artefactos da Deusa

 

Há uns tempos, dinamizei um workshop, incluído numa celebração de Beltane do Templo, cuja actividade central consistia na criação dum Lenço de Namorados, que é um artefacto muito da nossa tradição (mas não só), realizado em tempos pelas mulheres do Minho, mais precisamente de Vila Verde, para oferecem ao eleito do seu coração. A autora era muitas vezes uma rapariga do campo, pouco letrada, que sobre o tecido de linho bordava versos singelos, escritos em má ortografia (erros em que certamente o rapaz também não teria muitas condições de reparar…) e desenhos ingénuos.

Hoje em dia essas prendas de enxoval são consideradas obras de arte popular, muito apreciadas e valorizadas, e com razão, replicadas e vendidas no mercado a preços muitas vezes proibitivos. Mas na altura, tendo em conta que o nosso primeiro compromisso deve ser connosco mesmas, antes de nos comprometermos seja com quem for, para não nos dissolvermos, digamos, na relação, tive a ideia - e concretizei-a com um grupo de mulheres por Beltane - de juntas concebermos um lenço pessoal, que funcionasse como o garante material de um compromisso assumido antes de mais connosco mesmas.

Nunca esquecerei essa actividade tão sagrada, e ao mesmo tempo divertida, e tenho o meu lenço de bolso pessoal religiosamente guardado para ocasiões especiais.

E que ocasiões podem ser essas em que, em algumas partes do mundo, como na Grécia actual, as mulheres continuam a usar os seus lenços de bolso como símbolos sagrados e muito arcaicos do seu poder pessoal, do seu poder de criar e de liderar?

Um artigo sobre este tema dos lenços que encontrei há dias numa revista online responde a essa questão. A autora, Laura Shannon, fala-nos da forma como estes itens eram vistos por sociedades matrifocais do passado que cultuavam a Deusa. Eles representavam uma espécie de prolongamento, ou de representação da própria mão da Deusa. Sabemos do poder deste membro divino pela importância que continuamos a dar à famosa mão Hamsa, a Mão de Fátima, ou de Maria, usada por tantas pessoas no mundo como um poderoso talismã de protecção.

Essa mão da Deusa, que por vezes ostenta uma decoração em forma de vulva, diz-nos a autora, remete precisamente para os Seus divinos poderes criadores e protectores. E a autora cita o exemplo da Grécia actual, com as suas danças tradicionais de mulheres em que este artefacto funciona para elas como um símbolo de poder pessoal e de liderança. A mulher que comanda os movimentos da dança, usa-o na mão e depois passa-o à mulher que a revezará nessa função. Na realidade, esse poder de dirigir a dança será partilhado pelo grupo de mulheres, e é através da passagem do lenço de mão para mão que essa partilha se concretiza:

“Na cultura da dança ritual feminina, toda a mulher deve ser capaz de orientar o círculo de dança no momento apropriado. Entre outras coisas, o seu lenço significa a sua disposição de assumir o papel de comando quando for a sua vez – na dança e na vida – e mostra que a sua comunidade pode contar com ela sempre que necessário. Desta forma, o lenço, sempre presente nas roupas folclóricas das mulheres, comunica os antigos valores europeus de apoio mútuo, responsabilidade coletiva e liderança partilhada que são tão centrais para a cultura da dança tradicional”.

 Nas palavras de Laura Shannon, “Na Grécia de hoje, as mulheres fazem o seu mandíli com intenção de oração, não muito diferente de outras tradições sagradas da arte popular, como os rushnyky, panos rituais bordados pelas ucranianas. Normalmente, o mandíli é branco, orlado com bordados, rendas, missangas ou lantejoulas para proteger quem o usa de energias negativas ou do 'mau-olhado'. Às vezes, o mandíli apresenta símbolos concretos, como esta figura bordada da Deusa/flor com raios de sol vibrantes no lugar da cabeça e das mãos.

E conclui:

“Quando dançamos as danças antigas, descodificamos os símbolos sagrados e assumimos o papel de liderar, afirmamos o nosso próprio poder inato de trazer um novo modelo de liderança a um mundo que precisa urgentemente que avancemos nesse sentido. Quando conduzo a dança com um mandíli na mão, sinto que estou hasteando uma bandeira esquecida de uma nação de mulheres há muito perdida – mulheres que um dia souberam tecer, trabalhar e adorar juntas, com confiança e alegria. E o mandíli afirma que ainda nos lembramos”.

Na verdade, os lenços de bolso têm uma muito longa e rica história de uso em épocas mais recentes, em várias partes do mundo, nomeadamente para a comunicação secreta entre as e os amantes*. No entanto, faz todo o sentido aprofundarmos o estudo da sua origem e integrá-los na antiga cultura da Deusa que agora com tanto entusiasmo regatamos e que lhes deu origem.

Isto pode então dar aos Lenços de Namorados portugueses de Vila Verde, no Minho, toda uma outra contextualização e sentido, e a questão que surge é: Será que a ênfase actual no papel exclusivo deste item como um “lenço de namorados” não espelha exatamente o que enquanto mulheres temos feito com o nosso poder pessoal na cultura onde vivemos?

Entretanto, muitas imagens de trajos tradicionais portugueses, como esta que aqui apresento, mostram-nos as mulheres usando lenços na cintura. Por certo eles são considerados apenas "de namorados", mas a verdade é que o seu significado parece ser bem mais arcaico e poderoso.

Tal como afirma a autora deste artigo, acho que vale muito a pena resgatarmos o antigo e poderoso significado que as nossas antepassadas deram um dia a estes artefactos sagrados da Deusa!

© Luiza Frazão, Sacerdotisa responsável pelo Templo da Deusa de Óbidos


Poderá encontrar aqui o artigo original de Laura Shannon:

https://feminismandreligion.com/2023/02/09/womans-sacred-hand-and-handkerchief-by-laura-shannon/

*https://www.dailysabah.com/feature/2016/02/19/handkerchiefs-the-secret-language-of-love,


Imagem 2 https://www.sapatosnamorarportugal.com

Imagem 5: http://trajesdeportugal.blogspot.com

segunda-feira, 23 de janeiro de 2023

O PODER MÁGICO DA ORAÇÃO

“Ao longo dos séculos, mesmo na escuridão da perseguição e das violências, pessoas alcançaram “milagres” pelo uso correcto da oração. A oração é um meio para transmitir e receber energia de um ponto para o outro, em busca de alento, alegria, inspiração, força, cura, auxílio, paz e graça. Descrita como “força vital universal” esta energia é um vórtice vivo e vibrante que existe em todo o universo e está ao alcance de toda a gente. Se o poder da oração fosse compreendido e praticado diariamente, não somente a vida das pessoas iria mudar, mas o mundo inteiro. A oração é um acto de fé que busca ativar uma ligação, uma conexão, um pedido, um agradecimento, uma manifestação de reconhecimento ou, ainda, um acto de reverência e gratidão diante de um ser transcendente ou divino. Ela pode envolver o uso de palavras espontâneas ou decoradas, mantras ou repetições de certos sons, visualização de um determinado arquétipo divino ou sobre natural para “falar”, desabafar, pedir, ouvir ou agradecer. Existem diferentes formas de oração, como a de súplica, adoração, gratidão, louvor, em busca de orientação ouvida ou intuída, para alcançar um determinado objectivo, seja em benefício próprio ou para o bem das outras pessoas ou do planeta, sem tentar interceder de forma específica, apenas pedindo para que o plano divino encontre o melhor caminho para ajudar. Segundo Mahatma Gandhi a “oração é a chave que abre a porta da manhã e fecha a da noite. Ela é o meio mais potente de acção, mas requer, sem dúvida, uma fé viva. A fé nasce na calma do espírito, na contemplação e no trabalho. A oração não deve ser dirigida apenas para invocar ajuda. É também louvor, glorificação e um acto de purificação”.

A real e actual crise na Terra é a falta de energia espiritual e a oração seria o melhor meio de ajudar a solucionar essa crise, independentemente de para quem se ora: Deus, Deusa, o Grande Espírito, a Mãe Terra, Orixás, Anjos, Santos, Guias, Devas, Mestres ou ancestrais. O amor e a fé são mais importantes do que a crença – a oração não pertence apenas às e aos escolhidos, ela é o direito de nascimento de todas as pessoas. Desde que haja fé, ela pode ser vista como como uma canção da alma que expressa luz ao seu redor, que ajuda a elevar, curar e beneficiar todas as pessoas e tudo o que existe. É importante lembrar-se de honrar e abençoar as dádivas que a Mãe Terra nos oferece diariamente, em todas as circunstâncias, ocasiões e momentos, nem sempre como recompensa ou resposta, mas como aprendizagem ou desafio para o nosso crescimento (…)”.

Mirella Faur

Prefácio do Livro de Orações à Deusa, Cler Barbiero de Vargas

sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

LUZIA, antiga Deusa do Solstício de Inverno ainda cultuada em Portugal

 

O Solstício de Inverno é o tempo abençoado da Deusa Anciã, da Senhora dos Ossos, da Pedra, da Montanha e do Inverno. Senhora daquilo que sobrevem à morte, do que resta, do que é eterno e sem forma, do puro Espírito - respiração espiritual da terra, sopro vital, que no vazio do Inverno, quando a terra adormecida repousa e recobra forças para o novo ciclo, zela pela chama do Fogo da criação, sonhando com a nova vida.

É assim que a Deusa Anciã, como é celebrada neste festival, toma a Sua forma de Donzela para levar o Fogo para o interior, para que se mantenha em segurança e as brasas da lareira do coração da casa, da comunidade e de cada um e cada uma de nós não se apaguem durante a longa travessia do Inverno. Na verdade, em várias partes do Hemisfério Norte, Ela é celebrada como Luzia, ou Lúcia, que a igreja cristã reduziu à condição de santa, na noite de 12 para 13 de Dezembro, a antiga data do Solstício de Inverno, segundo o calendário Juliano, que perdurou desde 46 da nossa era até 1582, ano em que foi substituído por outro, o gregoriano, imposto pelo papa Gregório XIII.

Em Portugal, Luzia também é celebrada em muitos lugares nessa noite, com fogueiras e convívio animado, que implica partilha de alimentos, música e dança. Devo dizer que tive no ano de 2021 o privilégio de ir pela primeira vez a essa celebração deliciosa, em Usseira de Óbidos, que tão profundamente aqueceu o meu coração e avivou o meu espírito e o meu sentimento de integração na comunidade, quando precisamente ainda estávamos a viver a quarentena.


O nome desta divindade, Luzia, ou Lúcia, deriva de lux, que é luz em Latim, e os Seus poderes compreendem o de proteger a visão. Consta do Seu lendário que parte do martírio a que foi sujeita consistiu em lhe serem arrancados os olhos. Se interpretarmos esta história à luz dos Seus divinos poderes pagãos arcaicos, percebemos que a mensagem coincide com a proposta deste tempo de interiorização, de hibernação, quando a visão mais importante é a interna e não a externa.

Em outra lenda, Luzia usa uma coroa de velas acesas sobre a cabeça, o que lhe permite ter as mãos mais livres para transportar alimentos, quando penetra nas catacumbas romanas para dar assistência a quem aí terá sido obrigada/o a refugiar-se. A memória dessa coroa de velas torna-se patente nas belas procissões de Santa Luzia, que todos os anos se realizam nesta data nos países nórdicos.

Ela é assim a Deusa Anciã, no Seu avatar de Donzela, que leva a luz para o inframundo do Inverno profundo, guiando-nos nestes tempos sombrios, abrindo a nossa visão interna, iluminando o que é realmente importante, alimentando com a Sua sabedoria essa chama, trazendo-nos insights e inspirando-nos neste tempo de sonharmos a nossa vida como a queremos. Aí, o Seu poder ilumina as sombras da melancolia, do pessimismo, do isolamento, da depressão. Para que essas sombras não se apoderem da nossa alma, nem da alma da comunidade. Saímos de casa nessa noite para o largo da nossa “aldeia”, e acendemos-Lhe fogueiras, em gratidão, a essa Deusa que sabemos que vela pelo nosso fogo interno, pela nossa esperança nela, que incuba a preciosa chama da vida e a vai manter protegida até retornar como a Sua própria Donzela pelo Imbolc.

 Nas brasas desse fogo nos aquecermos, bem como na chama do calor humano que todas e todos geramos nessas ocasiões abençoadas, em profunda alegria e confiança por estamos juntas e juntos e podermos contar uns e umas com as outras na longa e penosa travessia da estação fria e nocturna, sabendo que se alguma chama se extinguir, em outras se poderá reacender.

 A celebração do Natal é herdeira destas tradições do Solstício e em muitos lugares também se acende nessa noite e pela do Ano Novo, no centro da aldeia, o tronco natalício, ou o madeiro do Natal.

 Peçamos então à Deusa Anciã do Inverno, Mãe do Ar, que com o Seu sopro mantém acesas as brasas do fogo da nossa alma, que nos traga a Sua sabedoria para podermos de novo regressar ao alinhamento com o significado mais genuíno destas celebrações do Inverno, libertando-as das garras do consumismo. 

 Conectadas antes de mais com a nossa alma, com o profundo amor e sabedoria da Deusa em nós, é possível reencontrarmos o mais puro sentido destas festividades na essência pagãs, e sentirmos o prazer e a alegria de simplesmente estarmos juntas e juntos, no aconchego do calor do nosso fogo partilhado. Quer estejamos em família, quer não, o segredo é sentirmo-nos conectadas e conectados ao nível da alma com a Grande Família Humana e com a intensa corrente de amor que todos e todas juntas conseguimos gerar.

 Acredito que estes são tesouros da Anciã do Inverno, escondidos no nosso interior, na secreta natureza do Inverno, com essa magia a que apenas se acede no silêncio e na quietude, onde recebermos o sopro da Vida que chega até nós no Seu Ar em movimento, trazendo-nos sussurros e insights de outras dimensões, conexão com o Espírito eterno, que no vazio e na escuridão, sonha, desenha e prepara o surgimento da nova Vida, quando, pelo Imbolc, a Luz regressar do inframundo. Abençoada.

©Luiza Frazão 

Imagens:

1. Celebração de Santa Luzia, Usseira de Óbidos, 2021

2. Santa Luzia, Santa Maria da Feira

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